O falar de Riba Côa – o léxico (124)

O Falar de Riba Côa - Paulo Leitão Batista - © Capeia Arraiana

Damos continuidade à apresentação do léxico «O Falar de Riba Côa» com as palavras e expressões populares usadas na raia ribacudana.
Entre os termos SERICO e SOIENES.

SERICO – pessoa que não pára, andando por todo o lado (Júlio António Borges).
SERIGAITAR – andar de um lado para o outro; o m. q. cirandar.
SERÔDIO – tardio; fora de época. Milho serôdio.
SERTÃ – frigideira. Também se diz sartã e sertem (Duardo Neves), ou sertãe (José Prata).
SERTUM – colete de homem. Também se diz sartum (Duardo Neves).
SESTRE – alfaiate (Clarinda Azevedo Maia – Forcalhos). Do Castelhano: sastre.
SETE-ESTRELO – constelação de sete estrelas (ursa maior e menor).
SEZÕES – maleitas; doença com fortes sintomas de arrepios e febres altas.
SIGNIFÓFIAS – caretas; moafas; mímicas escarnecedoras (Júlio Silva Marques).
SIM-SENHOR – rabo; traseiro.
SINA – destino – As ciganas lêem a sina na palma da mão. Procissão, cerimónia ou ritual cénico de uma colectividade ou confraria, por norma em honra de Nossa Senhora, por vezes também de algum santo (Francisco Vaz) – à frente vão entidades civis, o que faz tratar-se de um ritual sacro-profano. Pedrinha com que as meninas jogam (Clarinda Azevedo Maia – Fóios) – o m. q. china.
SINAIS – dobre do sino por finados. Dar os sinais.
SINAL – adiantamento que garante a aceitação de um negócio.
SINAL ABERTO – virgindade perdida. Mulher com o sinal aberto (Rebolosa).
SINCELO – gelo acumulado na vegetação e a pender dos beirais. O gelo, assim suspenso ou cristalizado, oferece um comovente espectáculo paisagístico.
SINCILRO – o m. q. sincelo. Carlos Guerra Vicente refere sincelro: «O Inverno corria gelado e o sincelro teimava em porlongar as horas de inferno».
SIROTE – medo (Adérito Tavares).
SISO – roda de cortiça que é metida no interior da roca de fiar o linho, para a alargar. Juízo.
SOADO – ouvido, falado; dito. Isso foi soado.
SOALHA – planta de folhas coladas ao chão que se dá aos porcos (Carlos Guerra Vicente).
SOALHEIRA – lugar exposto ao sol. Também se diz solheira.
SOBACÃO – susto repentino; cagaço (Clarinda Azevedo Maia). Apanhar um sobacão.
SOBERBO – avarento; usurário (Clarinda Azevedo Maia – Fóios).
SOBRADO – piso de cima de casa térrea, junto ao telhado, feito de madeira e que serve para arrumos.
SOBRE – envelope (Clarinda Azevedo Maia – Forcalhos) – do Castelhano.
SOBREBONA – avarento (Clarinda Azevedo Maia).
SOBRECARGA – cilha comprida, de pele de vaca, com que se aperta a carga depois de colocada sobre a besta.
SOBREPELIZ – manto branco e fino que os padres vestem sobre a batina.
SOBRETEDURA – porção de leite que se deita além da medida ao freguês (Sabugal). Júlio António Borges refere banhadura, a que atribui o mesmo significado.
SOCADAS – conjunto de regos ceifados pelos segadores para um lado e para o outro da seara (Carlos Guerra Vicente).
SOCA – tamanco. Também se diz soco.
SOFISMAR – enganar por meio de sofisma, usando argumentos falsos que parecem verdadeiros.
SOGA – correia para atar as vacas ao jugo, através dos chifres. Júlio António Borges refere ensoga.
SOI – seu – termo da gíria de Quadrazais (Nuno de Montemor).
SOIENES – ele – termo da gíria de Quadrazais (Nuno de Montemor). Franklim Costa Braga traduz, na mesma gíria, por: tu, você, o senhor (enfático).
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Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

leitaobatista@gmail.com

One Response to O falar de Riba Côa – o léxico (124)

  1. Paulo!
    Isto hoje está mau: são poucos os termos comuns à minha aldeia e ao resto da Raia.
    Eis o que usamos lá no Casteleiro:

    SERIGAITAR, não como verbo mas como substantivo: serigaita é de facto uma pessoas (mulher) que anda sempre de um lado para o outro. Ou que é respondilhona, também; SERÔDIO, SERTÃ, SETE-ESTRELO, SEZÕES, SIM-SENHOR. SINA, SINAL, SOADO (mas não é regionalismo nem localismo, penso eu: acho que é apenas uma forma do verbo soar: constar); SOALHEIRA, SOBERBO, SOBRADO, SOBREBONA (mas dito soberbona, acho: de soberbo), SOBREPELIZ, SOCA, SOGA.

    Apenas isto, meus amigos. Menso de metade. 16 para 17 em 35.
    É pouco, mas é de boa vontade (como se diz lá na minha terra)!

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