O falar de Riba Côa – o léxico (131)

O Falar de Riba Côa - Paulo Leitão Batista - © Capeia Arraiana

Damos continuidade à apresentação do léxico «O Falar de Riba Côa» com as palavras e expressões populares usadas na raia ribacudana.
Entre os termos TESORELHO e TOCO.

TESORELHO – trasorelho; papeira (doença). Também se diz tesoirelho.
TESTAMENTO – cerimonial que antecedia o dito do galo, no Entrudo, em que eram relatados os haveres que o galo deixava a este ou àquela (Célio Rolinho Pires). Para além do testamento havia a deixa, cerimonial de igual similitude, mas voltado para as raparigas solteiras.
TESTEIRADA – pancada com a cabeça (de testa).
TESTEIRO – vaso de flores (Clarinda Azevedo Maia – Aldeia Velha).
TESTO – tampa de uma panela. Parvo; estúpido; ignorante.
TÉSTO – rijo; enérgico; destemido; resoluto (Joaquim Manuel Correia).
TÉ-TÉ – vaca (linguagem infantil). Lisonja; momice.
TIBÓRNIA – pão quente embebido em azeite, petisco muito usado nos lagares na altura em que se fazia o azeite. Mistura de bebidas, mixórdia. «Tomei remédios de toda a casta, purgas e mais purgas, cozimentos, tibórneas» (Joaquim Manuel Correia).
TICA – ataque nervoso (Joaquim Manuel Correia).
TIÇÃO – acha em brasa; resto de tronco meio ardido. Indivíduo muito moreno (termo depreciativo).
TIÇÃO-NEGRO – diabo (Júlio António Borges).
TINETA – mania; maluqueira. Deu-lhe uma tineta.
TINHA – doença cutânea que ataca o couro cabeludo e o pêlo. Muito contagiosa e perigosa, afecta sobretudo os cães, mas que também pode afectar o homem.
TINHOSO – chato; chaga; importuno. Demónio.
TINO – juízo; atenção. Toma tino no que te digo.
TINOR – tino; tento (Leopoldo Lourenço). Ideia fixa; obsessão. Andava com aquele tinor.
TIRADELA DAS BATATAS – acto em que se arrancam as batatas, geralmente em tarefa colectiva de entre-ajuda.
TIRANTE – o m. q. timão ou cambão (Clarinda Azevedo Maia – Vale de Espinho).
TIRAR – fazer força; puxar. Tira! – expressão muito usada pelos lavradores para incitarem as vacas a puxarem o carro muito carregado em subidas íngremes.
TIRAR A CHIA – tirar as manias, tirar a vida (Carlos Guerra Vicente).
TIRAR-A-REIS – sortear o primeiro a jogar, no jogo das cartas. Consiste em deitar cartas para a frente de cada jogador, saindo indicado aquele a que sair um rei.
TIRAR O CHIADOURO – matar.
TIRAS – calças – termo da gíria de Quadrazais (Franklim Costa Braga).
TIRITITEIRO – títere; saltimbanco (José Pinto Peixoto).
TISCO – pau usado para bater no chão no jogo das escondidas, também chamado jogo do tisco (Clarinda Azevedo Maia).
TISNA – marca de carvão. Tens uma tisna na testa.
TISNADO – tostado; enegrecido; enfarruscado.
TISNAR – enfarruscar; sujar com carvão.
TISUDO – valente; fortalhaço; que não se deixa vergar.
TOBANA – parvo; descuidado (José Pinto Peixoto).
TOÇA – pedra comprida e afeiçoada que cobre a ombreira das portas; torça; padieira.
TOCAR – accionar; fazer mexer. Tocar as vacas; tocar a nora.
TOCAR A PAVANA – bater em alguém; dar uma sova.
TOCAR A RANA – falar entre dentes, protestando ou maldizendo (Rapoula do Côa).
TOCAR ÀS ALMAS – toque do sino, ao cair da noite, para que em todos os lares se rezasse pelas Benditas Almas do Purgatório. Também é chamado toque das trindades. «Uma badalada em cada sino e depois nove badaladas com os dois sinos ao mesmo tempo e bem compassados, fazendo-os vibrar num lamento triste» (Leopoldo Lourenço). «O toque das almas era o sinal para que todos os moços que ainda não faziam parte da irmandade dos rapazes solteiros recolhessem a casa» (Manuel Leal Freire).
TOCAR ÀS AVÉ-MARIAS – toque do sino, ao clarear do dia, indicando aos fieis que devem levantar-se da cama e vir à igreja rezar uma oração. «Uma carreira de badaladas no sino velho e três no sino novo» (Leopoldo Lourenço).
TOCAR ÀS CRUZES – tocar à via sacra, na Quaresma. «Quem durante a Quaresma passar nas aldeias de madrugada, há-de ouvir tocar à Via Sacra, ou, como lá dizem, às Cruzes» (Joaquim Manuel Correia).
TOCAS ÀS TRINDADES – o m. q. tocar às almas.
TOCAR O CALDEIRO – expulsar alguém; afastar um indesejável (Célio Rolinho Pires).
TOÇEIRA – tufo de erva.
TOCO – tronco cortado; cepo; madeiro que se queima no adro na noite da consoada. Toco do Natal.
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Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

leitaobatista@gmail.com

One Response to O falar de Riba Côa – o léxico (131)

  1. No Casteleiro, destas 40 palavras e expressões que nos traz hoje Paulo Leitão Batista, conhecem-se 18 (quase 50%). Mas depois, com anotações, são ainda mais 5. Ou seja: ao todo, 23 – 55%. Bem bom…

    Eis, então, esses termos nossos conhecidos

    TESORELHO, TESTEIRADA, TESTEIRO, TESTO, TINETA (muito lá para trás: na geração dos meus avós ou até na anterior, ao que me recordo), TINHA, TINHOSO, TINO, TIRADELA DAS BATATAS (assim: vamos tirar as batatas), TIRANTE, TIRAR-A-REIS (acho que era assim: tirar as sortes), TISNADO, TISNAR, TOÇA (e toceira, que acho que eram as testas das plantações, no fecho de cada leirão), TOCAR, TOCAR ÀS ALMAS, TOCAR ÀS AVÉ-MARIAS, TOCAS ÀS TRINDADES, TOÇEIRA, TOCO.

    Com anotações, posso acescentar ainda:
    TIBÓRNIA (mas dito: taborna), TIÇÃO (mas ditio «teção»), TÉ-TÉ (mas a significar o esconde-esconde com os bébés), TINOR (mas dito tenor).
    Quanto a TESTAMENTO, há que dizer que se conhece mas não isolado: nunca dizíamos apenas testamento: era o Testamento do Galo – e bem acutilante, por sinal,

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