Escrever no fogo

Alcínio Vicente - Aldeia do Bispo - © Capeia Arraiana

Já a noite se esvaíra, cinzenta lenta e fria ameaçando chuva. Qual manto negro carregando um silêncio magoado com sabor a tristeza.

Quando Alfama anoitece - pintura de Alcínio

Quando Alfama anoitece – pintura de Alcínio

Cercado pelo muro da escuridão vencendo medos, preconceitos ,tabus sociais.
Fechado em quatro paredes, ora atrás, ora à frente do tempo, como se não houvesse nem presente nem passado, espírito liberto dos ruídos do som e das luzes do dia.
Momento de acção criadora e reflexiva.
Fechado entre as quatro paredes da escuridão, brilha e aquece a lareira, confidente e fiel companheira da solidão.
Como um farol que barre os pensamentos sombrios que escorrem pela mente-
Como um filme ou roteiro da nossa vida vão desfilando na corrente da nossa consciência vencendo o querer da vontade.
Questões de ordem metafísica existenciais ontológicas ou deontológicas acodem mais facilmente à consciência.
Estamos na encruzilhada das sombras e luzes, do silêncio e do bulício, do pranto e da alegria, do fulgor das paixões e do seu esboroar, da sua luz da verdade e da mentira, do sonho e da desilusão da angustia e da paz.
Momento do encontro com a nossa identidade com o que somos e ou o que julgamos ser, com feridas que podem sarar mas que continuarão sempre a doer.
Para quê efabular, se todos somos uma história viva, com um roteiro que foi escrito a fogo com a verdade da vida.
Todos esses momentos geram um forte impulso de insatisfação de reestruturação do guião da vida como uma pincelada um novo tom.
Como o fogo que liberta a luz e calor ao mesmo tempo que reduz a cinza o elemento que o alimentou, assim a nossa vida não é mais que um processo autofágico que se alimenta dos nossos actos vitais.
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«Vivências a cor», de Alcínio

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