O falar de Riba Côa – o léxico (133)

O Falar de Riba Côa - Paulo Leitão Batista - © Capeia Arraiana

Damos continuidade à apresentação do léxico «O Falar de Riba Côa» com as palavras e expressões populares usadas na raia ribacudana.
Entre os termos TORPE e TRAULITADA.

TORPE – palerma; pateta; desajeitado; desonesto – ter uma vida torpe (Clarinda Azevedo Maia).
TORQUITESA – Louva-a-Deus – insecto. (Júlio António Borges).
TORRANHEIRA – amontoado de pedras soltas, de pequeno tamanho, que os lavradores juntam ao limpar o terreno; o m. q. tarrenheiro (Júlio António Borges).
TORRÃO – teimoso; obstinado (Júlio António Borges).
TORREIRA – calor; sol escaldante.
TORRESMO – pedaço frito da banha ou do redanho do porco; o m. q. churro (do Castelhano: torrezno).
TORTO – vesgo.
TORTO COMO UM ARROCHO – diz-se da pessoa travessa, manhosa, de má índole.
TOSA – sova; tareia; o m. q. somanta. Forragem de palheiro (Manuel Leal Freire).
TOSÃO – lã de ovelha. Rede móvel para apanhar peixe (na Rebolosa dizem tesão).
TOSAR – bater; sovar. Cortar rente; rapar – era costume meter as ovelhas na seara a tosar o centeio recém-nascido quando estava demasiado forte.
TOSAR A SAMARRA – dar uma sova.
TOSAR AS NABIÇAS – comer as nabiças (Carlos Guerra Vicente).
TOSQUIA – confissão; desobriga. «Nas pedras dos confessionários os pecadores renitentes fazem a sua tosquia anual» (Manuel Leal Freire).
TOSQUIAR – cortar o cabelo – linguagem jocosa (Clarinda Azevedo Maia – Forcalhos).
TÓTIOS – todos – termo da gíria de Quadrazais (Nuno de Montemor).
TOUCA – peça de vestuário com que se cobre a cabeça às crianças.
TOURAL – local onde o coelho bravo esterca. Ponto óptimo para o caçador esperar a caça de arma aperrada.
TOURÃO – furão não domesticado. Vítor Pereira Neves dá-lhe o significado de: gato bravo. Também se diz toirão.
TOURIL – curral de gado bovino; curro.
TOURO DA PROVA – touro que é lidado com o forcão logo a seguir ao encerro, para verificar se há boas expectativas para a capeia, que acontecerá à tarde.
TOVANAS – indivíduo sem jeito; vadio; cabeça-no-ar (Rapoula do Côa).
TRABISCO – nome de planta silvestre (Pinharanda Gomes); o m. q. trovisco.
TRABUCAR – trabalhar muito, como um mouro.
TRACANAZ – grande fatia de pão; naco.
TRADELA – trado pequeno ou verruma.
TRADO – instrumento de ferro em forma espiral com ponta afiada, usado pelo carpinteiro para abrir furos circulares na madeira.
TRAGÃO – pessoa que come muito; lambão (Clarinda Azevedo Maia – Batocas).
TRAGUER – trazer. Traigo: trago. «Tu trouguestes merenda» (Joaquim Manuel Correia).
TRAIFA – ritmo; desembaraço no trabalho.
TRAITORA – tairó, peça do arado de pau, que segura o timão ao dental (Clarinda Azevedo Maia – Fóios); o m. q. toiró ou teiró.
TRALATA – pessoa que fala muito; que tem muita lata (Júlio António Borges).
TRALHA – objectos diversos desordenados e sem préstimo.
TRAMA – fio que a lançadeira estende por entre os fios da urdidura do tear. Comboio de horário matinal que ligava Vilar Formoso à Guarda.
TRAMBELO – qualquer objecto grande e desajeitado (Clarinda Azevedo Maia – Batocas).
TRAMBOLHO – impecilho; obstáculo; pessoa que não se mexe e atrapalha os movimentos a outras.
TRAMBULHO – coisa mal feita (Clarinda Azevedo Maia – Fóios).
TRAMBUZANA – tempestade; trovoada (Júlio Silva Marques).
TRAMIADO – soalho do moinho onde se amontoa a farinha que cai das mós (Franklim Costa Braga).
TRAMÓIA – intriga; marosca; artimanha.
TRAMPOSA – manta – termo da gíria de Quadrazais (Nuno de Montemor).
TRANCA – pau grosso ou barra de ferro que se encaixa no lado interior das portas, para que se não abram. As casas eram antigamente assim fechadas, por não haver fechaduras nas portas. Bebedeira (Clarinda Azevedo Maia).
TRANCAÇO – grande bocado (Clarinda Azevedo Maia, Franklim Costa Braga) – trancaço de pão.
TRANCÃO – toro; cepo de uma árvore (Júlio António Borges).
TRANCO – salto largo; passada larga (Leopoldo Lourenço).
TRANGALHO – indivíduo mal vestido, mal arranjado, desmazelado; o m. q. endono (José Prata).
TRANGLITAR – abanar; agitar (Júlio António Borges).
TRANGOLAS – pantomineiro; intrujão (Joaquim Manuel Correia).
TRANQUEIRO – naco; pedaço de pão; o m. q. trancaço. Tronco de madeira que se coloca na lareira; cada uma das ombreiras da porta (Clarinda Azevedo Maia – Vale de Espinho).
TRAPA – armadilha para caça (Carlos Alberto Marques); ratoeira para os ratos (Júlio António Borges); o m. q. ferro.
TRAPO – pau de varrer o forno. O m. q. varredouro.
TRAQUE – ventosidade sonora.
TRAQUITANA – carro velho. Carga de coisas velhas (Júlio Silva Marques).
TRASANTONTE – trasantontem, dia anterior ao de anteontem (antonte).
TRASEIRADA – coice.
TRASGO – diabrete; aparição sobrenatural.
TRASTE – maroto; velhaco.
TRATO – contrato; ajuste. Júlio António Borges acrescenta: bocado de terra para granjear.
TRAULITADA – pancada; paulada. Pancadaria; desordem.
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Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

leitaobatista@gmail.com

One Response to O falar de Riba Côa – o léxico (133)

  1. No Casteleiro, dizem-se (diziam-se), tanto quanto sei:

    TORTO com ou sem a adenda COMO UM ARROCHO, TOSA, TOSAR, TOSAR A SAMARRA, TOSQUIAR, TOUCA, TOURÃO (não tenho a certeza – talvez fosse no Sabugal que na minha meninice ouvisse este termo…), TOURIL, TRABISCO (mas com v: travisco), TRABUCAR, TRADO, TRAGUER (esta é boa), TRALHA, TRAMBOLHO, TRAMÓIA, TRANCA, TRAQUE, TRAQUITANA, TRASTE, TRATO e TRAULITADA.

    Notas
    Não se diz TORRÃO, mas sim túrreo, para dizer o mesmo.
    TRAMBUZANA, não. Mas sim trambuzena, a significar desarranjo intestinal.
    Em vez de TRANGALHO, diz-se trongalho.

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