Casteleiro – Aqueles 27 meses…

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

Tão longe e tão perto… Foram 27 meses em que não estive nem no Casteleiro nem em Portugal. Não uns meses quaisquer: foram aqueles 27 meses. Estive em Cabinda. Cheguei de lá, fez agora 40 anos. Muita gente que passou por aquilo ou por coisas parecidas não se cansa de insistir: este mesmo sítio fala por si, como adiante recordo. Também por isso, quis voltar ao assunto. Mas que título dar à peça de hoje? Pensei: «Um casteleirense na mata do Maiombe» – seria o título que daria a esta peça de hoje, se tivesse coragem. «Aerograma» – foi outro título que saltou logo. Mas não. Seriam demasiado violentos… e eu quero que o leitor esteja tranquilo na sua zona de conforto.

O Maiombe é uma das sete maravilhas naturais de Angola

O Maiombe é uma das sete maravilhas naturais de Angola

Hesito sempre muito nestes casos. Penso: mas em que é que a minha experiência pessoal, mesmo que tão traumática, interessa a alguém. E, pior: isto tem o quê a ver com o Casteleiro? Mas depois pensei: é das vivências pessoais que se fazem as comunidades. Olha o caso dos emigrantes. Com a «coisa» acontece o mesmo. E olha tanta gente que vai ao «Capeia», àquela coisinha de há dois anos. Tudo considerado, achei que, apesar de tudo, valia a pena. Por isso, dei-me agora à tarefa de, dois anos depois de ter escrito 21 artigos a pedido, regressar ao tema, com remissões para umas linhas que escrevi no «blog» do «meu» antigo Batalhão. Deixo aqui uma síntese pequenina e vou remeter nas notas para outros materiais da minha lavra. Como se tem visto na lista dos artigos mais lidos, de vez em quando dá a algumas pessoas uma febre danada de revisitar assuntos terríveis daqueles dias da guerra colonial. Aquela guerra entrou definitivamente pelos ossos dentro de toda a gente: dos que foram e dos que ficaram.

Lugares de meter medo na guerra a qualquer um

Lugares de meter medo na guerra a qualquer um

1 – Nem mito nem festa
Não vale a pena fazer disto um mito ou uma festa.
Os que não ficaram feridos na pele nem morreram, ficaram «marcados» por dentro e de que forma.
Os que dizem que não, os heróis, são as maiores vítimas.
Isso vem nos livros.
Só essa marca explica que no café onde paro todos os dias se fale de tropa e de guerra, e de situações de risco, como também de piadas e de situações de anedota – mas sempre com o aço das balas ou das minas em fundo.
Não é para brincar.
Toda a gente daquela época sabe que é assim: as piadas servem só para encapotar as marcas – mas sem sucesso: no dia seguinte, tudo se repete.
E com outra característica: as mesmas histórias podem circular duas a três vezes por semana: ninguém do grupo acha demais; ninguém se mostra farto: cada qual fala como quer e fala do que quer.
É assim: é como é.
Alguns destes meus novéis amigos estiveram no mesmo Maiombe, outros em maiombes diferentes – mas o pano de fundo é o mesmo: exactamente o mesmo…
Para mim, há palavras e datas que são traumas deste percurso. Por exemplo: Luanda (2 de Agosto de 1972); Cabinda (9 de Agosto desse ano); Bata Sano (10 de Agosto e todos os mais de 800 dias seguintes). E há uma palavra e uma data mágicas: Lisboa / 2 de Outubro de 1974.

Hoje isto é longuito. Mas como cada um só lê se quiser e aquilo que quiser… em frente.
E vamos então a umas lascas do que um dia ficou plasmado num «blog» perto de si.

Foi neste quartel do Bata Sano que passei 27 meses

Foi neste quartel do Bata Sano que passei 27 meses

2 – O Maiombe: lindo
Alguns respigos, para situar quem entenda que deve saber do que falo. Apenas umas citações e os «links» de cada caso, para os pormenores só para aquele leitor mais curioso que queira mesmo saber algo mais.
Antes de mais, o local onde tudo se passou: uma maravilha da Natureza. Uma floresta virgem como há poucas, digna, de facto, de todos os filmes do National Geographic – e isso é outra das marcas eternas neste cérebro aqui. Pode ler umas impressões minhas sobre isso em muitos sítios. Por exemplo, aqui.

Café é uma das muitas riquezas daquela zona

Café é uma das muitas riquezas daquela zona

Não esquecer que estávamos na terra do café, do cacau e do petróleo (leia aqui uma referência pormenorizada a essa riqueza fabulosa também). Cito um bocadinho só: «… um dos objectivos da tropa portuguesa era defender os poços de petróleo da Cabinda Gulf Oil Company, uma empresa americana que mantinha os poços fechados à espera de melhores dias na cena político-económica mundial…»
Um dia, expliquei-me assim sobre o Maiombe: «Aquilo é uma lenda de beleza e de Natureza com as suas leis calmas e tranquilas, mesmo perante a necessidade de matar para sobreviver…
Pois bem. Ao longo destes anos todos tenho dito muitas vezes que no Maiombe o cenário era o mesmo: digno de um filme daqueles.
E as cenas eram as mesmas.
Os elefantes que vinham ali a uns quilómetros de nós passar os seus últimos dias e se aproximavam do cemitério dos elefantes… no meio da floresta virgem…». Foi aqui.
Bonitíssima Natureza, não é? Pena é que os humanos a sujem com as suas guerras e assassínios sem lei!

3 – Luanda e Cabinda
A chegada a Luanda, ao sair do avião e aquele bafo quente que não nos largaria mais foram marcantes: tínhamos chegado ao inferno para dois anos (mas até foram mais). Mal eu sabia que em Cabinda a temperatura era 5 graus mais elevada e a percentagem de humidade no ar era assustadora. Escrevi sobre isso um dia, assim: «… quando a porta do avião se abriu em Luanda naquele dia 4 de Agosto de 72, amaldiçoei mais uma vez a minha vida e a tropa. Nunca tinha percebido onde era o inferno. Afinal era ali e eu tinha lá chegado, condenado a não sair de lá tão cedo». Pode aceder aqui.
Em Cabinda, tomámos conhecimento com uns senhores muito especiais: os mosquitos, o «miruim» mais propriamente. Autor de uma picada terrível da qual resulta quase sempre uma infecção de paludismo. Apresento-lhe o Sr. Miruim, aqui: «Naquele mundo (…) havia um certo tipo de bicharadazinha de pequena dimensão, uns seres pequeninos que eram particularmente «chatos»: os mosquitos (…), (…) as baratas, (…), formigas. Muitas. Em filas compactas que davam a volta às casas, (…) e
as osgas frias, moles, langanhosas (…)».
Mas havia bicharada maiorzita também. Por exemplo a gazela, airosa, saltitante. Algumas foram alimento da tropa: «Era uma pena matá-las. Mas tinha de ser, por causa das leis da Natureza: a malta tinha de se alimentar e diversificar…», como escrevi aqui.

Camuflado e botas com «ração de combate»

Camuflado e botas com «ração de combate»

4 – Traumas de sobra
Há de sobra. Mas… apenas alguns, para não carregar muito nas tintas.
«Começo pelo episódio mais marcante para toda a vida: «… quando pusemos os pés em Cabinda pela primeira vez, a primeira coisa que soubemos foi que tinham acabado de ser mortos na Curva da Morte, a caminho de Sangamongo um capitão, um médico e penso que mais um alferes miliciano: três pessoas, três jovens». Leia aqui. Contar estas coisas é catarse pura e dura: foi isso que também escrevi um dia para aquela malta toda ler. E tenha sempre em conta que naquele «blog» o meu leitor é o antigo militar que está em cada um que o abre…
Outro trauma comprovado: o som de metais a bater uns com os outros. Se for um som basso, agudo e rápido, lembra logo o descavilhar de uma granada; se for mais tipo estalo lembra a bala a entrar na câmara da G3…
Mas o registo mais poderoso no campo dos traumas vai sem dúvida para os helicópteros PUMA.
«Só quem fez Lamego (Operações Especiais) é que pode avaliar o horror que sinto pelos helicópteros da tropa.
Sim, bem sei que o heli era a safa para um ferido.
Mas este barulho daqueles motores ficou-me gravado no mais fundo do cérebro até que morra.
Meus amigos, não estou a brincar.
Às vezes estou em casa ou na praia, nesta zona de Sesimbra onde passo os fins-de-semana e… muito antes de mais alguém os ouvir, já eu estou a dizer:
– Vem aí um Puma.
Então aquele motor do Puma é horrível…».
Escrevi isto aqui e já nem me lembrava: só quando passa aqui por cima algum dos actuais cujo motor deve ser idêntico, pois o meu organismo todo identifica-o logo.

E chega. Coitado do leitor. Um abraço cá do fundo, caros conterrâneos, caros descendentes do Concelho do Sabugal, onde quer que andem pelos caminhos da vida real. Aterrei novamente aqui, na sala. Obrigado. Esqueçam o que leram. Eu vou tentar esquecer o que escrevi… Até para a semana.

Notas
1.
As datas fatídicas: 21 de Junho de 1971 – Mafra; Outubro de 71 – Lamego; Janeiro de 72 – Amadora; 2 de Agosto de 72 – Luanda; 10 de Agosto de 72 – Cabinda. Isto só acabou quando o avião aterrou em Lisboa em 2 de Outubro de 74. Já a festa cá ia alta.

2. Algum leitor que seja mais curioso poderá ainda aceder a muuuuuitas outras notas sobre o que se sente tantos anos depois de… «aquilo».
Para tanto, e sem se martirizar nem eu me auto-comiserar (absolutamente, não!), pode visitar estas lascas que «um dia», há uns anos, fui inserindo no sítio próprio e que agora coligi aqui.

3. Mais uma vez e sempre… embora nesta fase com ritmos baixos de inserções…, para aceder a algumas notícias da nossa zona no «Serra d’ Opa», agora no «Facebook», siga por aqui.
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«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

2 Responses to Casteleiro – Aqueles 27 meses…

  1. Cesário diz:

    Obrigado Zé Carlos por ter deixado um comentário no nosso blogue.
    E depois li o texto que é de arrepiar pela realidade histórica e literária.
    Vou seguir no Facebook.
    Um abraço

  2. biencard diz:

    Vou sintetizar minha opinião á sua crónica:
    É sempre bom recordarmos o que passamos de mau para que não haja a tentação de repetir e também lembrar aos outros o que se passou.

    Como militar que fui do B.Caç.4910/72 a minha 1ª má impressão que tive quando desembarcámos foi ver o aspecto de ZOMBIES dos camaradas que lá se encontravam para embarcar de regresso para a Metrópole depois as imagens que me vêem são em catadupa começando pelo maldito C.M. do Grafanil até novamente a esse maldito C.M. em que nos queriam meter novamente ao fim de 24 meses de suplicio.

    Como só á poucos meses tive conhecimento do blog do Batalhão estive a ler também as suas referências a outros posts e em relação aos hélios como moro em Azeitão também os vejo passar com muita frequência só tenho pena que naquela época eles não pudessem voar depois das 17h pois sempre que eram chamados para urgências em que o voo de ida fosse para além dessa hora já não vinham e lá iam os feridos no burro de mato transformado em ambulância, agora aqui é a qualquer hora.

    Em relação ás pepitas de ouro era verdade que as havia porque um dia eu estava no Bar do Gonçalves no Buco-Zau e assisti e sem querer fui interveniente num caso que aqui não vou descrever ara não me alongar mas posso dizer que era verdade mas o que se passou comigo envolvia um Oficial Superior que vivia pouco atrás desse bar
    Gostava que também se lembrassem (daqueles voluntários que a troco de um refrigerante) quase transformaram este Batalhão de Caçadores em Bat. de Engenharia .

    Desculpem a minha ousadia em escrever estas linhas mas é o minimo que pude escrever.

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