Casteleiro – Terra de Trabalho

Joaquim Gouveia - Capeia Arraiana (orelha)

:: :: CASTELEIRO :: :: – Aquela manhã do início de dezembro estava gélida! Da terra gretada pela geada da noite, emergiam formas vidradas, pontiagudas, parecendo estalagmites, deveras perigosas para quem por ali passava.

Casteleiro - A geada que enregelava os ossos - Joaquim Gouveia - Capeia Arraiana

Casteleiro – A geada que enregelava os ossos

Mais um dia de trabalho estava aí pela frente daqueles dois que tinham como permanente companhia a «Esperta». Cadela rafeira, tal como os seus progenitores, sem os atributos de raça pura, para ter direito a cartão de identificação nem a ração, daquela que vem em sacos muito bonitos, com um cão todo lustroso fazendo publicidade à marca. Era apenas uma cadela, mas para o Ti Vicente não havia dinheiro nenhum que a pagasse, daí o nome «Esperta» que orgulhosamente lhe deu, desde o primeiro dia que o acompanhou desde o povo até ao chão da Estrada.
Desde garotos que o Ti Vicente e a Ti Delfina conhecem o trabalho árduo do campo, como os dedos de suas mãos. Cresceram a percorrer os caminhos diferentes que os levavam aos sítios onde já os pais tinham nascido e desenvolvido o conhecimento pela terra: Gralhais, Carvalha, Alvercas, Poio, Estrada, Horas do Outeiro, Serra, Cruzes, Presa, Tapada Laja, Ribeira…
Um dia o destino cruzou-se e, desde então, ao longo de cinco décadas e meia têm-se aturado um ao outro. Como diz a Ti Delfina: «Atão, o casamento é isso mesmo, pró bem e pró mal, temos que nos aturar um ao outro.»
E nem o frio os metia em casa!
Só se for à noite, sim porque os dias agora são muito pequenos e a apanha da azeitona não é tarefa que se cheire.
O olival naquela manhã era um autêntico nevão. Antes de lá chegar, mesmo no portal de entrada, uma pedra vidrada fez tombar o jumento e, com ele, o magro almoço composto de pão, queijo e azeitonas das novas, bem retalhadas e curtidas como o Ti Vicente bem gostava.
A escada, de vinte «banços», tinha ficado lançada de véspera naquela oliveira «carrasca», onde colheram, cuidadosamente, a azeitona que iria permanecer em salmoura, durante todo o inverno, no velho pote de barro, já todo «esbocelado».
O rigor deste tempo enregelava as mãos, os pés, o corpo todo, torna ainda mais difícil este trabalho nobre, como nobre é a gordura que alimenta o corpo e ilumina a vida «Verde é teu nascimento/E de luto me vesti/Para dar a luz ao mundo/Mil tormentos padeci».
Mas, apesar do corpo corcovado, marcado pelo peso dos anos e do trabalho duro e longo, Vicente e Delfina não entregavam a colheita da azeitona a ninguém. No povo todos admiravam as «ganas» com que desafiavam cada dia, cada aurora anunciava.
Com o derreter da geada a terra enlameada agarrava-se ao rasto das velhas botas que um dia, há uns anos atrás, comprara na feira de São Martinho, tornando-as ainda mais pesadas e desconfortáveis.
Com a tarde já a fugir, de uma forma veloz, sim porque nestes dias de dezembro e sol deita-se demasiado cedo, era preciso preparar o regresso a casa, sem que antes, a Ti Delfina não tivesse já arrancado umas tenras cabeças de nabo que haveria de utilizar na sopa da noite. Com as aparas dos produtos «retraço» utilizado haveria de preparar a vianda para o seu porquinho. Apesar de estar já em fim de vida nada lhe podia faltar, afinal seria ele o verdadeiro conduto, companheiro no trabalho e em momentos de festa, ao longo de todo o ano. A partir de janeiro tinha a sua sorte reservada para a velha salgadeira, esculpida numa bruta pedra de granito e porta de madeira, enquanto os abundantes enchidos povoariam o caniço lá de casa.
À volta do lume o gato malhado estava agora mais feliz. O pelo parecia escaldar, mas nada que o fizesse arredar do farto lume que povoava a cozinha, agora mais acolhedora.
A «Esperta», fiel companheira, era a última a entrar em casa, apenas quando o Ti Vicente «acomodasse o vivo» e desse por findo o seu longo dia de trabalho.
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«Viver Casteleiro», opinião de Joaquim Luís Gouveia

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