A trilogia religiosa de Nuno de Montemor (3)

Jesué Pinharanda Gomes - Carta Dominical - © Capeia Arraiana

O primeiro «romance» (assim Nuno de Montemor o classificou) de tema bíblico, melhor, de tema inscrito no Novo Testamento, foi «Maria, a Pecadora» (Lx.a, União Gráfica, 1930, 220 pp.) mas na edição não consta, salvo erro e omissão, que esse romance, ou biografia, ou hagiografia, fosse o primeiro volume de uma trilogia. Ao tempo, surgiu como obra independente de outras do mesmo autor.
(o terceiro de 3 artigos)

Nuno de Montemor

Nuno de Montemor

(Veja os dois textos precedentes: aqui e aqui)

Temor e tremor apoderaram-se dos corações e dos ânimos dos amigos ou discípulos de Jesus. Carecem de um empurrão, de uma palavra de ordem. A qual lhes é dada por Madalena: «Só é grande o amor que não tem medo».
Transcorridos os dias desde a Ressurreição e já a Ascensão consumada, abrem-se vagas de perseguições aos apóstolos, e aos seguidores do Messias, cada vez em maior número. A família de Betânia foi aprisionada, sendo Lázaro, Marta, Maria Madalena, a criada Sara, Maximino e Trófimo metidos num barco no Porto de Java, e abandonados à sorte, a inaudito sofrimento, mitigado pela esperançada prece de Madalena: «Senhor! Que a tua vontade seja feita».
No capítulo final, o biógrafo propõe-nos a morte ou dormição de Nossa Senhora, que a Madalena e a João, antes de abalar, lhes recomendou para ensinarem a mar os homens como cada um deles (João e Madalena) amavam Jesus. E cheia de luz, assim, João e Madalena a viram ascender ao céu, «coroada de estrelas».
A vontade do Senhor foi a de que Madalena deviesse apóstola entre os apóstolos. A barca arribou a uma praia em que muita gente se concentrou, incluindo um romano que a questionou, tendo Madalena respondido que não fora trazida pelos deuses, mas que fora Jesus Cristo que ali a conduzira, provocando a ira do romano que clamava que a adoração era só devida aos deuses, arrastando Madalena, que ameaçava com a espada, obrigando-a a ir a bordo do seu navio. Então Madalena tirou do seio uma pequena cruz de cedro que pôs na mão do romano, a quem advertiu: «mais forte que a tua espada é esta cruz», e, tirando-lhe a espada, «quebrou-a nas suas mãos de açucena».
O capitão romano, perplexo, ajoelhara e, no meio da turba convertida, Madalena e os companheiros entraram na cidade, onde as estátuas dos deuses já haviam sido destruídas.
No meio da confusão e da perplexidade, o capitão acaba por reconhecer Madalena, que questiona se por acaso ela não é Maria de Magdala. Resposta como fio de navalha: «Não, sou Maria do Calvário».
As páginas finais da hagiografia bebem em fontes apócrifas, legendarísticas, surgidas no Império Romano, logo nos alvores do Cristianismo. De Santa Helena, mãe de Constantino, se fixou a invenção da Santa Cruz, e também a fama de que achara os corpos dos Três Reis Magos, os quais translada para Constantinopla, de onde, passando por Milão, e durante as guerras entre esta cidade e o Imperador Frederico I, foram por fim levadas para Colónia, na Alemanha, onde continuam a ser motivo de culto na famosa Catedral.
També, à chegada a Marselha, Lázaro era eleito bispo e, pouco depois, dando a cada apóstolo um séquito de convertidos, Madalena enviara Marta para Avinhão, Trófimo para Arles e Maximino para Aix. Os hagiógrafos beneditinos muito contribuíram para a fixação desta lenda áurea, tendo anunciado que o corpo de Madalena, vindo da Provença, estabelecera residência em Vézelay (1).
Após a dormição da mãe de Jesus, Madalena Regressou a Sainte-Baume, duma gruta fazendo o Calvário do Ocidente. Ali, na idade de 55 anos, uma noite veio, e, ao clarear da manhã, murmurou: «Vai então chegar a minha hora…» «e logo dois anjos alvíssimos da ressurreição surgiram a tomá-la nas asas para a levar».
Cumpriam-se trinta e dois anos sobre a data em que Madalena «subira ao Gólgota, carregada de óleos e aromas para ungir o Mestre, e ao voar agora nas asas dos anjos, por aquela madrugada límpida de Abril, os campos verdes da Provença cheiravam aos perfumes do Calvário.
Pouco importa, na ordem ficcional, se houve mais do que uma. Basta o protótipo desta Maria Pecadora, que essencializa todas em geral e cada uma em particular. O que importa é o modelo proposto de uma mulher que, tendo caído, se ergueu e que, sendo fraca se tornou forte, capaz de uma epifânica metamorfose no seguimento de Cristo. Na verdade, o escopo do romance é Cristo. Esse juízo foi, de resto, gravado na frase com que Nuno fecha a contemplação de Madalena: «aquela estrela que Jesus profetizara como guia e glória às nações do ocidente».
Nuno de Montemor não sacrificou o realismo das situações à essência mística que elas comportam. Todo o texto resulta num poema, ou em cânticos, qual esse, extenso, que Madalena escutou nas vozes do povo em aclamação do Messias, nas praias de Tiberíades: «Cristo é o príncipe da luz / que ama e guia os que perdem… Príncipe do Amor tudo por Ele estremeceu e rejubila».
Nela se cumpriu, em momento crucial, o acordo entre a Pecadora e o Salvador: «Mulher! Os teus pecados estão perdoados. Levanta-te e vai em paz, porque o teu amor te salvou.»
Assim Madalena «ficou apenas a estrela suavíssima da ressurreição, a reflectir-se nos séculos fora, nas lágrimas que choram os arrependidos do mundo».
A obra recebeu variados elogios, sobretudo de personalidades da vida cultural e social e da imprensa católica, mas consideramos que, ao tempo, os pareceres da revista Brotéria eram os mais tidos em conta. Eis o juízo: «A nota literária dominante é o seu poder de imagem e de ritmo». O crítico admite que não é uma obra perfeita «mas é uma estátua feita com inegável sinceridade», podendo ser entendida como uma tentativa de poema épico-lírico-religioso».

Nota 1: De Chanteloup, «L’Apôtre de la Provence ou l avie de glorieux S. Lazare, premier Evêque de Marseille», 1684; Bolandistas, Acta Sanctorum, 22 de Julho. No cap. 17, consta um apócrifo, uma carta de Madalena a Nossa Senhora, dando conta da crucificação de Lázaro (pp 209-2012).
:: ::
«Carta Dominical», Pinharanda Gomes

Deixar uma resposta