O Conselho de Estado e, ainda, o Crato

Fernando Lopes - A Quinta Quina - © Capeia Arraiana

Quase que me apetecia começar esta crónica a falar do trauma brasileiro dos 7 a 1 que apanhou da Alemanha. E tão somente para referir que o futebol é um desporto colectivo, provado magistralmente pela selecção alemã. Assim, a divinização dos futebolistas perde todo o sentido vendo a Alemanha a jogar futebol.

Reunião do Conselho de Estado

Reunião do Conselho de Estado

Os 7 a 1 que o Brasil apanhou, colocaram no lugar os futebolistas que se armam como donos do jogo, com os penteados, tatuagens e mirabolantes formas de chamar a atenção, que se chama marketing, que se chama negócio. E até Deus! Essa palavra que serve para tudo na boca dos brasileiros.
Ao mesmo tempo, ficou claro que, mesmo com os deuses da FIFA a protegê-los, também é preciso jogar futebol. E o Brasil não o fez. Tal como Portugal. Mesmo assim o Brasil fez história no seu mundial! A maior cabazada de mundiais.
Dizia que, quase me apetecia falar dos 7 a 1. Pois que, para além da banalidade do aumento de impostos, da «transparência» dos negócios no banco do regime (leia-se BES) e da promiscuidade deste com o poder, sobra um espaço para referir a reunião magna dos sábios do burgo – o Conselho de Estado. Convocado pelo Presidente da República, nele estiveram presentes essas tão prementes figuras da República para aconselhar quem, por ironia, não tem poder. O papel destas figuras, chamadas de conselheiros, pagos, sob a égide do homem dos consensos, quase não chegavam… a consenso para que, no final da reunião, houvesse uma declaração. Não sei quem estava a favor ou quem estava contra mas, para que surgisse aquela declaração, mais valia o silêncio. Porque aquilo é nada.
E sobra mais espaço, ainda, para falar do ministro Crato e da novíssima ideia da «municipalização» das escolas. No momento em que já acabou com parte do seu ministério, a parte da ciência, falta acabar com a outra parte, a educação. E não se tem rogado a esforços! Esta ideia, que está a ser negociada com alguns municípios, curiosamente não aqueles que têm piores resultados escolares, quando uma das premissas para esta municipalização é a da melhoria dos resultados escolares. Claro que as premissas são sempre excelentes boas intenções. Mas, para além de várias competências já atribuídas aos municípios, outras, agora, se lhes juntam. Não cabe aqui enumerá-las. Se umas fazem sentido, o resultado final era um país transformado num mosaico educacional. Esta municipalização incluiria o recrutamento de docentes, também. Estaríamos na legalização do compadrio e da cunha. Mas mais. O ministro Crato acena com um rebuçado! Uma espécie de prémio a favor das câmaras, aquelas que conseguissem contratar menos docentes do que aqueles que previamente são considerados necessários. Repito: as câmaras recebem prémios por contratar menos do que os necessários. Chamo atenção para o termo «necessários». Esta negociata de mercearia, aliás a típica política de Crato, não tem uma única linha de pensamento ou projecto para a educação, nenhuma preocupação pedagógica, a não ser o princípio mercantilista. Aquando da sua chegada ao governo, anunciava-se com uma necessidade de implodir o ministério da educação, entendia-se, mas o que tem acontecido é que já conseguiu destruir parte do ministério, a parte da ciência, agora prepara-se para derrubar, de vez, com a parte da educação. E isto é bem pior do que os 7 a 1.
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«A Quinta Quina», crónica de Fernando Lopes

fernandolopus@gmail.com

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