O falar de Riba Côa – o léxico (115)

O Falar de Riba Côa - Paulo Leitão Batista - © Capeia Arraiana

Damos continuidade à apresentação do léxico «O Falar de Riba Côa» com as palavras e expressões populares usadas na raia ribacudana.
Entre os termos RAÇÃO e RANILHA.

RAÇÃO – dose de alimento que se dá aos animais. Também se diz reção.
RACAR – arrancar (Clarinda Azevedo Maia – Aldeia do Bispo).
RACHA – pau; cajado; cavaca para o lume; acha. Fenda; ranhura (Clarinda Azevedo Maia). Júlio António Borges acrescenta outros significados: parte, quinhão.
RACHADOR – aquele que racha a meio a diferença nos lanços de compra e venda, ajudando nas feiras a concretizar os ajustes, por vezes de súcia com um dos negociantes.
RACHÃO – cepo de lenha.
RACHAR – dividir ao meio a diferença entre o que o comprador oferece e o que o comprador pede, tornando viável a realização do negócio.
RACHIÇOS – cavacos provenientes de paus rachados (Duardo Neves).
RACHITA – pedacito (José Prata).
RACHO – tição (José Prata). Cepo de lenha; o m. q. rachão (Clarinda Azevedo Maia).
RAER – varrer o forno (Júlio António Borges).
RAIA – linha; risco; fronteira.
RAICHÃO – manta de farrapos (Clarinda Azevedo Maia – Aldeia da Ponte). Porfírio Ramos registou raxão.
RAIMOSO – avarento (Clarinda Azevedo Maia – Batocas).
RAIOLA – jogo tradicional em que se tenta colocar uma moeda sobre um risco (a raia) sulcado no solo ou numa tábua; o m. q. arraiola. José Pinto Peixoto refere raioila, Júlio Silva Marques escreve arraioila (do Castelhano – rayuela) e Maria José Bernando Ricárdio Costa refere raoula. Franklim Costa Braga chama-lhe raibile. Leopoldo Lourenço chama-lhe jogo do cão.
RAIVÓ – variedade de cogumelo (Júlio António Borges).
RALÃO – farinha grossa de milho; carolo (Duardo Neves). Papas de ralão: mílharas. Fermento para o pão (Clarinda Azevedo Maia – Fóios). Também se diz relão.
RALAR – consumir; preocupar. Clarinda Azevedo Maia, registou relar, nas Batocas.
RALEIRA – lugar do campo onde não há plantas; clareira (Júlio António Borges).
RALHETE – pequena repreensão ou ralho (Júlio António Borges).
RALHO – discussão acesa; zanga.
RALO – raro; em pequena quantidade – semear ralo. Insecto que se esconde debaixo das pedras.
RAMA – conjunto de ramos e folhagem de uma árvore que se corta para alimento dos animais. A rama era o alimento preferencial dos rebanhos, sobretudo de cabras.
RAMALHO – ramo de árvore. Folhagem dos carvalhos, que servem para a cama do gado.
RAMAGEM – ramo de flores oferecidas a Santo Antão no dia da romaria (Clarinda Azevedo Maia – Batocas – a autora, fiel à dicção popular, registou ramage). Gelo que se forma nos vidros das janelas nas noites frias de Inverno, onde surgem formas que se assemelham a ramos de árvores.
RAMBANA – qualidade de batata.
RAMBÓIA – brincadeira; vadiagem; farra. Indivíduo que gosta de vadiar.
RAMEIRA – monte de lenha (Clarinda Azevedo Maia – Fóios).
RAMPANAR – namorar (Júlio António Borges).
RANCHO – grupo de pessoas. Grupo de trabalhadores rurais numa mesma tarefa, em geral na ceifa.
RANGALHEIRA – sem obstáculos; à larga; à vontade – à rangalheira (Júlio António Borges).
RANHADOR – o m. q. ranhadouro.
RANHADOURO – pau comprido com que se limpa o forno e se remexem as brasas. Também se diz ranhador, arranhadouro ou bulidor.
RANHÃO – arranhão; pequeno ferimento (Francisco Vaz).
RANHAR – arranhar; coçar. Ranhar o forno: limpá-lo para nova cozedura (Francisco Vaz).
RANHASCA – ranho; ranheta (Clarinda Azevedo Maia – Fóios).
RANHO – designativo dos buracos do nariz no focinho do porco ou fossas nasais do mesmo (Clarinda Azevedo Maia – Aldeia do Bispo).
RANIÇO – criança ruim (Clarinda Azevedo Maia – Aldeia do Bispo).
RANILHA – doença do gado vacum (Clarinda Azevedo Maia – Vale de Espinho) – do Castelhano: ranilla.
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Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

leitaobatista@gmail.com

One Response to O falar de Riba Côa – o léxico (115)

  1. No Casteleiro, conhecemos não todos mas muitos destes vocábulos.
    Designadamente:

    RAÇÃO – mas, melhor ainda – o que toda a gente diz é reção, de facto; RACHADOR, RACHAR, RAIOLA (mas dito raioula), RALÃO – mas toda a gente diz é relão (e vejam esta expressão: «Já o relão bufa», para dizer que alguém que não percebe nada do assunto se pronuncia; ou então que um garoto começa a dar opiniões e a querer impor-se…), RALAR, RALHETE, RALHO (e o verbo ralhar para significar discutir a sério: «Andam sempre a ralhar»; RALO, RAMA, RAMALHO, RAMBANA (qualidade de batata).
    Abro aqui um parêntesis, porque já estudei esta matéria.
    A outra qualidade de batata muito falada também era a «ranconse». Diga-se, já agora que a rambana tira a sua designação popular em Portugal por corruptela do nome do antigo produtor inglês Arran-Banner; e que a ranconse deriva de Arran Consul. Refiro já agora que uma Portaria de 1968 permite a importação destas variedades: http://www.dre.pt/cgi/dr1s.exe?t=dr&cap=1-1200&doc=19682132%20&v02=&v01=2&v03=1900-01-01&v04=3000-12-21&v05=&v06=&v07=&v08=&v09=&v10=&v11=Portaria&v12=&v13=&v14=&v15=&sort=0&submit=Pesquisar).

    Usam-se também: RAMBÓIA, RANHÃO, RANHAR, RANHO.

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