O falar de Riba Côa – o léxico (134)

O Falar de Riba Côa - Paulo Leitão Batista - © Capeia Arraiana

Damos continuidade à apresentação do léxico «O Falar de Riba Côa» com as palavras e expressões populares usadas na raia ribacudana.
Entre os termos TRAVADO e TUTOR.

TRAVADO – indivíduo que se movimenta com dificuldade, devido ao reumático ou a outro mal.
TRAVADEIRA – o m. q. travadoiro.
TRAVADOIRO – corda usada para segurar os estadulhos do carro sensivelmente a meio, para que mantenham a verticalidade e não cedam ao pesos dos molhos ou das fachas, que os podem partir.
TRAVESSA – pente semicircular usado pelas mulheres para segurar o cabelo.
TRAVESSAL – vara giratória da picota; o m. q. cambo.
TRAVIA – soro do leite. Noutras terras traduzem por: requeijão.
TREATO – espécie de alpendre sem cobertura em frente do balcão, destinado só à lenha (Franklim Costa Braga). O m. q. paranho.
TREBELHANO – pessoa a quem se prende a fala e cuja linguagem se torna de difícil compreensão (Clarinda Azevedo Maia – Fóios). Ainda segundo Clarinda Azevedo Maia, em Vale de espinho dizem trobilhano para designar pessoa que não sabe dizer nada e que, por isso, é tida por palerma.
TREDO – traiçoeiro; velhaco; falso (Júlio António Borges).
TREMEDOURO – acto de tremer. Estás com o tremedouro.
TREMÊS – espécie de trigo que amadurece três meses após nascido.
TREMIADO – parte do moinho onde cai a farinha vinda da mó (Clarinda Azevedo Maia).
TREMÓIA – caixa colocada em cima da mó do moinho, servindo de depósito do grão (Júlio António Borges); o m. q. moenga.
TREMPE – suporte de ferro, com três pés, onde se colocam as panelas ao lume.
TREPA – sova; tareia.
TREPICAR – implicar (Júlio António Borges). Também se diz entrepicar.
TREPOLA – pedaço grosso de pernada de árvore; cepo. «Batem com varapaus nas tocas e trepólas em chamas» (Joaquim Manuel Correia).
TREPULHÃO – monte; bocado (Clarinda Azevedo Maia).
TRESANDAR – exalar cheiro muito intenso – cheira a vinho que tresanda.
TRESMALHO – rede com bolsa interior, usada na pesca (Júlio António Borges).
TRESNOITAR – passar a noite fora de casa, sem dormir.
TRETA – léria; coisa sem sentido. Isso são tretas!
TRETEIRO – o que tem treta; manhoso (Júlio António Borges).
TREVAS – cerimónias religiosas da Semana Santa (Júlio António Borges). Clarinda Azevedo Maia, fiel à dicção popular, registou em Vale de Espinho trebles com o mesmo sentido.
TRIÂNGULO – o m. q. trempe (Júlio António Borges).
TRIGO – pão feito de farinha triga.
TRILHADURA – abcesso ou ferida nos pés (Francisco Vaz). Infecção na planta dos pés provocada por espinhos não extraídos (Duardo Neves).
TRILHAR – debulhar o cereal com uso do trilho.
TRILHO – alfaia agrícola própria para debulhar o trigo na eira (o centeio malhava-se com recurso ao mangual), composta por várias tábuas paralelas, com pedras bicudas incrustadas na base. Era arrastada por animais de tracção. Peculiar era a presença do garoto encarregue de, com um recipiente, apanhar as eventuais fezes dos animais, para que não conspurcassem o cereal. José Prata chama-lhe trilha – «era trabalho árduo o da trilha» – e Clarinda Azevedo Maia confirma ser essa a expressão usada em Aldeia da Ponte.
TRINCADEIRA – acto de comer; petisco. Estão na santa trincadeira.
TRINCHA – seixo liso, óptimo para fazer saltar no leito dos açudes (Rapoula do Côa).
TRINCHO – tampa de panela (José Pinto Peixoto, Leopoldo Lourenço). O m. q. testo. Trinco de fechar as portas (Clarinda Azevedo Maia – Aldeia da Ponte).
TRINDADES – toque que anuncia as reza das ave-marias, ao fim da tarde. Francisco Carreira Tomé chama-lhe também a hora do lobo, altura em que todas as crianças tinham que largar a brincadeira e correr para casa.
TRISTO – triste (Clarinda Azevedo Maia – Aldeia da Ponte).
TRITEIRO – titereiro; actor de circo; saltimbanco que corre as aldeias dando espectáculos (Júlio Silva Marques).
TRÍZIA – icterícia; doença que se manifesta com amarelidão da pele e dos olhos.
TROCHADO – coisa mal feita (Júlio António Borges).
TROGALHO – pessoa mal ajeitada; desajeitado (Júlio António Borges).
TROIXEL – estrado de madeira usado nas cabanas e em algumas lojas (Júlio António Borges).
TROLORÓ – fala barato (Júlio António Borges).
TROMBA – focinho de porco. Cara – expressão jocosa: levas na tromba.
TROMPAÇO – trambolhão; tombo; queda provocada por tropeçar. Clarinda Azevedo Maia registou na Lageosa trumpaço.
TRONCHO – o que foi cortado por cima (Duardo Neves).
TRONCO – mulher muito gorda (Clarinda Azevedo Maia – Batocas). Estrutura em pilares de pedra, ou de madeira, onde se ferram os animais. Os troncos eram erguidos na via pública, junto às fráguas, sendo um importante património das aldeias.
TRONGA – mulher de mau porte (Célio Rolinho Pires).
TRONGLO – desajeitado; desastrado (Júlio António Borges).
TROPÊÇO – toco pequeno e grosso; cavaco. Pessoa que anda sempre a cair; trôpego.
TROUXA – palerma; pobre diabo. Embrulho de roupa.
TROXEL – fardo; carga; trouxa (Júlio António Borges).
TROVISCO – planta com propriedades venenosas, muito usada para apanhar peixes nas ribeiras. Para norte, em Figueira de Castelo Rodrigo, segundo Júlio António Borges, chamam-lhe trovisqueira sendo costume dependurar um ramo na porta de casa, na altura das trovoadas, para protecção dos raios. Para sul, nas terras do Campo (Monsanto) dizem travisco (Maria Leonor Buescu).
TRUNFA – cabelo comprido e emaranhado; cabeleira.
TRUQUE – jogo de cartas; ardil, armadilha.
TUÃO – rede para pescar no rio, que se coloca sobre as ramagens que forMam a camboa. «O processo mais cómodo e usado para a pesca da truta é com tuões» (Joaquim Manuel Correia).
TULHA – monte de batatas, cereais ou frutos. Celeiro ou armazém onde esses produtos se depositam.
TUMBA – esquife ou padiola onde se levavam os mortos à sepultura. «As pessoas eram levadas numa tumba, que era um rectângulo com dois metros de comprimento, oitenta centímetros de largura e quarenta ou cinquenta de altura» (António Cerca). Sepultura (Clarinda Azevedo Maia).
TUNHIR – ter – termo da gíria de Quadrazais (Franklim Costa Braga).
TURBA – multidão; povo.
TURCA – bebedeira.
TURDESCO – rapaz rude, simplório (Duardo Neves).
TURRA – teima; disputa. Andam sempre às turras.
TÚRRIO – casmurro; teimoso. Leopoldo Lourenço escreve turreo.
TUTA E MEIA – pouco valor; barato; insignificância.
TUTOR – vara que serve de ampara a árvore ou arbusto.
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Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

leitaobatista@gmail.com

One Response to O falar de Riba Côa – o léxico (134)

  1. Cá venho então falar dos falares do Casteleiro.
    Quais destas palavras se usam lá?
    Eis as que conheço:

    TRAVADO, TRAVESSA, TREMPE, TREPA, TREPICAR (mas dito assim: interpicar), TRESANDAR, TRESNOITAR, TRETA, TREVAS (ouvia-se esta palavra, sim: tenho uma vaguíssima reminiscência), TRIGO, TRILHO, TRINDADES (que saudades do sino da minha ladeia no meu tempo de criança…), TRÍZIA, TROGALHO (mas dito trongalho), TROLORÓ, TROMBA, TRONCHO, TRONGA, TROPÊÇO (dizem que eu sou tropêço!!!! – mas não é que caia: caem-me as coisas das mãs e eu ando devagar – ah! E bato em todo o lado…), TROUXA, TROVISCO (mas dito travisco), TRUNFA, TRUQUE, TULHA, TUMBA, TURBA, TURCA, TURDESCO, TURRA, TÚRRIO, TUTA E MEIA, TUTOR.

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