Pintura de Alcínio – díptico do encerro

Alcínio Vicente - Aldeia do Bispo - © Capeia Arraiana

Em plena época de capeias arraianas, espectáculo popular que em Agosto emprenha de gente as aldeias sabugalenses, apresentamos um díptico de Alcínio Vicente que retrata um encerro – momento de forte atracção popular em que os touros são conduzidos pelos cavaleiros para a aldeia onde o forcão os espera na praça.

Díptico do Encerro (164 x 228 cm)

Díptico do Encerro (164 x 228 cm)

A arte taurina tem os seus olhares, que dependem de quem a observa. E esses diferentes olhares resultam do movimento e da pose dos touros, dos cavalos e dos homens que se envolvem no turbilhão de cores e de formas.
Na capeia, enquanto manifestação popular, mais do que em qualquer outro tipo de espectáculo, tudo vale: o touro, o forcão, os pegadores, o público, as calampeiras, o pó que se levanta da arena improvisada, os movimentos frenéticos e os sons ululantes que se perdem no ar. O mesmo ocorre no encerro, manifestação que antecede a capeia, em que se encaminham os touros para o «curro».
Nos quadros taurinos de Alcínio temos a simbiose de tudo o que envolve uma capeia arraiana, expresso no jogo cromático e intenso das cores associado ao traço, ora firme e preciso ora inseguro e pouco definido. As pinceladas do artista transformam a tela numa imagem dinâmica de movimentos e de sons. É uma espécie de música que se ouve e se vê pelas subtilezas da percepção. O implacável silêncio da tela vê-se transformado numa sinfonia imaginária que nos desperta todos os sentidos. Mas essa musicalidade própria dos touros e cavalos de Alcínio varia conforme quem os observa.

O Díptico – quadro pintado em duas telas que fazem conjunto – apresentado na imagem resultou de um trabalho emotivo em que o autor deu forma mais definida à expressão dos homens e dos animais que participam no encerro. Em vez de uma massa de movimentos criados com pinceladas incertas, em que o limite das formas está apenas na transposição das cores, o artista procurou dar uma visão mais precisa e realista aos cavaleiros, touros e cavalos que participam na função. Os homens têm faces mais formais do que o habitual, podendo notar-se-lhes a expressividade, o olhar atento e até o sorriso ou o ar sério das suas feições. Cavalos e touros vão em movimento, implícito e explícito, com ritmos cromáticos que acrescentam à anatomia corporal narinas e olhos definidos, notando-se o cansaço e o olhar sagaz.
O enquadramento, ou ambiente, é uma massa de cores vivas que cria a sensação do tempo quente e abafadiço em que o espectáculo se desenvolve.
Mas o elemento mais significativo e diferenciador é o olhar dos homens e dos animais, que, vista a tela no seu tamanho real, parece acompanhar o olhar do observador.
plb

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