Enterro na aldeia do Faleiro

Escritor - Capeia Arraiana

Os irmãos chegaram a casa do lavrador António Chorra, dono das terras do Faleiro, trajando opas roxas e munidos dos adereços da função: o estandarte, a caixa da cera e a cruz. A Irmandade de São Sebastião da Bismula prestava homenagem ao finado, em estrito cumprimento das normas estatutárias.

Casas do Faleiro, hoje aldeia abandonada

Casas do Faleiro, hoje aldeia abandonada

Um mar de gente vestida de negro rodeava a habitação de estilo solarengo. Destacavam-se as mulheres, com grossos xailes e em permanente berraria. Havia ainda gente enfarpelada, que viera da vila em carros puxados por cavalos, e junto à capela postavam-se em fila mais de vinte padres, vestindo sotainas.
Todo o aparato condizia com a importância social daquele que em breve daria entrada na terra fria.
António Chorra falecera de morte natural, afectado por maleitas, forma popular de designar as doenças cujo diagnóstico clínico nunca tinha sido feito.
Não se sabia a razão de ter acorrido tanta gente ao funeral, dada a personalidade do velho Chorra, que nunca revelara respeito a quem quer que fosse. Tratava as pessoas com desprezo, a começar pelos que trabalhavam nas suas propriedades. Quando ia aferir o andamento dos trabalhos, os ganhões e os jornaleiros redobravam o esforço e o esmero. Mas ele em tudo encontrava defeito, e apontava com rudeza o que não lhe agradava.
– Quero as fachas bem atadas – dizia para o Chico Manta, que sujeitava borregos de feno.
O moço nem respondia, por saber que o patrão se ensandecia com quem o contestasse.
Os ganhões com as vacas junguidas, e apressavam-se a carregar as fachas nos carros, sob o olhar duro do velho, pronto a repreender-lhes a mais leve distracção.
Também as mulheres que serviam em casa lhe tinham temor. Exigia o comer a horas certas e era impertinente na demais lida doméstica. À falta da esposa, que há muito falecera, o António Chorra prestava a máxima tenção às esfregadelas do soalho, à lavagem das roupas e ao arrumo da casa. Era um pavor tê-lo por perto.
O lavrador era, a bem dizer, o dono do Faleiro, aldeia raiana anexa à Bismula, de onde distava uma légua. As melhores veigas, lameiros e tapadas eram sua propriedade. Junguia uma dúzia de vacas de trabalho, cevava dezenas de porcos, tinha as lojas cheias de burros e machos, era senhor de três pearas de gado ovino e caprino e detinha duas lustrosas éguas, as únicas que havia na aldeia. A maior parte das casas da locanda eram da sua pertença, estando cedidas à criadagem e aos que lhe cuidavam das terras.
Se alguém lhe desafiava a autoridade, era alvo de duro castigo. Todos recordavam o episódio com o Amadeu Chita, um pobre cavador que tinha mau beber. Farto de o ver cambalear e de o repreender em vão, foi numa fria manhã bater-lhe à porta. Acudiu a filha, de treze anitos, que o informou que o pai ainda dormia.
– Eu dou-lhe o mandriar. Vai chamá-lo!
Veio a mulher, ainda em combinação:
– Dói-lhe a cabeça, bebeu onte à noite.
Tomando cara séria, o Chorra apeou-se da égua e entrou na escura casa do cavador. Derrubou panelas, cântaros e o demais que encontrou pela frente e deu uma patada no taipal da enxovia, mandando-o para cima do bebedola, que logo se ergueu e se colocou de joelhos, postado perante o seu senhor.
– Mil perdões, vou já aprontar-me pró trabalho – disse o Amadeu em ar de súplica.
O lavrador olhou-o severamente e falou-lhe com voz de trovão:
– Já não tens trabalho, miserável! Dou-te uma hora para abandonares esta terra.
A pobre mulher ficou em pranto, pedindo ajuda a Deus e aos santos.
Perante as insistências da criatura que, já na rua, se lhe agarrara à sela da égua, o lavrador foi frio e seco:
– As ordens estão dadas!
– Mas onde vamos com estes anjinhos, sem uma côdea para comer?
– Tu e os catraios podeis ficar, mas o Amadeu não tem perdão, quero-o fora das minhas terras.
A pobre rebolou-se no chão lamacento, enquanto o lavrador se afastou a trote.
A aldeia assistiu comovida à partida do Amadeu Chita, acompanhado da mulher e dos quatro filhos, vestidos de andrajos e carregando os trastes e a comida que lhes deram por compaixão.
Sem família nem amigos, odiado por quantos viviam junto dele e pelos habitantes dos povos em redondo, António Chorra caiu na cama, ficando entregue aos cuidados das criadas de servir. Para que ninguém deitasse foguetes antes da festa, chamou a despacho o maioral dos gados e os feitores das quintas, a quem exigiu rigor absoluto nos trabalhos e na administração da lavoura.
Piorava a olhos vistos mas, à laia de aviso, não se cansava de repetir:
– Não há doença que me vergue, em breve correrei os campos montado na égua russa!
Todavia as dores aumentaram, o rosto empalideceu e entrou num estado de torpor que o fez crer que a morte estava próxima.
Mandou então um criado à vila para convocar o notário. Este, verificando de quem vinha o recado, apressou-se a vir à cabeceira do moribundo.
– Quero ditar testamento…
O funcionário, comprometendo-se a guardar segredo, tal qual a lei lhe exigia, lavrou o documento onde o doente dispôs as últimas vontades e nomeou procurador um prestigiado comerciante da vila que, não sendo seu amigo, lhe devia favores.
Passados dias, com a agonia já próxima, António Chorra mandou chamar o padre, e disse-lhe numa voz sumiça, tirada do fundo da garganta:
– Dê-me a extrema-unção!
O padre Alberto mandou retirar as criadas, cerrou a porta, confessou o moribundo e encomendou-lhe a alma a Deus.
Passou a noite em agonia e faleceu ao nascer do dia.
A aldeia vestiu de luto e velou o defunto, mas das terras vizinhas ninguém compareceu, tirante os da irmandade, que cumpriam o dever regulamentar para com o irmão extinto.
Surpreendeu a vinda dos padres, das autoridades da cabeça do concelho, e até de um fulano muito bem aperaltado, de fato e chapéu novos, que ainda na capela, antes do féretro sair em romagem, fez um empolgante elogio fúnebre dando o falecido como o melhor dos servos de Deus, pois vivera com infinita bondade deixando exemplar obra terrena, que certamente lhe garantiu a ascensão ao paraíso celeste.
Quando o bem-falante se calou e limpou a testa suada, o caixão foi levado em ombros por outros janotas vindos da vila. Logo que o féretro assomou à porta da capela, o grupo de mulheres trajadas de negro, que ninguém conhecia, berrou e chorou copiosamente.
A encabeçar o cortejo fúnebre seguiu a avultada comitiva de padres e de homens bons vindos da vila, onde se contava o juiz da comarca, o delegado da procuradoria régia, o presidente e o secretário da câmara, o administrador concelhio, o chefe de finanças, o director escolar e o comandante da força militar.
As mulheres chorosas caminharam atrás do caixão, seguidas dos representantes da Irmandade de São Sebastião, pois de nada valeram os protestos do seu juiz, que pretendera seguir à frente do féretro, como era tradição. No couce do cortejo veio a turba do lugar, formada por criados, ganhões, cavadores e pastores, cuja maioria trabalhava para o lavrador.
Findas as exéquias e aterrado o caixão, as autoridades, os padres, os homens grados e o janota que fez o discurso fúnebre, tomaram sem delonga os seus destinos. As mulheres cobertas de negro saíram em passo estugado pelo caminho do fundo do povo, em compacta comitiva.
Para além dos campónios, na aldeia ficou apenas o notário e o comerciante da vila que o lavrador nomeara procurador. Voltaram a casa do falecido e o procurador deu ordens à criadagem. A casa deveria manter-se limpa, os gados bem tratados e os trabalhos do campo seguindo o seu curso, no mesmo rigor que o falecido sempre exigira, em nome da sua vontade que ficou registada e a ele cabia por ora garantir.
Surpreso com tudo o que ouvia e observava, um velho homem da casa, feitor de uma das quintas do lavrador, quis tirar satisfações e perguntou ao notário:
– O senhor pode-me dizer quem vai tomar conta da casa e da lavoura e o que será de nós que moramos nesta aldeia e trabalhamos as terras do nosso falecido amo?
– E quem pensa o amigo que tomará conta disto? – perguntou-lhe por sua vez o notário.
– O patrão não tinha filhos, mas conta-se que teve uma irmã que lhe deu meia dúzia de sobrinhos que em breve chegarão a ver do herdo!
– Virão em vão – informou seca e enigmaticamente o notário.
O velho feitor, rolando a aba do chapéu entre os dedos, quis continuar a conversa.
– Pode dizer-me se o patrão fez testamento?
O notário hesitou e pareceu ir voltar as costas ao aldeão, mas resolveu dizer algo:
– O António Chorra mandou lavrar e assinou testamento onde fixou as últimas vontades. É o que lhe posso adiantar.
– E quem eram aquelas mulheres de preto que tanto choraram no enterro?
– Eram carpideiras. Foram contratadas por expressa vontade do falecido e vieram de uma terra distante.
– E porquê tanta força de padres?
– Os padres vieram porque o falecido encomendou e pagou antecipadamente os ofícios.
– E quem era aquele aperaltado bem-falante?
– Um jovem advogado da vila, a quem o falecido mandou pagar o discurso fúnebre.
O velho feitor, espantado com as revelações, voltou à dúvida que o assaltava:
– A favor de quem o patrão lavrou testamento?
– Vou dizer-lhe: os teres serão divididos em partes iguais pela Igreja e pelo Estado, por vontade expressa do falecido.
– Então foi por isso que esteve cá toda aquela gente janota!
– Exactamente.
O notário comoveu-se com o olhar sereno e imperturbável do velho feitor e fez-lhe por sua vez uma pergunta:
– Há algo que não compreendo: tendo o António Chorra tratado tão vilmente a gente que o serviu, por que razão vieram ao funeral?
– Só posso falar por mim… Eu vim para ter a certeza que o patrão estava morto e que o enterravam bem no fundo da cova.
Paulo Leitão Batista

One Response to Enterro na aldeia do Faleiro

  1. Hélder Pires diz:

    História Interessante e muito bem contada

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