O falar de Riba Côa – o léxico (132)

O Falar de Riba Côa - Paulo Leitão Batista - © Capeia Arraiana

Damos continuidade à apresentação do léxico «O Falar de Riba Côa» com as palavras e expressões populares usadas na raia ribacudana.
Entre os termos TOIRÓ e TORO.

TOIRÓ – teiró; travessa do arado que vai do tamão à relha. Também se diz tairó.
TOIRONDA – vaca com cio. Nota-se que uma vaca anda toironda quando anda irrequieta, querendo «montar» as outras, ou mesmo as pessoas.
TOIS – tu – termo da gíria de Quadrazais (Nuno de Montemor). Franklim Costa Braga acrescenta que, na mesma gíria, também se diz toienes.
TOLHIDO – paralisado; paralítico; entrevado.
TOMA – interjeição usada para chamar as vacas.
TOMADIA – apreensão de contrabando.
TOMATA – tomate.
TOMATEIRA – planta que dá tomates; tomateiro.
TOMATEIRO – indivíduo natural de Aldeia da Dona.
TOMBA – remendo do calçado.
TOMBADOIRO – pequena elevação pedregosa no caminho, que pode fazer virar (tombar) um carro de vacas quando carregado.
TOMBA LADEIRAS – brutamontes; pessoa com muita força (Júlio António Borges).
TOMBALAZANA – o m. q. tomba ladeiras (Júlio António Borges).
TOMENTO – parte mais fibrosa e áspera do linho (planta), que é o seu desperdício, extraído na espadelagem.
TOMILHO – planta aromática que cresce espontânea no campo. Júlio António Borges diz tratar-se do rosmaninho.
TONA – rebento da cebola (Duardo Neves). Superfície da água. O corpo veio à tona.
TONEL – vasilha de madeira em aduela para o vinho, com capacidade superior a 200 litros (Manuel dos Santos Caria).
TONELEIRO – pessoa que faz ou conserta toneis; tanoeiro (Clarinda Azevedo Maia – Forcalhos).
TONHO – diminuitivo de António.
TONTANA – doido; pessoa que não bate muito certo. Clarinda Azevedo Maia registou tontano.
TOPA-A-TUDO – indivíduo que percebe de todas as tarefas (Vítor Pereira Neves).
TOPADELA – encontro brusco contra algum impedimento no caminho; dar, sem querer, um pontapé numa pedra.
TOPAR – encontrar; achar.
TOPAR A TUDO – fazer de tudo um pouco; estar apto para todo o serviço (Joaquim Manuel Correia).
TOPETE – cabelo da maçaroca do milho (Clarinda Azevedo Maia – Vale de Espinho – que regista ainda tepete, expressão recolhida nos Fóios).
TOPINHO – burro coxo ou de pernas tortas.
TORADA – tronco de árvore grosso; cepo; trepola.
TORBA – peça do moinho, em madeira, na forma de funil, onde se deita o cereal para moer; o m. q. moenga (Clarinda Azevedo Maia – Lageosa).
TORCA – peça de ferro movediça que segura o parafuso; porca (Clarinda Azevedo Maia).
TORCEGÃO – torcer um pé; o m. q. estorcegão.
TORCIDA – bebedeira muito forte. Mecha de candeeiro.
TORCIDO – pessoa com músculo ou osso fora do lugar (Vítor Pereira Neves).
TORDO – pessoa ignorante (Clarinda Azevedo Maia – Forcalhos).
TORENA – bebedeira (Júlio António Borges).
TORNA – comprimento da terra que está a ser lavrada (espaço percorrido em cada rego). Local onde o lavrador volta a junta das vacas quando anda a lavrar. Regresso; retorno. Júlio António Borges acrescenta: compensação dada a outro herdeiro menos favorecido nas partilhas.
TORNA-BOI – forma de ceifar, em que o eito se retoma no ponto de chegada (José Prata).
TORNA-DIA – regime de ajuda mútua, com igual retribuição em dias de trabalho.
TORNADEIRA – espécie de forquilha com que se deita o cereal e o feno para o carro (Júlio António Borges).
TORNADOIRO – desvio de água nas regas. Rego de água (Francisco Vaz). Fracção da leira dimensionada para uma rega útil (Duardo Neves).
TORNA-JEIRA – troca de favores entre lavradores, um dá uma jeira ao outro e depois recebe outra em troca.
TORNAR – regressar; voltar; mudar de direcção. Tornar as vacas; tornar a água. Responder; «dar troco».
TORNILHÃO – pé de porco (Clarinda Azevedo Maia – Aldeia da Ponte).
TORNO – ponta de madeira saliente na parte de baixo da cheda do carro de vacas, própria para prender a corda de encarrar. O m. q. mexilho (Clarinda Azevedo Maia – Aldeia da Ponte).
TORO – tronco de árvore; cepo.
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Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

leitaobatista@gmail.com

4 Responses to O falar de Riba Côa – o léxico (132)

  1. No Casteleiro, conhecem-se – que eu saiba – os seguintes destes termos:
    TOLHIDO, TOMA, TOMATA, TOMATEIRA, TOMBA, TOMILHO, TONA, TONEL, TONHO, TOPA-A-TUDO (registado pelo quase casteleirense Dr. Vítor Pereira Neves, veterinário e meu grande amigo – desculpem a deriva localista: é filho de um dos meus professores da primária), TOPADELA, TOPAR, TORCIDA, TORCIDO, TORNA, TORNA-DIA, TORNADOIRO, TORNA-JEIRA, TORNAR, TORO.

    Notas
    Toironda não conheço. Lá, dizia-se barronda (que originalmente seria aplicável a porcas, mas era adaptada a vacas também).
    Aí acima dei como adquirido que no Casteleiro se conhece a palavra «tornadoiro». Isso é e não é verdade. É que lá na minha terra nunca as pessoas mais antigas falaram assim. Dizem tornadouro. Sei que é o mesmo. Mas quero deixar esta nota: a leitura «oi» é mais arraiana. Nós pronunciamos «ou». Parece igual, mas, no rigor das coisas, não é. Pelo sotaque, sei se uma pessoa é da Raia…

  2. João Duarte diz:

    Pelo sotaque eu também sei se uma pessoa é do Casteleiro

  3. Eeeeeexactamente: essa é a minha teoria. Mas a malta anda noutra…

  4. João Duarte diz:

    Mas isso não significa que num mesmo concelho não possam existir sotaques diferentes e léxicos diferentes. Tal como eu, também, sempre defendi. Afinal os concelhos fazem a fronteira algures, não? Imagine-se que o Casteleiro era do concelho de Belmonte. Depois, eram os de Santo Estevão a dizer que não tinham nada a ver com o Sabugal. E era um nunca mais acabar. E se o Vale da S.ra da Póvoa pertencesse ao Sabugal, será que falariam diferente? Não… Isso tem que ver com a Região (neste caso Beira Baixa e Beira Alta). Os limites concelhios são coisas diferentes das Regiões.

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