Nuno de Montemor o poeta (2)

Franklim Costa Braga - © Capeia Arraiana

Celebram-se 133 anos sobre o nascimento do escritor Nuno de Montemor, que veio ao mundo em Quadrazais, no frio dia 16 de Dezembro de 1881. Evocamos a data, e também o cinquentenário da sua morte, publicando o estudo de um seu conterrâneo, Franklim Costa Braga, acerca da sua faceta enquanto poeta. O estudo divide-se em quatro partes: I- Introdução; II- O poeta; III- Sentimentos dominantes na sua Poesia; IV- Conclusão.
(O segundo de dois textos)

Nuno de Montemor

Nuno de Montemor

III- Sentimentos dominantes na sua poesia
Em Amor de Deus e da Terra, parece que não estamos perante poesia. Mais parecem os salmos de Salomão ou David em prosa poética. O título do livro resume o tema e o assunto desse livro. É o amor de Deus pelas suas criaturas, sobretudo pelos abandonados da sorte, e do homem pela criação de Deus. O sofrimento é elogiado porque regenera. Os sentimentos brotam da alma em catadupa. E a expressão de sentimentos forma a poesia lírica:
No primeiro poema, o velho vizinho a quem se lhe cortou a água e outras maldades se lhe fizeram, não deixou de ter melhores culturas e frutos que o rico, a ponto de o rico preferir a casa do velho à sua e comer os frutos do velho. O velho rezava com os filhos e Deus ajudava-o. O velho não mostrava rancor ao rico e recebeu-o em sua casa uma noite com toda a misericórdia, vendo Deus no rico que vinha rezar com ele.

Amor de Deus e da Terra, de Nuno de Montemor

Amor de Deus e da Terra, de Nuno de Montemor

No poema Os Apóstolos das Coisas, nome que atribui aos lavradores porque criam flores e natureza e demais coisas, embelezam e salvam a vida sem terem instrução. São apóstolos da Natureza porque receberam a graça e o poder de criar as coisas. Mais uma vez estamos perante autênticos salmos bíblicos.

No poema A Alegria e o Bem continua o tom salmódico em que, se o bem fosse praticado, tudo na terra seria alegria e Deus diria aos Anjos e aos Santos: «Vamos, meus amigos para o mundo». E por uma manhã, ao acordar dos homens, Deus teria atapetado a terra, da seda azul do firmamento; a abóbada celeste seria o telhado lindo do mundo, e, então, a Terra seria o Céu.

No poema Os que eu amo, os pobres e abandonados, revela todo o seu carinho e compaixão pelos desprezados da sorte e dos homens. As figuras de estilo não estão ausentes, como esta comparação: Eu amo, enfim, a dor e a alegria quando elas se ajudam, nos homens, como se casam a sombra e a luz, para fazerem um quadro de maravilha.

No poema Salmo do Sol os verbos mais usados são: Alegrem-se, louvem, porque o sol é o mensageiro de Deus, Aleluia! Como diz o título, é um autêntico salmo.

Em Salmo das Estrelas, cheio de metáforas e animizações (a olhar saudosamente a terra; como são pacíficas e humildes!; até a Lua, que é a serva obscura do céu, as apaga; em cada noite as suas pupilas tremem de febre, e em cada manhã se vêem exaustas, envelhecer;) chama a piedade de Deus para as estrelas.
Em Saudades da Neve é o louvor a esta que faz dizer – benvinda, bem hajas;

Em Confiteor desejaria ser como um deus capaz de ter poder sobre a natureza para esta lhe obedecer (eu quereria a Natureza inteira, silenciosa, a pensar e a sofrer, angustiada, como a família que me rodeia. É que eu mereço que as coisas da Natureza me louvem e me obedeçam).
Coloca a natureza acima dos homens, que odeia porque destroem a natureza e os produtos desta apenas o servem. Por isso termina: Porque não há uma Revelação em que todos os homens recebam a graça de sentir a Beleza?

Em Ninho morto, um pai que tivera uma filha que nunca chegou a ver, por se ter ausentado como marinheiro, mas a quem ofereceu uma taça japonesa que a miúda partira, ao voltar e ao saber da morte da mãe e filha, supõem-nas encantadas entre as flores do jardim. Um caco da taça junto duma roseira, que é agora, quando brilha, o sol doente do meu passado. E agora, sentado junto da roseira velha, parece ter perdido a sensibilidade e vive no martírio de apenas saber terem estado e vivido nele pelas feridas que lhe deixaram, e reza, como rezam as roseiras velhas, que já não dão rosas, rezam o perfume das flores que lhe cortaram.

No poema O Cântico da Dor, que começa com um autêntico salmo: «ó vós todos que sofreis, calai os gemidos e ouvi-me», exalta o sofrimento e pede aos sofredores que o aceitem, porque conduz à felicidade e a Deus. Por isso, ó vós todos que gemeis, exultai, dizei aleluia! O sofrimento é, assim, o melhor oiro de que se faz a taça por onde o homem bebe a graça forte de Deus; porque o homem não encontra o Céu andando em plano fácil, horizontal, mas elevando-se, purificado, nas asas brancas das grandes penas; – o sofrimento redentor é ainda o tema do poema No Calvário da Vida.

No poema Sempre Viva é ainda o sofrimento do filho que faz vir a mãe aproximar-se dele: quanto mais duramente sofro, mais perto te sinto, porque Deus Piedoso te manda a consolar-me.

Em As criancinhas pobres revela um carinho extremo pelas crianças: que eles (os filhos) enraízem e prendam no nosso coração, como rosas da mesma haste. Que esta haste seja o tronco de uma família melhor, e estas rosas o ramo heráldico de uma futura nobreza.

No poema A Graça do Sofrimento é o sofrimento duma filhinha que consegue fazer rezar o pai, esbanjador e arredio de Deus, a ponto de ajoelhados juntos ouvirem aquela (a mãe) que os chamava do Céu.

Em Amores, amores, através das quatro amadas que o narrador teve (uma fidalga, uma cigana, o Anjo cantora da ópera e uma freira – o Anjo do seu poema), louva a Natureza que louva a Deus, através de muitas imagens: o rio que ali passava, à beira daquela serra, envolvia-a de pureza; e o seu castelo era um berço brando e branco onde se embalava a Inocência. Abandonado pela fidalga, diz: «amo, desde então, as oliveiras e as rosas, as espumas das ondas e a claridade das manhãs».
Sobre a cigana: uma cigana bela de olhos garços, como cinzas, escondendo lume, e lábios trémulos, cor de brasa, a gritar prazer; os seus beijos mordiam-me como abelhas de asas veludíneas, escorrendo mel; quando ao acordarmos, o sol floria o orvalho do campo, parecia terem caído estrelas sobre a nossa cama; morta a cigana, fiquei desejando uma noiva que tivesse a castidade das rolas e a alegria pura das manhãs e que a sua alma me desse os segredos do silêncio campestre ao anoitecer.

Sobre o Anjo do seu poema – o coro de Deus não estava na sua capela, mas disperso por todo o mundo, nos lábios religiosos das coisas; no céu tanto se ouviam as campainhas dos rebanhos, soando pelas relvas, como os sinos de bronze, reboando das torres para as nuvens, que no mundo era tudo oração e culto; olhando, piedosamente, as nuvens brancas que subiam, como se elas fossem o incenso das infinitas orações.
Da fidalga já nem sei a cor dos seus olhares, mas vejo ainda a cor do céu, e as suas rosas, as suas oliveiras, o seu castelo, as águas que lho cercavam vêem ter comigo nas horas de lua doce; vem-me aos ouvidos o poema que rasguei-são todas as seivas da Primavera, a cantar-mo devagarinho.

Em Alma penada critica a infidelidade a uma promessa de amor: o homem de negro que, pelo braço te levava, era a morte que te conduzia; as amigas que, de branco, te seguiam, eram companheiras do funeral; ao contrário dele, que continua a vir todas as tardes junto da cerejeira velha, redobrar a fidelidade: para que Deus te perdoe e te recolha (da vida errante de alma penada).

Em Depois da tempestade: a minha alma era a andorinha que deixara partir o bando e ficara sozinha; eram mais belas as neves desfolhadas, caídas do meu céu; as rosas do seu jardim sorriam a dar-me as boas-vindas, festejavam-me as suas plantas, envolvendo-me de perfumes; e o que tens sido tu, meu amor, na minha vida senão o Céu aberto sobre o Vale de Lágrimas do meu Passado?

Em Narcisa a mãe aconselha a filha quanto aos seus amores que ela confunde consigo própria: mas esse homem é um espelho, e quando o olhas é a tua perfeição que vês.
A água é espalhada pelas leiras e: em cada leira, em cada rego, em cada árvore, em cada flor, vibrava a seiva forte de uma vida nova. E a mãe aconselha: filha, a vida não é um homem nem uma mulher: faz das tuas lágrimas o que fez a água deste lago (renovar a vida).

Em Escrever para quem?, com a morte da amada deixa de ter sentido continuar a escrever, pois: as flores da minha Arte, cultivadas, pelos dois, para os teus olhos, eram como roseiras plantadas, por nós, à volta da nossa casa. Tu eras a Dona da Casa, a Rainha do Jardim, a Senhora da Beleza. E, por isso, nunca mais reviverão as flores mortas do meu sonho, porque se têm, ainda, a água fiel do meu pranto vivo, falta-lhes o Sol-Criador dos teus olhos mortos.

Em E vós? é a Natureza e Deus que estão, mais uma vez presentes: um par, após vaguear à busca de ventura, encontra-se numa árvore cheia de ninhos. Pergunta ao Senhor onde haverá lugar para eles e o Senhor responde: em Mim, meus filhos. O diálogo com o divino é constante.

Em O meu único Amor recorda a infância e as brincadeiras com a filhita de Isabel Tomé. Esta morre e ele: quando vejo um velho cego e mendigo, a andar e a sofrer no mundo, guiado pela mão pequenina e pura de uma criança da tua idade, consola-me a ideia de que tu, meu doce amor, minha Isabelita, hás-de vir um dia buscar-me, assim, pela tua mão, para me levares, docemente, entre luzes e flores, até ao Céu. Este desejo ou antevisão que o venham buscar para o Céu é também uma constante.

Em Reencontrei-te sente-se abandonado por Deus e volta-se para a Natureza, até reencontrar Deus. Mas a sua sede de perfeição infinita não se satisfazia: às madrugadas, com as veias em febre e as mãos em sangue, eu galgava as serras altas para matar a sede na boca pura, onde nas-cem os rios que regam e sustentam o mundo. E bebia, bebia! A água era fresca e pura, abundante e doce, mas sempre pouca para encher o infinito da minha sede em brasa. Até que surge de entre as flores uma forma branca que lhe diz: Filho, o teu reino não é deste mundo. A tua sede eterna tem sido a ânsia de Me encontrares. E eu entreguei-me, Senhor, recostando a fronte no Teu ombro suavíssimo.

Em Momento retoma o tema do sofrimento que oferece a Deus: a tragédia de um homem, para o resto da gente, é tão ignorada como a dor de um passarinho ferido.

Em O coração das pedras louva as pedras por serem humildes, bondosas e terem coração: As pedras grandes que das serras rolaram para os vales são monges tristes dos campos; à sua volta a natureza sorri, só a pedra imóvel, mirrada de sede e de penitência, medita, absorvida, na dureza do seu sacrifício. As aves dizem delas em animização: As pedras, coitadinhas, não comem por amor de nós. As plantas, ao verem que as pedras não bebem a água que passa junto a elas, dizem: as pedras não bebem por amor de nós. Nelas recostam a cabeça os pobrezinhos; são pisadas nas calçadas pelos homens -sendo, assim, humildes; formam as cidades e as aldeias, dominam as cor-rentes dos rios, abrigam as cinzas dos mortos, ladeiam os caminhos dos homens, dão tudo ao mundo, sem dele tirarem a menor coisa; tão boas são, que só fazem mal nas mãos dos homens. Prouvera a Deus que os corações dos homens fossem tão bons como os corações das pedras!

Em Terra alta louva a cidade da Guarda com os seus atributos de fria, feia, forte, farta e falsa, porque só a ele se dá, só a ele sorri, a ele é fiel; só eu te compreendo e amo; eles querem o teu pão, a tua lenha, eu só quero a tua beleza, possuo-te inteira, no esplendor das serras e dos vales; o Mondego e o Côa cobrem-te, às manhãs, o corpo na macia alvura da sua névoa e ficas mergulha-da, a sorrir, num oceano vasto de leite; é que eu te quero, é que eu te amo, minha terra alta de azul e neve;

Em A tentação é a paz do eremita, que ele se julga entre as casas da cidade, que aprecia contra o bulício e ódio dos homens: eu vivo entre as casas da cidade como um eremita entre penhascos; a vozearia das ruas é vento sussurrando nas árvores do meu ermo; os ódios e os combates são trovoadas distantes que eu ouço rezando; mas há na pedra da minha fonte uma taça de paz por onde todos bebem; eremita de um mundo novo, eu sirvo a Deus, rezando no meu ermo para que os homens sejam humildes e bons.

Em O gentil-homem ironiza o luxo dos criados e a obediência cega destes, a ponto de ter um a guardar os portões de prata só para dizer, sorrindo gentilmente aos pobres: tenha paciência, não pode ser.

Em Crucificado elogia Portugal: a terra era Santa Isabel, florindo como o seu regaço; tu foste depois o Paulo dos mares, o Apóstolo das gentes por descobrir; e para as encontrar e converter, tu andaste sobre as águas como o Nazareno.

Em O Filho da Mendiga revela o carinho pelos pobres e a culpa da sociedade pela miséria e morte: os seus olhos azuis, onde o leite diluíra a luz das pérolas eram duas estrelas espavoridas que a noite se esquecera de levar; e agitando os braços, o pequenito balbuciava e chorava, parecendo dizer à Justiça que quem lhe matara a mãe fora aquela gente, toda aquela gente.

No último salmo – Avé Maria – numa completa alegoria à volta da oração Avé Maria imagina que o berço do Menino se agarrou à terra e floresceu e à sombra desta árvore cada um encontrava o lar e a eternidade. E na hora da nossa morte, sentai-Vos à beira do nosso leito, e embalai-o contente, como a Mãe embala o filho recém-nascido.

Sobre Amor de Deus e da Terra disse Antero de Figueiredo: É um livro de delicadíssima sensibilidade. De tal modo se amam nele os desventurados, que Nuno de Montemor parece ter ouvido, da boca de Jesus, o Sermão das Bemaventuranças, encontra-se nele o êxtase do autor ante a graça da mulher portuguesa, entrevista em imagem perfeita. E Fernando de Sousa: Cada trecho deste livro é um cântico em que vibram os mais nobres sentimentos. A música suave da palavra ergue dele um hino à beleza da criação em que se espelham as perfeições divinas.

Em Água de Neve, poema pastoril, é a beleza da serra e o amor que dominam, expressos por uma infinidade de imagens, encadeadas, a ponto de formarem uma autêntica alegoria. Um velho poeta da corte, para curar a princesa, aconselha: Se beber água de neve, o céu azul a curará.

Água de Neve, de Nuno de Montemor

Água de Neve, de Nuno de Montemor

Há um diálogo entre a princesa e um pastor, em que este lhe explica que só há neve no cume, que o sol não derrete porque o sol e a serra se querem bem. Tudo aqui fala e sente, tudo na montanha se conhece e respeita. A serra é sossegada como um Templo, e como na Igreja tudo aqui reza. Na serra, os homens e as coisas entendem-se. Até as plantas e as pedras aqui têm coração.

Para além do louvor da estrela, dos seus gados, a ponto de viver na Estrela ser melhor que na corte, revela patriotismo: Ainda as vossas terras eram de moiros e vós filhos de escravos, e já nós havíamos sido gente livre e forte de Portugal (diz o pastor). Nenhum cortesão quis ir buscar a neve aos píncaros, mas foi o pastor. Nas noites de luar, que na serra é como sol coado por seda branca… Atrás de cada pedra vejo uma lança que aponta, em cada brilho de água imagino uns olhos que espreitam. Lanças e olhos de guerreiros lusitanos que aqui ficaram, à espera que ele volte como rei, a comandá-los. Mas o sol nasce e logo estas pedras lembram sepulturas. Por isso andam ribeirinhos e regatos a chorar-lhes à volta.

A candura e o respeito das gentes da serra: Na gruta do pastor, este parte uma estátua que fizera, como se a princesa, qual passarinho, nascesse daquele ovo (a estátua). A princesa dorme na gruta, guardada à porta pelo cão e o pastor vai dormir entre as ovelhas. E quando nevar sereis vós que aqui vindes ter comigo, diz o pastor à princesa que partia; e a vastidão da serra era oceano imenso de leite, onde os cumes altos e azuis das montanhas distantes assomavam como navios de aço, ancorados em pleno mar; e quando o sol do meio dia bebeu, ardente, o alvo mar (a névoa), a serra chorava, orvalhada, pela princesa que abalara.

A Princesa tudo transforma, como a amada do século XVI: e todas as terras lhe surgiam, encantadas e lindas, porque a Princesa nelas passara, embelezando-as. Foi ter à corte: os povoados brancos eram rebanhos, e os casais entre jardins, ovelhas dispersas em pasto florido. E sorriu de reencontrar a neve e a serra, o rebanho e o céu. Porque a neve, a serra, o rebanho e o céu da Es-trela eram agora a corte onde a Princesa se acolhera. Tenta refazer em neve a imagem da Princesa, mas o sol sempre a derrete. Faz a estátua de barro- e ainda hoje a neve piedosa lha veste de princesa, às escondidas do sol, nos dias em que o céu, também piedoso, se faz peneira de seda alva, para que sobre a estátua a neve caia, miudinha e branda, a dar-lhe a cândida visão da Princesa que ali passou.

Em Quando se Tem Mãe são, sobretudo, o carinho, a gratidão e a saudade da meninice que se revelam em todos os poemas.
a)- Carinho: O poeta revela um carinho extremo pela Mãe, palavra que escreve sempre com maiúscula, como se a mãe fosse para ele Deus ou a Virgem.
É sobretudo o carinho recíproco entre mãe e filho que acompanha todos os poemas deste livro. As palavras são escolhidas: sobre o leito do teu filhinho.
A mãe é: meu suave Amor, também em maiúscula, minha adorada mãe, minha mãe querida, meu Amor, Mãezinha; meu Anjo da Guarda; minha conselheira; minha mãe.
Da mãe diz: tua boca suavíssima, tua voz celeste, teu regaço de milagre, tuas brancas mãos, fala de encanto, teus dedos de milagre, teu regaço de milagre; o arminho suave das tuas mãos celestes; era no teu rosto que despontava o sol e o dia, quando às manhãs, eu acordava a sorrir-te; mas também, se eu sofria, dos teus olhos tombava a noite, com estrelas cadentes, a correrem nas tuas faces; anos breves assim andei nas asas brancas dos teus braços; as luzes leves dos teus olhos doces, para fecharem as pálpebras tristes dos meus olhos tristes.
Dele diz a mãe: boca de rosa viva, o rosado da tua face; asas desfolhadas no dia em que partiste; o teu canto passou a eco morto e sem promessa.
Diálogo entre a alma do filho, a mãe e o anjo da guarda daquele: (apesar de morto) – mas é sempre o meu filho amado! tu és a ovelhinha salva que Deus já encontrou; meu pobre filho, o que a terra e os vermes te vão fazer! E só de a verem (a Virgem), as flores mais se abriram e acenaram, contentes de perfumarem a Rainha dos Anjos e das Rosas;

b)- Gratidão e saudade são outros dos sentimentos patentes nesta obra:
Minha mãezinha, que estás no Céu, diz a Deus que te deixe vir (estava ele no hospital, em vésperas de Natal).
– A saudade do passado vivido juntos é o tema do poema Sombras Vivas.
– No poema Terra Estranha a saudade da terra da sua infância alia-se à mágoa de a ver desfigura-da, a ponto de já não a reconhecer, nem ela a ele. Vai até ao campo e aí sente-se em casa. Tudo se mantém como dantes, havendo uma irmanação completa entre a natureza e ele próprio: longo tempo o meu pranto e a ribeira correram juntos… os seus murmúrios respondiam bem aos meus silêncios. E foram os fios desta água e das minhas lágrimas que teceram este poema de mágoa e de saudade. O campo versus cidade ou povoados é o ressuscitar deste tema do séc. XVI.
– No poema Elegia dos Foguetes revela a mesma saudade do seu mundo de infância agora destruído, pela voz de um velhinho sentado à beira de um caminho enquanto a procissão na aldeia passava silenciosa, já sem foguetes, acusados de fazerem barulho e fumo, que o velho contrapõe ao barulho das bombas lançadas por aviões e ao fumo dos cigarros dos abades;

c)- Mãe milagreira: a mãe faz milagres: Ensina-me, de novo, o melhor jeito de pôr as mãos em prece,… e estas dores, estas feras, tornar-se-ão mansas e meigas como os animais de Jesus no Presépio de Belém…; nasci a chorar e a tremer das sombras e dos caminhos que, tão só, ia percorrer no mundo.

d)- Como nos clássicos, a mulher tem o poder de transformar cardos em verdura, tristezas em alegrias. É o que transparece no poema A Eterna Boneca: acumulam-se tesouros de pérolas e brilhantes, mas são montes de gelo e granizo de tormenta, se não há colo feminino que os receba com amor. E até o alvo trigo se faz negro pão do exílio, se não há mulher com quem o homem o reparta.
Nuno de Montemor domina a literatura clássica: Helena, Beatriz, Laura, Leonor, Inês, Natércia e os respectivos amantes Dante, Petrarca, Tasso, Bernardim, Camões surgem no poema No Jardim do Convento;

e)- A vanidade dos bens terrenos, inúteis para comprar o prazer de ouvir a voz da antiga amada está patente no poema Sem Folhas nem Frutos: E todas estas folhas lhe recordaram os cheques e os dólares, por que ele consumira e batalhara a vida inteira… riqueza vã que lhe não comprava agora um som daquela voz, nem um sorriso daquela boca que tanto amara;

f)- Amor à Natureza que é também útil: No poema Maldade Minha, quando o demónio lhe pergunta – quem é o teu próximo? Responde – a árvore que me ama, porque me dá sombra e fruto, a pedra que me acolhe, para que me sente e descanse, o jardim que me afaga entre flores e aromas. Quem me consola é a água que apaga a sede e o fogo que me abrasam, o burro que me leva, quando as pernas adoecem, o cão fiel que me guarda contra os lobos e contra os homens.
Quem dá à sua vida harmonia e doçura são as andorinhas que chilreiam no beiral do seu telhado, os bichos da relva e da água que lhe cantam, quando, à noite, o mundo se cala e adormece.
-No poema Sem Folhas nem Fruto a cerejeira do quintal é humanizada: as folhas da cerejeira eram hoje raras como os seus cabelos brancos, a cerejeira doente, árvore quase nua e velhinha que gemia ao vento.
Sol, estrelas, luar, água, neve, chuva, orvalho, jardins, flores, tudo perpassa na sua obra com apreço, admiração e carinho do poeta.
-No poema O Pinheiro Sozinho é no pinhal que se acolhiam os ventos batidos pelo norte, e as pombas medrosas, fugidas aos caçadores. Nele achavam os humildes a lenha para o lume e para o caldo, e as pinhas resinosas para a luz dos lares pobres, sem candeia; todos, de algum modo, os homens e as coisas, viviam do amor e no amparo do majestoso pinheiral; e, por tanta dor e martírio, o sagraram sábio e profeta, que traduzia os silêncios e os rumores dos seres e das coisas. Nele colhe a velha Ana as notícias que depois espalha;

IV- Conclusão
Sobre Amor de Deus e da Terra escreveu Augusto de Castro: encontram-se nele das mais lindas páginas da poesia contemporânea.
E Fernando de Sousa disse: É lamentável que o livro Amor de Deus e da Terra, que, sob o ponto de vista artístico, é a mais alta manifestação do talento de Nuno de Montemor, não seja tão conhecido e apreciado quanto merece.
Sobre Água de Neve escreveu Afonso Lopes Vieira: Nuno de Montemor afirmou-se, neste livro, um dos mais puros poetas de Portugal.
No prefácio a Quando se Tem Mãe, o mesmo Afonso Lopes Vieira diz:
Para a minha alma, Nuno de Montemor é dos mais puros poetas de Portugal. Admiro, nos seus cânticos ou hinos, a funda comoção que os trespassa, e os seus ritmos soam-me a vozes de órgão ou corais religiosos. O poeta achou, no próprio sangue, a forma que lhe havia de convir, ao mesmo tempo forte e fluída, de religiosa cadência bíblica, impregnada dos reflexos, aromas e sabores espirituais da Pátria.
Estas palavras inúteis continuam a minha admiração e simpatia pelo rústico breviário deste poeta português, serrano piedoso, de alma brava e meiga.
Como estas palavras vinham de um poeta do Estado Novo, não tiveram eco nos jacobinos, anti-clericais, maçónicos e esquerdistas da República, que ignoram Nuno de Montemor. Não terão gostado que tenha dito no poema Crucificado: e durava mais de três séculos a tua (de Portugal) rua da Amargura quando o Judas Pedro IV levantou a cruz onde estrangeiros te crucificaram; mas, meu Portugal, como Jesus que ressuscitou ao terceiro dia, tu ressurgirás, redivivo, ao cabo de três gerações.
O Dicionário de Literatura, publicado pela Livraria Figueirinhas em 1969, trabalho dirigido pelo prof. Jacinto do Prado Coelho, não contém nenhuma referência a Nuno de Montemor.
Nem a ele se referem a História da Literatura Portuguesa, inclusive a de Feliciano Ramos, por onde eu estudei no Seminário de Évora, saída em 1958.
Mas nem todos o esqueceram. O poema E a Virgem não se Cansava foi incluído na homenagem que poetas portugueses recitaram na Emissora Nacional em louvor da Virgem, no dia da coroação de Nossa Senhora de Fátima, em 13 de Maio de 1946.
As suas obras foram apreciadas por muitos leitores, a ponto de se fazerem várias edições de vários livros. As gentes da Guarda apreciaram o que disse sobre elas e, por isso, o homenageiam.
E, se em Portugal, nenhuma antologia inclui textos seus, já em Itália Guido Batelli incluiu três poemas numa antologia.
:: ::
Franklim Costa Braga

3 Responses to Nuno de Montemor o poeta (2)

  1. Alberto Pachê diz:

    Um excelente trabalho de análise da poesia de Nuno de Montemor.Parabéns Franklim Braga.

  2. José Augusto Correia de Oliveira diz:

    Será possível encontrar ainda hoje, e onde, os livros de Nuno de Montemor “Amor de Deus e da Terra” e “Água de neve”? Já os tive comigo, mas extraviaram-se há mais de 40 anos. Agradeço a deferência de uma resposta.

Responder a José Augusto Correia de Oliveira Cancelar resposta