Um barbeiro… Um enfermeiro… Um João Semana

António Alves Fernandes - Aldeia de Joane - © Capeia Arraiana

Nasceu na Miuzela (Almeida) em 1911 e foi registado com o nome de Joaquim Gonçalves Vieira, mais conhecido por «Tio Vieira». As populações viviam quase exclusivamente da agricultura, do cultivo da terra em pequenas propriedades. A vida era dura, dava pouco proveito e o trabalho rural não era reconhecido.

Um barbeiro da aldeia

Um barbeiro da aldeia

O Jovem Vieira pensou em enveredar por outros caminhos profissionais, tirar uma profissão mais rentável. Os seus pais encaminharam-no para um amigo, o José Pinto, com barbearia na freguesia da Nave (Sabugal). Nesse espaço de aprendizagem, nessa Escola de Formação Profissional, sem qualquer subsídio estatal e com apenas doze anos, começou a aprender a arte de cortar cabelos e fazer barbas.
Naqueles tempos, os barbeiros tinham já uma ação social na prestação de primeiros socorros, em territórios onde as palavras «saúde» e «médico» não existiam.
Um dia o mestre da barbearia deu instruções ao aprendiz de barbeiro para se deslocar a casa do Prior da Nave, que se encontrava com muita febre. Era preciso abafá-la para desaparecer: muito agasalhado, bebidas bem quentes e cama com mantas pesadas. A velha criada do Senhor Prior era bastante ingénua e colocara, em cima do corpo do padre, uma série de sacos de centeio, recolha do pagamento da côngrua anual dos serviços religiosos prestados. Este “ peso “ ia complicando a vida do doente, se não tivesse sido retirado. O nosso barbeiro-enfermeiro acudiu a tempo e resolveu o problema.
Seguiu-se o serviço militar obrigatório e o nosso aprendiz de barbeiro viajou para Coimbra, onde foi colocado na Companhia de Saúde, instalada em Santa Clara. Ainda passou por Évora, mas foi na Cidade dos Doutores onde passou a maior parte do serviço militar.
Na Cidade da Saúde, conviveu com muitos médicos militares, foi aluno estudioso e aplicado, realizou pequenas cirurgias, fez tratamentos e foi convidado para assistir a exames forenses e a jornadas médicas. Durante quatro anos, frequentou esta escola de enfermagem militar com bom aproveitamento. Estava entusiasmado para seguir o serviço militar na área da saúde. Concorreu, mas ontem como hoje, por razões que a razão desconhece, foi preterido através de meios fraudulentos. Era filho de agricultores pobres, escondidos lá para terras fronteiriças.
Regressou às suas origens e pensou em casar. As moçoilas do Carvalhal do Côa (Sabugal) sempre foram muito disputadas, que o digam os rapazes da Bismula e de Badamalos, que na festa anual de São Marcos (padroeiro dessa povoação) ajustavam contas diante das belezas femininas. O jovem barbeiro também ali foi à procura da sua fada encantada – Maria Mendes Pires – apelidada de «Santa» por ter sido batizada no Dia de Todos os Santos.
Marcou encontro e, para sensibilizar a sua amada, pediu um cavalo e um capote emprestado à família dos Freires da Miuzela e apresentou-se no Carvalhal do Côa. A moça pediu-lhe para falar com a mãe. Ele conversou com ela e esta disse-lhe: «nunca gostei de homens da Miuzela, mas neste caso a minha filha que faça o que for melhor para ela». O jovem barbeiro, neste ping-pong de palavras, esclareceu a apaixonada que a decisão lhe competia. Passados três meses estavam juntos no altar, para selar uma união matrimonial de muitos anos, da qual nasceram três filhos: a Bárbara, o Manuel e o José Vieira.
Com o agregado familiar constituído havia que dar-lhe sustento. Organizou a sua vida de barbeiro na Bismula, primeiro em frente à Igreja na atual Rua de Nossa Senhora do Rosário e mais tarde na Rua de S. Sebastião. Ali cortou e fez as barbas centenas e centenas de vezes. Também alongou as suas atividades a Carvalhal do Côa (onde fixou residência), a Vilar Maior, Arrifana, Badamalos e Aldeia da Ribeira. Como o dinheiro escasseava, a maior parte dos pagamentos era efetuada através de uma avença anual, na maioria dos casos em grão de centeio.
A par desta atividade, era o socorrista nas aflições. A pé por caminhos de pó e veredas lá ia com a sua malinha de primeiros socorros, dava uma injeção, iniciava um tratamento, arrancava um dente ou um quisto, aguentava muitas mulheres parturientes e queimava, com ferro ou nitrato de prata, dezenas e dezenas de carbúnculos ou postulas malignas. Posso dizer que me salvou a vida, queimando-me um carbúnculo na perna esquerda.
Um filho herdou a sua arte e exerce-a na Rua Saraiva Carvalho em Lisboa.
Faleceu em 1999 aos oitenta e oito anos. As povoações do Planalto do Côa, da Zona Arraiana, deviam erigir um monumento à memória do «Tio Vieira», ou atribuir o seu nome a uma rua ou largo. Barbeiro, Enfermeiro e Médico, o «Tio Vieira» curou muitos corpos e salvou muitas vidas, foi um Homem Justo.
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«Aldeia de Joanes», crónica de António Alves Fernandes

3 Responses to Um barbeiro… Um enfermeiro… Um João Semana

  1. JFernandes diz:

    Caro AAFernandes:
    belo texto sobre uma figura das nossas aldeias numa época em que havia gente nas aldeias que justificava a existência deste barbeiro. Não conheci este Ti Vieira mas ainda conheci outros com as mesmas características. Naqueles tempos, barbeiros, alfaiates, pedreiros, ferreiros, coveiros, capadores, etc. eram personagens de importância única na vida das comunidades.Hoje, por vezes fazemos figuras como a que descrevi o ano findo aqui.
    O barbeiro
    Gostei do .texto e da brilhante descrição. parabens
    JFernandes

  2. Fernando Marçal diz:

    Grande Homem, este Ti Vieira. Uma vida exemplar, estilo João Semana. Um homem com esta vida exemplar, merece, realmente, uma estátua, ou uma rua com o seu nome.

    • Ana Maria Bento diz:

      Esse grande homem era meu tio direito,irmão mais novo de meu pai que também teve o mesmo oficio na Miuzela e que o ajudou a criar,pois o pai deles, meu avo,emigrou em 1912 para a Argentina e nunca mais deu sinal de vida.Tambem uma grande e querida mulher foi a sua esposa, ti Maria Santa, que muito carinho nos deu quando com eles estávamos no Carvalhal.
      Oxalá lhe prestem a homenagem que merece
      Ana Maria (Vieira), da Miuzela

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