Vitória de Pirro

Adérito Tavares - Na Raia da Memória - © Capeia Arraiana (orelha)

Mais uma vez escrevo uma crónica para o «Capeia Arraiana» motivado por escritos alheios. Neste caso pela recente utilização, pela comunicação social, da expressão «vitória de Pirro» a propósito do magro sucesso do PS nas recentes eleições para o Parlamento Europeu. Quem foi Pirro e que vitória foi a sua? E, já agora, podemos completar este texto comentando mais algumas «estórias da história», umas com sentido metafórico e outras apenas curiosas.

O rei Pirro. Mármore romano do séc. I d.C.

Marco Túlio Cícero. Busto romano do séc. I a.C. - Capeia Arraiana Alexandre Magno. Busto romano do séc. I a.C. - Capeia Arraiana Júlio César. Busto romano do século I a.C. - Capeia Arraiana

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Utiliza-se habitualmente a expressão «vitória de Pirro» quando falamos de uma «vitória mutilada», incompleta, com sabor a derrota, uma vitória que não serviu para nada ou, pior ainda, que se pode virar contra o vitorioso. Pirro foi rei do Épiro, uma região dos Balcãs situada aproximadamente na actual Albânia. Nos começos do século III a.C., Roma encontrava-se em plena expansão, procurando conquistar a Sicília e todo o sul da Itália, onde as cidades de origem grega (a Magna Grécia) constituíam um pólo de grande desenvolvimento económico e cultural. Em 281 a.C., quando os Romanos atacaram a cidade de Tarento, esta pediu auxílio a Pirro. Com um poderoso exército, que incluía elefantes, Pirro desbaratou as forças romanas na batalha de Heracleia mas perdeu um grande número de soldados, o que o levou a dizer: «Outra vitória como esta e estarei perdido». Pior ainda: permaneceu demasiado tempo na Itália, andando com as suas tropas de um lado para o outro, sem tirar qualquer proveito dos seus sucessos militares. Foi uma «vitória de Pirro»!
O Épiro, tal como outros reinos dos Balcãs e do Médio Oriente, resultou da fragmentação do Império de Alexandre Magno após a sua morte precoce, em 323 a.C. Sobre a forte e fascinante personalidade de Alexandre o Grande contam-se também alguns episódios interessantes, uns comprovadamente históricos outros lendários. Vejamos apenas dois.
Górdio, rei da Frígia, na Ásia Menor (território da actual Turquia), atou um carro a uma coluna com um nó tão complicado que ninguém o conseguia desatar: era o «nó górdio». Quando o rei morreu sem sucessores foi consultado o oráculo, que profetizou: «Quem desatar o nó dominará toda a Ásia Menor.» Na sua caminhada vitoriosa para Oriente, a partir da Macedónia, Alexandre chega à Frígia e dizem-lhe para desatar o nó górdio”. Ele saca da espada e, de um só golpe, «desatou» o nó. E assim chegou a metáfora até nós: quando alguém resolve um problema aparentemente insolúvel utilizando a força ou o engenho, «corta o nó górdio».
Plutarco, o historiador greco-romano que viveu entre 46 e 120 d. C., conta na sua obra «Vidas Paralelas» outro episódio curioso sobre a forma de Alexandre resolver os problemas de indisciplina no seu exército. Um dia mandou chamar um soldado desordeiro, que andava quase sempre embriagado, e teve com ele este curto diálogo:
– «Como te chamas?»
– «Alexandre.»
– «E é verdade que és bêbado e indisciplinado?»
– «Sim, infelizmente é verdade.»
– «Pois então, ou mudas de vida ou mudas de nome!»
Na história romana existem também episódios marcantes, que deram origem a frases que os políticos e os jornalistas gostam muito de citar. Duas das mais conhecidas são «Alea jacta est» e «Veni, vidi, vici». A primeira foi supostamente pronunciada por Júlio César quando, em plena guerra civil, na luta pelo poder contra o general Pompeu, decidiu atravessar o rio Rubicão e entrar com as suas legiões em Roma. Era uma regra antiga da República Romana que nenhum general devia entrar com os exércitos na cidade, devendo deixá-los acampados a norte do pequeno Rubicão. Isto para que não se sentissem tentados a usar as tropas para conquistar o poder. César resolve quebrar a lei e… «alea jacta est» – os dados estão lançados, seja o que Deus quiser!
A segunda frase – «Veni, vidi, vici» foi também pronunciada por Júlio César, no Senado, onde foi prestar contas sobre uma rápida campanha militar contra Farnaces II, rei do Ponto (na Ásia Menor). Depois de o derrotar na batalha de Zela (47 a. C.), César regressa a Roma triunfante para declarar: «Cheguei, vi e venci.»
Outra das «estórias» minhas preferidas situa-se no Califado Abássida de Bagdade. Ahmed era o criado de confiança de um chefe militar árabe. Um dia surge espavorido diante dele dizendo: «Patrão, empreste-me o seu cavalo mais veloz. Tenho que fugir para bem longe!» «Está bem, mas para onde vais?» «Vou para Samarcanda.» O patrão ficou intrigado e foi ao mercado, onde tinha mandado Ahmed, ver se descobria o que o tinha assustado tanto. Quando lá chegou viu uma figura alta, de costas, vestida de negro, e tocou-lhe no ombro. Ela virou-se: era a Morte. «Ah! Então foste tu quem assustou o meu criado!» «Como se chama o teu criado?» «Chama-se Ahmed». «De facto, hoje à noite tenho um encontro marcado com um tal Ahmed em Samarcanda!»
Para não nos ficarmos por tema tão sombrio, vamos terminar com um outro episódio, este mais divertido, contado pelo grande escritor e orador romano Marco Túlio Cícero como sendo autêntico e passado com ele próprio. Diz Cícero que um dia bateu à porta da casa de um amigo e veio uma escrava que disse: «O meu amo não está.» Mas o escritor tinha ouvido lá dentro uma conversa em surdina em que o patrão mandava a criada dizer que não estava. Foi-se embora e, passados uns dias, é o tal amigo que bate à porta de Cícero. Vem ele próprio e diz: «Não estou!» «O quê, então não estás aqui na minha frente?» «Oh homem! Então eu acredito na tua criada e tu não acreditas em mim?»
Como diriam os descendentes italianos de Cícero: «Se non è vero, è bene trovato.»
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«Na Raia da Memória», opinião de Adérito Tavares

ad.tavares@netcabo.pt

4 Responses to Vitória de Pirro

  1. vítor coelho diz:

    Uma delícia, como sempre. Um abraço Doutor Adérito

  2. Alberto M L Pachê diz:

    Atravessaram os tempos pela sabedoria que todas elas encerram.Não conhecia a última e achei deliciosa:”acredito na tua criada e tu não acreditas em mim?”.Grato prof.prof. Adérito.

    • Adérito Tavares diz:

      Caro Dr. Alberto Pachê: o sentido de humor é uma das melhores qualidades humanas e, pelos vistos, Cícero juntava essa qualidade a todas as outras que possuía. Infelizmente, embora fosse um lúcido crítico dos políticos (hoje seria um apreciado comentador), nunca conseguiu fazer política (se calhar, para bem dele).
      Um abr.
      Adérito Tavares

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