Nuno de Montemor poeta (1)

Franklim Costa Braga - © Capeia Arraiana

Celebram-se 133 anos sobre o nascimento do escritor Nuno de Montemor, que veio ao mundo em Quadrazais, no frio dia 16 de Dezembro de 1881. Evocamos a data, e também o cinquentenário da sua morte, publicando o estudo de um seu conterrâneo, Franklim Costa Braga, acerca da sua faceta enquanto poeta. O estudo divide-se em quatro partes: I- Introdução; II- O poeta; III- Sentimentos dominantes na sua Poesia; IV- Conclusão.
(O primeiro de dois textos)

Nuno de Montemor

Nuno de Montemor

I- Introdução
Não queria deixar terminar 2014, ano do cinquentenário da morte de Nuno de Montemor, sem fazer outro trabalho sobre a sua obra, já que em Janeiro escrevi um artigo sobre as personagens de Maria Mim.
Desde pequeno que me habituei em Quadrazais a ouvir citar o título do livro Maria Mim que falava das gentes da terra. Li-o ainda jovem. Jovem ainda, li outros livros do mesmo autor, quan-do frequentava o seminário de Vila Viçosa, da arquidiocese de Évora, como: Coração de Barro, O Irmão de Luzia e A Paixão de Uma Religiosa. De poesia não me recordo de ter lido algum.
Ainda frequentava a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa quando decidi fazer a minha tese de licenciatura sobre Quadrazais – Etnografia e Linguagem. Dediquei um dos capítulos à Gíria quadrazenha e consultei o glossário da Gíria que Nuno de Montemor apresenta no final de Maria Mim.
Ao escrever o 3º volume da minha obra Para que não se Perca a Memória de 400 Anos de Vida em Quadrazais, dediquei algumas páginas a Nuno de Montemor entre os autores naturais de Quadrazais e que falam de Quadrazais.
Na minha tarefa de procurar referências a Quadrazais em livros e revistas, folheei mais alguns livros de Nuno de Montemor para além de Maria Mim. Não encontrei mais nada nos seus livros, mas encontrei cartas transcritas na Gazeta do Sabugal e em A Guarda.
Estando de férias em Quadrazais no Verão passado, um senhor casado com uma quadrazenha a residirem em Coimbra falou-me dum livro de Nuno de Montemor que, percebi eu, falava de Quadrazais – Quando se Tem Mãe. Emprestou-mo e li-o todo de seguida. Nada encontrei nele que falasse da nossa terra comum, mas fiquei fascinado com a beleza dos seus versos.
Tinha esse livro em minha casa, já que havia comprado na rua, em Lisboa, a colecção quase completa do autor, aquando da falência da União Gráfica, e nunca o havia lido, desconhecendo que Nuno de Montemor era tão bom poeta.
É sabido que a poesia é composta de ideias, as frases, e de sonoridade musical dada pela repetição de sons e pelo ritmo. Mas, mesmo com estas duas condições, ainda não temos poesia. As palavras têm de ser poéticas, isto é, serem polissémicas, terem vários sentidos, que não apenas o científico. As palavras no seu sentido científico constituem a prosa pura. Mas a prosa pode ser poética se as palavras que a constituem forem polissémicas, e até pode ter ritmo, dado pela posição dos acentos tónicos das palavras que a constituem. Se as palavras se dispuserem sob a forma de verso com rima mas sem palavras polissémicas, estamos perante prosa versificada.
Para termos poesia pura há que juntar à forma de verso o texto polissémico. Não necessita absolutamente da rima para ser poesia pura, mas se lhe acrescentarmos rima, esta dá mais sonoridade à poesia e torna-se mais agradável ao ouvido.
Há pois que juntar polissemia e sonoridade para termos poesia pura.
A polissemia obtém-se sobretudo através do uso de figuras de estilo: comparações, metáforas, alegorias, personificações ou animizações, hipérboles, ironias, etc.
O ritmo é dado pelo encadeamento de palavras que tenham a sílaba tónica sempre numa deter-minada posição e melhor será se o verso tiver sempre o mesmo número de sílabas métricas.
A sonoridade é-lhe conferida sobretudo pela rima.
Nuno de Montemor é um poeta moderno, isto é, que seguiu o exemplo dos Românticos, livres de peias de escolas clássicas ou neoclássicas, que obrigavam a um rigor formal com versos de igual número de sílabas e rima.
Por isso, não apresenta verso rimado nem com o mesmo número de sílabas.
Ele próprio define a sua poesia em post-fácio a Amor de Deus e da Terra. «O ritmo das ideias e das emoções substituiu a harmonia fónica das palavras e das sílabas». «Na metrificação usada hoje, o ritmo das formas verbais, por muito plástica e eufónica que seja uma língua, prende os voos imaginativos do poeta, na gaiola de oiro dos sons e das rimas. Preferi sempre a harmonia dos pensamentos e das emoções, à consonância dos acentos e das rimas, e o paralelismo (oriental bebido na Bíblia) é, por essência, a realização daquela harmonia».
Alguns dos seus poemas mais parecem narrativas em prosa poética. É o caso dos seguintes poemas de Quando se Tem Mãe: Maldade em Flor, Glória in Exelsis, O Senhor Macário, Os Em-pinados, autêntica sátira, A Visão de S. Francisco e Em Louvor do Burrinho, onde enumera elogiosamente as virtudes do burrinho: é a humildade sem par, é a sobriedade sem mácula e suprema, é a paciência sublime e sem fim, é a lealdade no mundo, é de admirável bondade e modéstia.
Embora a 2ª parte (não formal) seja constituída por poemas que mais se assemelham a prosa poética, está, no entanto, também cheia de imagens e figuras de estilo: rodeia a nora para dar água às flores e aos frutos que lhe sorriem; ele (burrinho) é como os filhos tristes dos pobrezinhos.
Como disse Augusto de Castro numa opinião sobre Amor de Deus e da Terra, as páginas deste livro têm o ritmo do êxtase. E Fernando de Sousa: cada trecho deste livro é um cântico em que vibram os mais nobres sentimentos. A música suave da palavra ergue dele um hino à beleza da criação em que se espelham as perfeições divinas.

Embora sendo mais conhecido como romancista e, entre nós, mais pelo seu romance Maria Mim, não deixa de ser um grande poeta.

II-O poeta
O autor cita Wagner que dissera: «Creio em Deus e em Beethoven», para nos dar conta do seu apreço pela poesia: «Eu jurei à Poesia Divina – só creio em ti e em Deus».
Artifícios poéticos usados:
a)- O estribilho ou refrão – no poema «O menino roubado»:
Era assim que minha Mãe contava e me sorria
Ao lembrar-se saudosa, de quando eu era menina…

No poema «O Presépio no Calvário» usa o refrão «Minha Mãezinha, que estás no Céu, diz a Deus que te deixe vir!…»
No poema «É tempo, Minha Mãe» usa um refrão com algumas variações:
dorme, dorme, meu menino,
que a mãezinha se não vai…

ou
dorme, dorme, meu menino,
que a mãezinha nunca foge…

ou
dorme, dorme, meu menino,
que a mãezinha logo vai…

ou
dorme, dorme, meu menino,
que a mãezinha já lá vem…

b)- Trocadilhos: para que em sonho do meu sono me deixes a mentira de saber que não mentiste; anos longos correram no andar triste dos tempos.

c)- O uso de conselhos:
Em »Quando se Tem Mãe»:
– Os conselhos da mãe:
Que o teu corpo, para ser puro, lembre que é feito da minha carne;
Que da tua pena não saia letra que eu não possa ler,
Nem dos teus lábios palavra que a tua mãe não queira ouvir.
E que nunca os teus pés andem por onde os meus se manchariam…

Que o rosado da tua face, que desde o berço beijei,
Não seja nunca sangue de crime nem marca rubra de vergonha.
E que jamais os meus olhos chorem e se magoem,
Numa obra das tuas mãos ou numa ideia do teu espírito.

– É este tom conselheiro que usa no poema «Não Penses, não Mintas», poema cheio de belas comparações. Também o poema «A Eterna Boneca» termina em tom de conselho indirecto:
É em castigo do Céu, por estas bonecas de trapos, que o homem perde os olhos e não vê se lhe passa ao lado a mulher que o merece.
No poema «Narcisa» (em Amor de Deus e da Terra) é o tom conselheiro de mãe para filha que predomina:
mas esse homem é um espelho e, quando o olhas, é a tua perfeição que vês; a vida não é um homem nem uma mulher; faz das tuas lágrimas o que fez a água deste lago-renovar a vida.

d)- Imagens:
O livro Quando se Tem Mãe é um rosário de imagens que se sucedem, como se de uma alegoria de princípio ao fim se tratasse. E não são imagens estereotipadas. São imagens criadas pelo autor, novas, que nos encantam pela sua beleza. Vejamos:
1- Comparações: como te pintou na minha alma o Anjo do meu baptismo; adormecera como um passarinho entre espumas brancas de rendas feitas pelos teus dedos de milagre; dos teus olhos, como das asas do Espírito Santo; como o Sol, que é sempre jovem, nas eternas madrugadas; teus lábios pousados como leves plumas, nos meus olhos; só eu errava triste como sombra, de sala em sala; como ave sequiosa de ter voado anos no deserto, o meu rosto incessantemente te beijava e os meus braços te erguiam; é como o andar do menino a vida do homem no mundo…de queda em queda ele tomba e se levanta; anda no chão como burrinho; as mãos esvoaçam-lhe como asas mal crescidas; e o fumo sobe sempre, como incenso, de todas as telhas; a Terra lembrava cemitério alvo e gelado, porque a neve, noite e dia, tudo consumira e rasara; os nomes dos imortais amores os aprendi, nas primeiras letras, como os oceanos nos mapas; as dádivas caíam-lhe, espaçadas e lentas, das mãos trémulas, como as folhas da árvore quase nua e velhinha, que gemia ao vento daquela fria tarde outoniça; como senhor de mil tesoiros, ali quisera sentar-se, à sombra em farrapos da cerejeira doente; como quem deita, num braço, um ramo de flores cortadas, aconchegou-lhe contra o peito, o busto martirizado; pinheiro gigante como um rei exilado a queixar-se às aves e ao céu do mal que lhe fizeram; para a levar (à água), de açude em açude, como em taças, aos pomares; e logo bandos de lenhadores armados, como alcateias de lobos contra mansos cordeiros; as pedras hoje brancas e secas, como ossos calcinados; via-se apenas o grande pinheiro de luto, como fúnebre cipreste a meio de um vasto cemitério; já envelhecido, eu voltei à terra da minha infância, e, como peregrino que sobe ao Monte Sagrado, fui ouvir o pinheiro, que em criança me encantara; como o velho nauta que, em mar desconhecido, fita a vista na Estrela firme e certa de marear; tão graciosas e puras saíram de cantar à Virgem, que o adro da aldeia se mudara em rumoroso jardim, onde as moças se moviam, como flores ao vento. Vestiam todas como as santas, ou as santas como elas.

2- Metáforas: as brancas mãos, duas asas suspensas a ensinar e a ajudar o primeiro passo; ondas de perfumes e aves passavam por nós; a asa da noite escurecia as rendas do meu berço; e rola no tapete, que é uma Primavera de rosas; astros não há, porque as estrelas que fulgem na consoada são os olhos da família e as brasas da lareira; aquela nívea mortalha (a neve); o primeiro instante da virtude que nos move é o primeiro voo da ave nova, a saltar do ninho… é o primeiro aroma da rosa que se abre, a sorrir; a asa roxa do passado; invadia-os um vago tremor, que era frio de vida e de morte; revoadas de mil lembranças; bandos de noivos, que nele (parque) andavam, passeando pararam, sorridentes, a escutar e a imaginar o som e o sabor de um beijo dado por duas sombras; mas os cristais eram gelo, os vinhos sangue recolhido; como ossos calcinados trazidos pelas torrentes de batalhas longínquas; meus queridos foguetes de seis respostas, meus cândidos passa-rinhos de fumo e de riso; no pico da serra, a ermida é lenço branco a acenar-vos.

3- Alegoria: o poema A Primeira Neve é um encadeamento de imagens à volta da luta entre a neve que tapou a verdura da terra e o sol, seu criador, que a pretende restaurar, derretendo a neve, terminando com a reconciliação entre ambos: e o sol só então reconheceu a neve formosa e boa, que dera de beber às coisas que ele criara e amava. E, já rendido e risonho, a moderar os seus raios, ao de leve e contente, a tomou nos lábios de oiro… E, gota a gota, beijo a beijo, dela ia bebendo, e sorrindo à Irmã Água, que se vestira de branco; sobre a neve dos anos, cai então uma chuva de rosas.
A história do Pinheiro Sozinho, do mesmo livro, na meninice do autor, que lhe fora contada pela avó, é uma autêntica alegoria que se desenvolve em duas fases: na meninice do autor, em que a serra ficou um deserto, e quando passados anos o autor aí volta e encontra a serra de novo povo-ada de floresta, em que conversa com o idoso pinheiro gigante que, enternecidamente lhe conta a sua história, como a ouvira em menino dos lábios da avó.

4- Personificação ou Animização: No poema O Presépio no Calvário: as dores são tantas, Mãezinha, tão vivas e tão velhas!… Elas conhecem-me e perseguem-me desde menino, e, nesta noite, que devia ser doçura e bondade, estão aqui todas, ameaçadoras, a rugir, a rodear-me o leito, como feras de goela rubra, a fazerem o Presépio do meu Natal!
No poema A Primeira Neve: nessa manhã, o Sol nascera vermelho e furioso; mas logo, pálido, tremeu, ao ver a terra amortalhada de branco; parado de espanto, na cúpula azul do firmamento, o sol prisioneiro se julgou, a olhar desolado, aquela imensa derrota; as aves pediam mais penas de agasalho ao amor de Jehovah; impaciente, o sol ia subindo e aquecendo.
No poema Sombras Vivas: no andar triste dos tempos; a passarada ria, devagarinho, nos ramos floridos… E o Cupido de mármore, a custo se continha, para não abrir os lábios maliciosos, a falar-lhes da eterna meninice, da vida e do amor; o sol, que já se não via, mandara-lhes um luar de neve, a ungir de sonho as ramarias e os troncos do parque.
No poema O Pinheiro Sozinho: aquele pinheiro gigante, melancólico e rumoroso, como um rei exilado, a queixar-se às aves e ao céu, do mal que lhe fizeram; era ainda nele (pinheiral) que a ribeira bebia água; bandos de lenhadores armados, como alcateia de lobos, os degolou(aos pinheiros) para as goelas rubras das máquinas de guerra; e para que ao martírio da serra nada faltasse…; na montanha, como em verde mar a galgarem as encostas, subiam às ondas, os bandos dos pinheiros novos; por mim iam passando aromas das flores e das seivas, que, saudosamente, me beijavam as mãos e o rosto; o vento sossegara de cansado, acolhendo-se, a sussurrar, a adormecer, na copa alta do Gigante; para me verem, terras e montes subiam atrás das árvores, que também se curvavam para me saudar. E toda a natureza se mostrava radiosa e contente; iam-se apertando, para me falarem, as paredes dos caminhos; tinha olhos a luz daquela água, porque me olhava, havia lábios nos seus murmúrios, porque me falava;

5- Hipérbole: Tão altos em alegria, se me ergueram os braços, que os meus dedos tocaram o firmamento e o sol;

6- Outros artifícios poéticos: luz que doirava todo o quarto; no meu quarto havia silêncio, sonho e melancolia; tu prendeste e guardaste o meu sono; geraste o meu sonho de beleza; agora venho eu guardar o teu sono e embalar o teu sepulcro, para veres como floriram as canções que semeaste á beira do meu berço; o rosado da tua face; as rendas alvas do meu antigo berço; o teu regaço de milagre era o travesseiro vazio e triste do meu leito; julgue que entre o seu peito e o meu peito se firmava o piso leve de uma ponte florida e suspensa onde eu poderia fixar os pés e segurar as mãos; nos meus olhos brilhavam ainda lágrimas e penas de receio; e sempre a vida a quebrar-se-me na mão quando a colho (como colheu a rosa); tinha eu escassos meses de leite e de regaço. Porque a mãe não podia amamentá-lo, se quisesse sobreviver: logo se firmou a sentença da primeira fome e do meu primeiro exílio; e foi assim que me desterraram para longe do seio de minha mãe, em lágrimas, o último leite corria perturbado, ao ritmo do seu peito; e cansado adormeceste na fome e nas lágrimas e eu senti que o ar e a luz faltavam à minha vida; vivíamos às escondidas um jogo de martírio – tu com a fome do meu leite, eu com a sede dos teus beijos; este suplício de Tântalo; e cada beijo me dava uma sede de água que me desafogava; boca de rosa viva; brilhava ainda a última gota de leite (que bebera do seu peito), que era agora a pérola preciosa do teu primeiro dente; e no pó que lhe ergue o bibe, quando brinca ou quando cai, ele faz a primeira lama, com lágrimas de inocência; corri o mundo todo a gemer saudades e a gritar martírios; a fechar o dia, o sol descorava, inclinando-se sobre o mar.
Diálogo entre a Virgem e as serpentes que lhe rogavam que abandonasse um menino pecador, mas que a Virgem não abandonou, antes o tomou no regaço num quadro de celestial ternura; aquele pedaço de céu azul… era o retalho para o vestido que jamais tivera e que Bebé, agora doente, sempre desejara…
Sempre que a via, ela dava-me, nos olhos, o céu inteiro, nas faces, as cores e os aromas de um roseiral, nos lábios e na voz a doçura das sinfonias dormentes.
(CONTINUA)

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