O falar de Riba Côa – o léxico (107)

O Falar de Riba Côa - Paulo Leitão Batista - © Capeia Arraiana

Damos continuidade à apresentação do léxico «O Falar de Riba Côa» com as palavras e expressões populares usadas na raia ribacudana.
Entre os termos PELOTA e PESAR FIGOS.

PELOTA – bola; carapela (José Pinto Peixoto). Novelo de lã (Júlio António Borges). Em pelota: nu.
PENA – asa do rodízio do moinho onde a água bate e o faz mover. Sofrimento. Ter penas: sofrer.
PENALVILHA – peralvilho; vaidoso; maniento no vestir. «Não passava de uma cambada de penalvilhas» (Carlos Guerra Vicente).
PENCA – nariz grande. Haste de planta (José Pinto Peixoto e Leopoldo Lourenço).
PENCUDO – narigudo; pessoa com o nariz muito grande.
PENEIRA – instrumento de madeira, com forma circular e fundo de rede muito fina, feito de crina de cavalo, usado para tirar os resíduos à farinha (peneirar).
PENEIRADOR – armação simples de madeira, rectangular, com duas pegas em cada extremidade, utilizado para colocar sobre a masseira e servir de assento às peneiras na preparação do pão.
PENETRA – homem bem vestido e que dá nas vistas; peralvilho; figurão.
PENHAR – ser; estar; apressar – termo da gíria de Quadrazais (Franklim Costa Braga).
PENICÃO – apertão com os dedos; beliscão (Júlio António Borges).
PENICAR – debicar bagos do cacho de uvas; beliscar (Júlio António Borges).
PENICOTO – local elevado, em geral um cabeço (Júlio Silva Marques).
PENISCO – semente do pinho; pinhão.
PENOSA – galinha – termo da gíria de Quadrazais (Franklim Costa Braga).
PENSA – fêmea (cabra ou vaca) que, por ser mal ordenhada, fica com um úbere maior que o outro (Abel Saraiva).
PENSÃO – pessoa molengona, pasmada (Júlio António Borges). Restaurante; casa de hóspedes.
PENTE – peça do tear do linho que faz juntar o fio da trama ao fio de urdir, formando o tecido.
PENTE DE CINCO DEDOS – mão, com cujos dedos, à falta de pente, se pode pentear o cabelo.
PENUCHO – indivíduo natural da Rebolosa.
PÊRA – refeição ligeira tomada a meio da manhã, na malha do pão (Manuel dos Santos Caria).
PÊRA DE AZEITE – conjunto de instrumentos usados na medição da acidez do azeite, acondicionados em pequena caixa rectangular de madeira.
PERALVILHO – vaidoso; maniento no vestir; o m. q. penetra ou peralta. Carlos Guerra Vicente refere penalvilha.
PÊRA MARMELA – qualidade de pêras de grande dimensão e tardias (Clarinda Azevedo Maia – Aldeia da Ponte).
PERCA – perda; prejuízo; estrago; dano. «O pastor só pelos chocalhos sabe onde o rebanho está causando a perca» (Joaquim Manuel Correia).
PÉRIO – pai – termo da gíria de Quadrazais (Franklim Costa Braga).
PERNADA – ramo grosso de árvore.
PERNEAR – dificuldade sentida pelas juntas de vacas a puxar os carros excessivamente carregados, o que as obriga a fraquejar das pernas, tremendo, escorregando, caindo (Duardo Neves).
PERNEIRO – cordel com que, na tosquia, se atam as patas das ovelhas (Júlio António Borges).
PERNIL – canto de uma saca; o m. q. cornicho.
PERNOEIRO – espécie de giesta com picos nas pontas (Carlos Guerra Vicente); piorno?
PEROMPIR – parar – termo da gíria de Quadrazais (Nuno de Montemor).
PERPASSAR – esquecer; também se diz purpassar (Clarinda Azevedo Maia).
PERRO – cão (do Castelhano); que não funciona, não gira, não desanda: fechadura perra.
PERSINAR – persignar; benzer (Duardo Neves).
PERTAR – deitar; começar – pertar a fugir (Clarinda Azevedo Maia – Fóios).
PESADELO – pau bastante pesado ou peça de ferro do tear que serve para manter esticada a teia (Clarinda Azevedo Maia – Aldeia Velha). Também se diz tempereiro.
PESANTA – arroba; romana – termo da gíria de Quadrazais (Franklim Costa Braga).
PESANTE – arrátel (meida de 459 gramas – termo da gíria de Quadrazais (Franklim Costa Braga).
PESAR FIGOS – estar com sonolência, com a cabeça a pender (Júlio Silva Marques). Francisco Carreira Tomé refere pisar figos.
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Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

leitaobatista@gmail.com

3 Responses to O falar de Riba Côa – o léxico (107)

  1. PLB,

    Obrigado pelo esforço duradouro.
    Registe-se o bom trabalho deste nosso amigo e conterrâneo.

    Continuo também eu mesmo a segui-lo para especificar, tanto quanto me seja possível, quais os termos usados na mina aldeia, o Casteleiro.
    Assim, usam-se, ao que sei, os seguintes:
    PELOTA, PENALVILHA (mas há uma variante muito mais popular lá: paralvilho), PENCA, PENCUDO, PENEIRA, PENICAR (muitas vezes diz-se: depenicar), PENTE, PERALVILHO (ver atrás), PÊRA MARMELA, PERCA, PERNADA, PERNEAR (maa lá diz-se muito a palavra «espernear», quando a malta «dava aos pedais», depois de agarrados pela mãe ou pelo pai para um correctivo: – fartou-se de espernear, mas levou-as na mesma…), PERNIL (da morcela, chouriça ou farr’nhêro: atadura nas pontas do enchido), PERPASSAR (mas mais simples sobretudo: «Passou-me» quer dizer simplesmente: «Esqueci-me»), PERRO, PESAR FIGOS (à noite à lareira, o meu padrinho-avô, sempre).

    Boa tarde (de Outono) para todos…

  2. Alberto Luís diz:

    Acerca do termo “peralvilho” tinha a ideia de que queria dizer, pobretana, pobre diabo.

  3. Errata:
    Peço desculpa. Fugiu-me o dedo para a tecla errada – e nestas coisas também tenho de ser rigoroso.
    Assim, onde leu «PENALVILHA (mas há uma variante muito mais popular lá: paralvilho)», a última palavra devia ser «panalvilho».
    Assim é que é.
    Fica a emenda…

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