A roda do tempo

Joaquim Gouveia - Capeia Arraiana (orelha)

Com os seis franzinos anos, o Manel conhecia todas as ruas do povo, uma por uma! Do Batorel ao Ribeirinho, do Reduto ao Terreiro da Fonte, da Estalagem ao Alvarcão.

Burro na Roda do Poço - Joaquim Gouveia - Capeia Arraiana

Burro puxa à roda do poço no Casteleiro

Ao clarear do dia, a mãe de cesta à cabeça, calcorreava o caminho até à Carvalha, onde o TI Chico, seu marido se tinha apressado a «botar a presa» pois a água da «adua» nesse dia era sua. Um naco de pão assente de há três dias, com uma talhada de «queijo corno» e uma garrafa de vinho, prestes a passar a validade, preenchia o fundo da cesta. O tacho de alumínio ainda estava quente. Do seu interior vinha um cheiro que nem a Esperta, cadela que fazia jus ao seu nome, ficava indiferente. Um pano de estopa evitava que as moscas penetrassem o seu interior e deixassem as suas larvas sobre a casca rija do queijo.
Indiferente a todo este movimento matinal estava o Manel que, arrastando os pés em sinal de negação acompanhava a mãe a muito custo. O que queria mesmo era pegar no arco que o seu avô Jaquim lhe fizera com o arame já ferrugento, da asa de um balde em que o fundo, já se via o sol por ele, e ir ter com o seu grande amigo que tinha lá para os lados do Ribeirinho.
Mas este dia a mãe levou a melhor! Afinal, enquanto o pai «botava a presa» para o meloal que as «blancias» e «botelhas» já estavam mortas de sede, era preciso ir à Tapada Laja regar o «renovo» que suplicava água, depois do forte vento da noite de São João.
Não teve outro remédio! Mãos nos bolsos acelerava o passo, à medida que a burra, com medo da sua sombra trauteava o caminho deixando para trás uma réstia de medo.
Ao chegar ao «tchão» Rosalina dirigiu a burra até à nora. Os copos vazios, carregados de ferrugem ansiavam por tão divino líquido, nesta manhã que já se antevia quente.
Manel mal chegava ao pescoço da burra para ajudar a mãe a colocar o «burnil», que havia de sustentar o «cambão» da nora. Uma venda de pano preto tapava os olhos do animal e, de imediato começava o seu ritual monótono, quão monótona era a vontade do miúdo para estar ali a «tocar» a nora. O pensamento, esse estava em todo o lado e nenhum, voava de rua em rua, de largo em largo… enquanto isso, a burra pachorrenta, de vez em quando parava, reagindo apenas aos gritos graves do Manel: «Anda burra! Despacha-te para irmos embora mais depressa!»
A regueira ora cheia, ora minguada, consoante o passo lento da besta, levava a água até aos «tornadouros» daquele renovo temporão. Aqui e ali já se viam umas «beijinas» a ficar amarelecidas, apressando-se a mãe a colhê-las e a metê-las no bolso, farto, do avental para à noite fazer aquele delicioso «caldo borraçudo» que só ela sabia fazer.
Terminada a rega, Manel ansiava já pela chegada a casa. À espera tinha os amigos, aqueles que um dia o enganaram, pedindo-lhe para ir levar a pedra de afiar as agulhas, ao Ti Paralta, sapateiro remendão do Casteleiro. O peso era grande para a sua idade e para o seu franzino corpo, chegando mesmo a abandoná-la a meio do caminho. Mas Manel não perdia tempo e, rapidamente, as suas travessuras eram motivo de chacota para com os seus colegas.
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«Viver Casteleiro», opinião de Joaquim Luís Gouveia

2 Responses to A roda do tempo

  1. JFernandes diz:

    Caro JGouveia:

    Bela descrição, que pelo menos a mim, me enche de emoções que às vezes não sei explicar.
    Os termos usados “tornadoiro”, “bagina”, “presa” são de tal modo comuns e importantes que, tendo convivido com eles há meio século não foram ainda substituidos na minha memória por outros que com o decorrer do tempo e noutros contextos aprendi. Até parece que a nossa memória não é limitada, cresce como crescem as “alfácias” quando após a abertura dos regos às batatas, usufruem da agua que passa no “tornadoiro”.Manel,cuidado com a alfacia, ao abrires o tornadoiro..
    Um abraço
    JFernandes (um manel da altura).

    • Joaquim Luís Gouveia diz:

      Caro JFernandes

      Sem dúvida que o dia a dia também se faz de memórias, algumas delas representando verdadeiros quadros das nossas vivências: os lugares, os objetos, as tarefas…
      Trazê-las até aos dias de hoje é prestar homenagem a toda uma geração que sofreu as agruras de um país pobre mas mas também deste interior, ainda mais pobre.

      Abraço

      JGouveia

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