O Comboio

José Fernandes - Do Côa ao Noémi - © Capeia Arraiana

Entre a Guarda e Vilar Formoso, pela linha da Beira Alta, ainda circula o Comboio. Para as gentes da envolvente daquele troço foi sempre assim que conheceram aqueles equipamentos circulantes. Era o COMBOIO. O Comboio era quase uma instituição.

Estação de Vilar Formoso

Estação de Vilar Formoso

A linha da Beira Alta, foi construída no inicio da década de 80 do século XIX e tinha como objectivo ligar o litoral ao interior do país e, ao mesmo tempo estabelecer uma ligação à Europa.
No troço de que hoje vamos falar, entre a Guarda e Vilar Formoso, esta linha acompanha o vale do Noémi até este entrar no Rio Côa. Nesse percurso, a linha como que abraça o Rio, mantendo-se permanentemente perto dele, sem o perder de vista. Umas vezes está à esquerda, depois passa para direita e de novo para a esquerda como se, quer o Rio quer a Linha passassem o tempo a vigiar-se não vá algum deles abandonar o local onde foi colocado.

Estação da Guarda

Estação da Guarda

As paisagens que do comboio em andamento, se viam olhando para o leito do Noémi eram únicas e ainda hoje são algo que merece ser visto. Claro está que hoje o vale apresenta um aspecto mais selvagem em contraste com o que acontecia décadas atrás, em que todo o vale se apresentava tratado.
Claro que o rio não abandona o leito por onde corre há muitos milhares de anos, embora por vezes vontade não lhe faltasse para fazer isso, fruto das agressões que ali são cometidas contra ele (aqui). Já quanto à linha do comboio, não temos tantas certezas a avaliar pelas ideias circulantes na comunicação social sobre a construção de uma nova linha ferroviária para substituir a existente.
O traçado escolhido para este troço, teve certamente em conta as características técnicas que a linha tinha que possuir e também o menor custo para a dotar dessas características. Talvez por isso, tenha sido desenvolvida nas encostas do rio Noémi o que, à partida garantia alguma harmonia na inclinação decorrente do próprio rio. Não será certamente por acaso que grande parte das linhas ferroviárias acompanham quando podem, as encostas dos cursos de água.
Quase no términus do Noémi a linha volta atravessá-lo entre o Jardo e Castelo Mendo sobre uma ponte de granito, deixando o Noémi entrar no Côa à sua direita para logo a seguir atravessar agora o Côa já com as águas do noémi através de uma outra ponte de pedra, a que se chamava a ponte dos sete arcos (pois tem efectivamente 7 arcos) e que, fruto do desnível entre o rio Côa e as suas encostas, é efectivamente uma obra de arte de grande dimensão.

Ponte ferroviária sobre o Côa – Ponte dos Sete Arcos

Ponte ferroviária sobre o Côa – Ponte dos Sete Arcos

Deixando para trás o vale do Noémi que foi o seu berço durante uma grande parte, atravessado agora o Côa, é altura de se dirigir para Vilar Formoso através de terrenos menos declivosos que os anteriores. Quando da sua construção todas as terras, gostariam que o comboio lá passasse. O comboio era sinónimo de coisa nova, de algo que provavelmente mudaria as suas condições. E foi verdade. Mas em paralelo, outras povoações houve que, não tendo beneficiado deste traçado, desenvolveram-se de forma muito mais lenta quando comparadas com aquelas onde agora passava o comboio (caso de Castelo Bom / Aldeia de S. Sebastião).
Por sua vez a linha, com o comboio a circular, foi durante muitos anos a forma mais rápida, e nalguns casos única, de as pessoas das aldeias dos concelhos do Sabugal e Almeida, chegarem à sede de distrito a Guarda.
Foi a única forma de alguns poderem frequentar o ensino secundário oficial na Guarda, para onde eram transportados no inicio de cada período e onde eram visitados pelos pais, mais as mães, quinzenalmente para lhe levar a roupa lavada e trazer a suja. Estes cidadãos, alguns dos quais vertem neste órgão as suas crónicas, eram meninos, alojavam-se em casa de pessoas conhecidas, que lhes garantiam a dormida e a alimentação, em troca da correspondente retribuição. Tinham uma espécie de pais de segunda, a quem os de primeira pagavam por esse serviço. Sobre essa problemática falaremos num texto próprio. Hoje é só da Linha que trataremos.
O concurso para a construção da linha da Beira Alta foi aberto em 23 de Março de 1878. A linha foi inaugurada em 3 de Agosto de 1882 pelo rei e rainha de Portugal na altura D. Luís e sua mulher a rainha D. Maria Pia, com grande pompa, fazendo os reis todo o percurso entre Aveiro e Vilar Formoso.
Este troço da linha da Beira Alta, para além de permitir a ligação à Europa através de Espanha passou a ser a partir de então a melhor forma de chegar à capital de distrito.
Por outro lado, e através das suas diferentes estações, passaram a poder ser encaminhados para a distribuição os bens que se produziam, principalmente na agricultura. A linha passou então a desempenhar um papel de natureza económica com bastante importância. Entre a Guarda e Vilar Formoso a principal estação que permitia despachar mercadorias era a Cerdeira, que fica sensivelmente no ponto médio entre as duas localidades e que continua em funcionamento.
Grande parte das estações da linha neste troço foram entretanto encerradas pois a ausência de pessoas e, em paralelo, com o reforço a que se assistiu nas últimas décadas da componente rodoviária do país, à custa de comparticipações comunitárias, fizeram passar para segundo plano a ferrovia.
Provavelmente foi um erro. Provavelmente essa opção fez o país atrasar-se na competitividade dos nossos produtos principalmente naqueles que se destinam à exportação. É que o preço dos transportes também tem de ser tido em conta nas exportações. E, transportar um contentor num camião é necessariamente mais caro que transportá-lo de comboio.
Quando agora se fala em modernizar a ferrovia e em particular a linha da Beira Alta só podemos apoiar a ideia. No entanto, esse tipo de medidas, embora importantes para todo o país, não podem ser «vendidas» como se estivessem a melhorar as condições de vida do interior. Com a linha modernizada ou não a vida das gentes da beira rural não vai alterar-se. O país através dos bens que exporta ganhará competitividade e isso é bom.
O Comboio continuará a circular por este troço da linha da Beira Alta. Mas os clientes que servirá há muito que deixaram de ser os habitantes da envolvente para quem, a imagem romântica do Comboio, há muito que se perdeu.
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«Do Côa ao Noémi», opinião de José Fernandes (Pailobo)

jfernandes1952@gmail.com

One Response to O Comboio

  1. António Monteiro Vila diz:

    Os meus Parabéns pelos artigos publicados. Nomeadamente, sobre a Linha da Beira Alta. Quando era rapaz novo, lá ia eu sentadinho nos bancos de madeira do comboio chamado Trama, do Rochoso até à Guarda. Para ir à Cerdeira, até ia num caminho de cabras, a cantarolar …

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