O falar de Riba Côa – o léxico (125)

O Falar de Riba Côa - Paulo Leitão Batista - © Capeia Arraiana

Damos continuidade à apresentação do léxico «O Falar de Riba Côa» com as palavras e expressões populares usadas na raia ribacudana.
Entre os termos SOLANO e SOSTRA.

SOLANO – palerma (Júlio Silva Marques).
SOLDADA – contrato de trabalho; salário do trabalhador contratado por longo período (assoldadado). Manuel Leal Freire fala nas soldadas de Nossa Senhora ou soldadas de Março, que eram contratos que as raparigas solteiras faziam, prometendo rezar em todo o mês de Março 31 Avé-Marias (uma por cada dia), assim se assoldadando a Nossa Senhora.
SOLDADADO – contratado a soldo, o m. q. assoldadado.
SOLEIJO – invejoso; cobiçoso (Júlio António Borges).
SOLFAS – brincadeiras (Aldeia Velha).
SOLHEIRA – soalheira; encosta abrigada onde bate mais o sol (lado sul).
SOLHA – bofetada; chapada.
SOLHO – soalho; madeira de pinho usada para fazer o soalho e o sobrado das casas. Prego de solho: de média dimensão próprio para pregar as tábuas do soalho.
SOLIFATES – quinino (sulfato retirado do quino, arbusto originário da América do Sul, cuja casca tem propriedades antifebris). «Só de solifates e pírulas arrebanhou-me o boticário quatro pintos» (Joaquim Manuel Correia).
SÔLO – base do pão (Joaquim Manuel Correia). Segundo a crença popular, o pão nunca deve ficar com o solo para cima, sob pena de mau olhado.
SOLTEIRO – moço que já pagou o vinho à rapaziada da aldeia: o nosso Zé já é rapaz solteiro! «Ao rapaz solteiro é permitido circular pelas ruas até altas horas da noite, entrar nos serões, participar nas rusgas e nas romagens nocturnas às aldeias vizinhas» (Manuel Leal Freire).
SOLTURA – diarreia.
SOMANTA – sova; tareia. Júlio António Marques registou semanta.
SONGAMONGA – pessoa sonsa (Júlio António Borges).
SONSO – azamel; lorpa; manhoso.
SOPA – negativa; recusa; tampa. Molhar a sopa: bater em alguém.
SOPAS PARIDAS – fatias de pão embebidas em leite e ovos, fritas no óleo e salpicadas com açúcar. Noutros locais designadas por fritas, fatias douradas ou rabanadas. Manuel Leal Freire chama-les sopas de parida, tal como José Pinto Peixoto, que acrescenta também assim se chamar às sopas de água, vinho e pão.
SOQUETE – pequeno soco; murro leve.
SOQUIR – soquear – termo da gíria de Quadrazais (Nuno de Montemor).
SORA – rapariga que fala pouco (Clarinda Azevedo Maia). A sisudez de uma mulher que fala pouco poderá levar a considerar que pretende ser importante, o que conduz a que, ironicamente, se lhe chame senhora, cuja contracção popular é sora.
SORNA – preguiçoso; mandrião.
SORO – parte aquosa do leite, que resulta de espremer a coalhada no fabrico do queijo.
SORRA – ovelha de lã grosseira (Clarinda Azevedo Maia – Aldeia do Bispo). O m. q. churra.
SORRELFA – socapa, disfarce. Pessoa matreira.
SORTE – parte de uma propriedade que cabe a cada um dos herdeiros. Célio Rolinho Pires traduz por courela, terreno não muito grande. Lide de um touro na capeia – «um magote de rapazes cai sobre a presa e a sorte é consumada» (José Prata). Ir a sortes: ir à inspecção militar ( o m. q. dar o nome ou dar o número) – a sorte do inspeccionado podia ser: livre, esperado ou apurado.
SORVO – gole; trago.
SOSTRA – mulher preguiçosa e desmazelada (Júlio António Borges).
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Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

leitaobatista@gmail.com

One Response to O falar de Riba Côa – o léxico (125)

  1. No Casteleiro usavam-se e usam-se alguns destes termos também:
    SOLDADA, SOLHEIRA (julgo que sim), SOLHA (de certeza: doía mesmo), SOLHO, SOLTURA, SOMANTA, SONGAMONGA, SONSO, SOQUETE, mas no sentido de meia pequena de rapariga – e lê-se com o e aberto: os soquètes; SORNA, SORRELFA, SORTE.

    Só.
    Lamento, mas é só isto…

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