Sobre «O Falar de Riba Côa» – Letra C

Franklim Costa Braga - © Capeia Arraiana

Também encontramos vários fenómenos fonéticos nas palavras começadas por C.

O falar de antigamente

O falar de antigamente

1- Síncope das vogais átonas: Castenheiro, castenheirel, checô, checote, chever, chevelha, chevelhal, chepar, comenhão, c’stela; em boa verdade deveriam escrever-se: Cast’nheiro, cast’nheirel,ch’cô, ch’cote, ch’ver, ch’velha, ch’velhal, ch’par, com’nhão, c’stela.
2- Palatalização: Coixo, cóvel, currel, castenheirel, criença.
3- Metátese do r e l: Caratle, crabunco, catrefa, craibo.
4- Manutenção das consoantes surdas: Carcalhada, caiolada, carnação.
5- Redução dos ditongos a uma só vogal: códril, Coresma, corteirão, cóvel, côve. Nas sílabas átonas iniciadas por qua ou cou o ditongo passou a ó aberto, razão por que coloco acento no ó; já nas sílabas tónicas iniciadas por cou o ditongo passou a ô fechado, razão porque coloco acento circunflexo.
6- Aférese do a inicial: Çafate.
7- O diminutivo echo: cabecho, carneirecho, etc.
8- Assimilação: Cassenheiro (o s assimila o t).
9- Palavras cultas estropiadas: Canjarina, chuviné, coclice, compromíssio, pexegos, caliar, catacismo, cambóio, caminete, cócigas, comichão, cominhão, cunvidar, cunvite, corpião.
10- Perduração de palavras antigas: candelas.
11- Dissimilação: cômaro.
Não esquecer que o v se pronuncia b; que o ch se pronuncia tch; e que o a átono final palataliza, quando na sílaba tónica anterior estiver um i ou u. Esta palatalização dá-se ainda quando o a tónico em sílaba final for seguido da palatal l: Sabuguel, covel.
Muitas vezes coloco acento agudo no o para indicar que se lê aberto e não que se trata de sílaba tónica: cócão, cóclice.

Adendas à letra C de «O Falar de Riba Côa»:
Câ quê – do que sei lá (comparação usada pelos mais velhos).
Cabeçal – travesseiro comprido (também em Quadrazais)
Cabecho – cabo pequeno.
Cabo – lugar: fazer cabo significa arranjar lugar.
Cabo de esquadra – posto militar que aparece nos arquivos paroquiais de Quadrazais no séc. XVIII.
Cabonde – suficiente.
Cacharro – também em Quadrazais tem o significado de peça de loiça partida ou de loiça velha.
Cacheina – parte de cima do tortulho antes de abrir; moca; parte posterior do pénis.
Caco – mimo do caco, o mesmo que menino do caco.
Cadabulho – restos, lixo, o mesmo que escadabulho.
Çafate – açafate.
Caganeira – desinteria; gabarolice.
Caganice – gabarolice.
Caganitilhas – banana, fraco.
Cagarela – o mesmo que cagarola.
Cagueira (tripa) – parte terminal do intestino grosso.
Caiolada – pedrada; o mesmo que gaiolada.
Caisnadinha – diminutivo de caisnada, que em Quadrazais não se usa.
Caixa pexegos – banana, fraco.
Caixão – caixote ou arca pequena para guardar o pão que se come no dia a dia.
Caldeireiro – consertador ambulante de caldeiros, também em Quadrazais.
Cale – estrutura amovível para conduzir a água de rega feita em zinco ou madeira.
Calete – ser de má calete significa ser de má qualidade, também em Quadrazais.
Caliar – caiar, também em Quadrazais.
Câmano – ramo de lenha seca.
Cambalhão (em) – em montão.
Cambo – picota para tirar a água do poço, também em Quadrazais.
Cambóio – combóio.
Cambos – balança simples para pesar o pão cozido.
Cambra – câmara, tanto municipal como de pneu (cambra d’ar).
Caminete – camioneta
Caminhêta – camioneta (termo usado pelos mais velhos).
Campanito – úvula.
Campidade – espaço para se sentar.
Campo – região da Idanha.
Camponeses – as pessoas do Campo; ceifeiros vindos dessa região.
Canabilho – cesto velho, também em Quadrazais.
Canada – medida para leite equivalente a 2 litros.
Candeias – flores do castanheiro.
Candelas – candeias. Termo usado em Nª Srª das Candelas pelos mais velhos.
Caneco – bêbedo.
Cangra – igreja (termo da Gíria de Quadrazais).
Canjarina – tangerina.
Canjarrão – canjirão.
Cantoneira – telha dos cantos do telhado.
Cão de fila – cão de vila.
Capar a rebeira – também em Quadrazais significa fazer saltar um seixo no cimo da água.
Capela do olho – pálpebra, também em Quadrazais.
Carambolo – monte de terra ou pedras: Carambolo da Costeira.
Çarangonha – cegonha, também em Quadrazais.
Carapela – moinho das crianças.
Carapetos – pildricos; a água gelada que cai do telhado, formando estalagmites.
Carapinteiro – carpinteiro.
Caratle – carácter.
Caravelha – cravelha; cravelho.
Carbunco – carbúnculo.
Crabunco – carbúnculo.
Carcalhada – gargalhada.
Carcha(o) – pedaço de qualquer fruto.
Carchanetas – tocar as carchanetas significa tiritar de frio.
Carchanolas – matracas; castanholas.
Carchantada – cabeçada, também em Quadrazais.
Carchoila – cabeça (calão).
Cardaço – atacador.
Carepa (levar a) – morrer; perder, tratando-se de objectos.
Carnacão – carnegão ou carnicão.
Carneirecho – carneiro pequeno, borrego.
Carrapiço – desembaraçado a subir árvores, também em Quadrazais.
Cartapele – sapatos muitos finos.
Carvalhadas – obscenidades: dizer carvalhadas.
Cascabulho – cascas em geral, sejam de castanhas, batata ou outras.
Cassenheiro – castanheiro.
Castanha pisada – castanha pilada (porque, depois de seca no caniço, é pisada num cesto próprio para tirar a casca).
Castelo – conjunto de três castanhas, meio verdes, que se retiram pegadas ao ouriço e que serve para jogar.
Castenheirel – souto.
Castenheiro – castanheiro; pé da batateira já seco juntamente com as batatas a ele agarradas.
Catacismo – catecismo.
Catalona – termo que aparece na expressão ”beber à catalona”, com o sentido, talvez, de catalã.
Cativar – proibir.
Catrafada – encontrão.
Catrafão – o mesmo que catrafada.
Catrefa – caterva; caterfa.
Catrina – bebedeira; Catarina.
Catunto – bêbedo, também em Quadrazais.
Cavalada – viagem curta em burro ou cavalo ou às costas de alguém.
Cavalinho de Stº António – libelinha.
Cetos – protecção da carga do carro, também em Quadrazais.
Chachão – o mesmo que Chão, diminutivo de Conceição ou Anunciação.
Chacotinha, chacotão – palavras usadas num jogo acompanhadas de pancadas com a mão fechada nas costas do que está curvado, até adivinhar o número indicado pelo que comanda.
Chamar – procurar, em “chamar pessoal”.
Chamarola – chama grande.
Chancada – passada muito larga, também em Quadrazais.
Changoto – pau curto e delgado para segurar a carga; arrocho.
Chapota – pessoa mal amanhada.
Charume – o mesmo que cherume.
Charrué – creio que este termo atribuído a Pinharanda Gomes deve ser charruê (charrua).
Chavasco – piada ofensiva.
Chavascada – o mesmo que chavasco.
Chavete – chave para segurar as rodas ao eixo quando este é de ferro.
Cheberra – chiba pequena.
Checô! Chico! – interjeições para chamar o porco.
Checote – chicote
Chepar – chupar.
Chesinho – cheínho
Chevelha – chavelha.
Chevelhal – chavelhal.
Chever – chover.
Chilro – insípido, também em Quadrazais.
China – pedra pequena e espalmada.
Chincavelho – maçador.
Chinchelro – pessoa magra.
Chicholada – pancada na cabeça.
Chiringueiro – pantomineiro.
Chiringuice – pantominice.
Choca – morna (água que não é agradável de beber); pequeno ramo de castanheiro com vários ouriços.
Choca-badalhoca – pessoa que se pinga a comer.
Choça-velante – cabana portátil.
Choina – o mesmo que chona; cama, noite, em Gíria de Quadrazais.
Chonar – dormir, termo de gíria.
Chorelho – que chora muito.
Chorrio – porção de leite que sai do úbere cada vez que se aperta.
Chosquia – tosquia.
Chumbar um dente – pôr uma amálgama no dente, a qual era de chumbo.
Chuminé – chaminé.
Churro – rosca frita. Igual ao castelhano.
Chus – usa-se na expressão: nem chus nem mus, para designar: nem uma palavra.
Chuviné – chaminé.
Cigarrega – cigarra, também em Quadrazais.
Circo – círculo, também em Quadrazais.
Cobrir – emprenhar.
Côco – papão (termo infantil); fio de côco é o fio de pesca.
Cócão – peça do carro que reforça a cheda.
Cócigas – cócegas.
Cóclice – tosse convulsa (cocluche).
Códril – quadril.
Coelho do monte – coelho bravo.
Coirão – prostituta.
Coiro – prostituta.
Coixo – coxo, também em Quadrazais.
Coleirinho – colarinho.
Colharão (meter o) – meter o colherão, meter o nariz em.
Cômaro – cômoro.
Comechão – comichão.
Comenhão – comunhão.
Comer (a de) – contrato em que o patrão dá a comida ao trabalhador.
Cominhão – comunhão.
Compromíssio – compromisso.
Conche! – caramba!, também em Quadrazais.
Conhos – coanhos.
Conspirar – arfar.
Conta-dedos – joaninha.
Corcho – quarto das batatas na loja; jogo de rapazes para adivinhar a palavra pensada pelo que comanda.
Coresma – Quaresma.
Corgalhada – corgalho; atado de enchido ou de cebolas.
Corna – cabeça (calão).
Cornambão – marido traído, também em Quadrazais.
Corneta – marido traído.
Coroa – reza durante nove dias a seguir à morte de um adulto, em casa deste.
Corpião – escorpião.
Correar – vadiar.
Correio – vadio.
Córrela – vómito especial, também em Quadrazais.
Corriol – corriola, erva daninha que cresce nos batatais, também em Quadrazais.
Corta-mato – o mesmo que cortador.
Corta-orelhas – insecto com muitas pernas que surge muito sobre a roupa.
Córteirão – quarteirão.
Cóscaras – cócegas.
Cosquinhas – cócegas.
Cotão – restos de algodão para encher os colchões.
Cotovio – macho da cotovia.
Covacha – cova para fazer carvão.
Covujar – meter a lenha na cova para fazer carvão.
Côve – couve
Cóvel – couval.
Craibo – caibro.
C’rel – curral.
Criença – criança
Criva – crivo com fundo de arame.
C’stela – costela.
C’stelas manguinhas – falsas costelas.
(fazer o) – meter pedaços de palha no ânus do porco acabado de matar para lhe tirar as fezes.
Cucú – cuco.
Cueda – parte das nádegas das calças; cuada.
Cunvidar – convidar; dar ao animal o que viu e quis, para não aguar; dar um presente a alguém.
Cunvite – convite.

Nota: só indico o sentido diferente do Português corrente.
P.S. Acrescer às letras A e B:
Apernar – separar as ovelhas e atar-lhe as pernas para a tosquia.
Ardolhar – emaranhar.
Azuegre – borbulhagem junto dos cantos da boca e barba. Para a curar procuravam alguém que já tivesse passado o mar. Este colocava tinta de escrever na borbulhagem e dizia: o mar passei e azuegre curei; o mar passava e azuegre curava.
Barzabú -Belzebú; demónio.
Belada – bolada.
Buê – água (termo infantil).
Burreira – desinteria.

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«Lembrando o que é nosso», por Franklim Costa Braga

2 Responses to Sobre «O Falar de Riba Côa» – Letra C

  1. Alberto Luís diz:

    É um deleita pensar na riqueza e variedade do “falar de antigamente” do povo de Ribacudano.Obrigado por ter trazido para reflexão este tema tão querido a todos nós.Se me permite, em Vale de Espinho, a palavra “choina” também designa um jogo que os rapazes tinham por hábito jogar.Obrigado,amigo, Franklim….

  2. Permitam que deixe uma nota sobre o que se usa e como no Casteleiro.
    Assim, usam-se os seguintes termos:
    Câ quê (mas pronunciado: c’ ò quê: é mai grande cò quê.
    Cabo, Cabonde (mas dito dabonde), Cadabulho (e escadabulho), Caisnadinha, Caldeireiro, Cale, Calete (é calete do ano), Cambalhão (de cambolhada), Cambóio (claro!), Cambra (claro!), cambra d’ar, Caminete (càminéte), Caminhêta, Campidade, Carapela (aos ombrios: ir à carapela é ir aos ombros dos mais velhos), Carbunco e Crabunco, Carcho, Carchanetas (a cegonha toca as carchanetas), Carchanolas, Carchantada (a significar uma estalada), Carrapiço (carvalho pequeno), Carvalhadas, Cascabulho, Castanha pisada, Castenheiro, Catrina (encatrinado = bem bebido), Cavalada, Chavasco (em: estão ali a fazer um chavascal!), Chilro, Chincavelho, Chiringuice (dito charinguice), Choca-badalhoca, Chumbar um dente, Côco (mas no feminino: côca), Cócigas, Comer (a de), Coresma, Corgalhada, Corneta, Correar, Correio, Córteirão.

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