A minha aldeia

Alcínio Vicente - Aldeia do Bispo - © Capeia Arraiana

A minha aldeia é um cargueiro encalhado no meio de nada e no centro de tudo.

Pintura de Alcínio

Pintura de Alcínio

O timoneiro já há muito tempo o abandonou e os seus habitantes desesperados também
Da sua torre de controlo vêem-se os dorsos angulosos e escalvados das serranias circundantes, como gigantescas muralhas
As casas, graníticas umas outras alvas como bandos de pombas brancas no azul dos céus
As portas e janelas feitas de sombra e de vento
Algumas perde-se na bruma dos tempos a última vez que abriram
Paredes meias com o silêncio e a solidão, mora a tristeza e nos seus braços vive a morte
Quando a noite cai ouve-se um rumor magoado, uma amálgama de pranto e dor que voa nas asas do vento apressado
Nas ruas quase sempre desertas, vagueiam os fantasmas noctívagos que se alimentam das sombras e do silêncio
Os candeeiros são meras formas decorativas, fiéis companheiros da solidão da noite
Em frente das casas, jardins que já foram da Babilónia donde pendiam cachos dourados, contorcem-se hoje sinuosos troncos rugosos de vetustas latadas
De vez em quando muitos dos que aqui nasceram regressam para reatar os laços quebrados e assim dar continuidade à vida e pacificarem a sua consciência
Nos residentes que restam ainda reina a esperança que um dia surja um D. Sebastião do interior da floresta, ou um Adamastor vindo das costas de Lisboa e corte as amarras deste barco que parou no tempo e no espaço, para que o mundo acorde e avance
Ainda há aldeias por descobrir ou ignoradas neste país, mas que pagam os seus impostos em Portugal
Mas deixem-me viver neste paraíso envolto numa névoa de sonho e fantasia, no meio desta explosão de verde, enredado em histórias e visões do passado
Apesar de tudo temos paz, a tranquilidade, o silêncio, o ar puro, a liberdade e solidariedade dos familiares, vizinhos e amigos
E aqui bem perto correm as artérias que nos levam a outras paragens, ao coração da Europa
Como os fantasmas os demónios ou bruxedos não passam de ficção, meras figuras de estilo não me intimidam
O que é preocupante são as teias tecidas por ardilosos senhores magos da alta finança e da política
Finalmente estamos longe dos banqueiros corruptos e ladrões, dos políticos incompetentes, incultos e, no mínimo, de comportamentos duvidosos
E que pensar dos sábios dos doutores de toga ou honoris causa, dos administradores que conduzem empresas à falência?
Aqui pelo menos estamos mais seguros, talvez assim se esqueçam de nos privatizarem
É a espuma dos tempos dirão eles…
Salva-se o povo com a sua sabedoria, o seu carácter e firmeza de honradez.
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«Vivências a cor», de Alcínio

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