O Homem da Beira Côa (4)

Rio Côa - © Capeia Arraiana

:: :: O carácter do povo :: :: «O homem da Beira Côa» foi o tema de uma conferência proferida na Sociedade de Geografia, em 15 de Abril de 2013, em Lisboa, que agora publicamos, dividida em quatro partes. Caracteriza-se o povo da região do Côa em função das migrações, guerras, epidemias e catástrofes naturais a que esteve sujeito. Abordam-se as crenças e os rituais, em especial os que advêm de uma religiosidade popular muito original e diferenciadora. Vai-se também ao encontro das suas características físicas e psicológicas, onde se encadeiam as grandes epopeias dos tempos mais recentes: o contrabando e a emigração.

Festa popular - Soito

Festa popular – Soito

O carácter do povo
Quanto à caracterização psicológica do homem cudano, voltamos a recorrer a Joaquim Manuel Correia, que sobre o assunto nos diz: «Povo religioso, sem grandes fanatismos, é, como os vizinhos espanhóis, alegre, divertido, sentimental e apaixonado pela música, poesia e pelos touros».
A proximidade da linha de fronteira com Espanha, que nos primórdios da nacionalidade, ora avançava ora recuava, trouxe a estas terras a actividade castrense, hoje ainda bem visível pelo elevado número de castelos e fortalezas existentes. Era pois num ambiente de guerra, factual ou pairando como ameaça real, que o raiano do Côa se acostumou a viver.
Com a prevalência de Portugal no domínio do território, que se seguiu ao Tratado de Alcanizes, em 1297, o Côa deixou de ser fronteira, unindo-se em definitivo as duas margens sob a mesma bandeira. Esta nova realidade trouxe maior acalmia, mas o povo passou a sentir a pressão do poder político e administrativo que, de Lisboa, o queria manso, trabalhador e cumpridor dos deveres. A nossa gente assistiu pasmada à instalação de câmaras, postos alfandegários, cadeias, tesourarias da fazenda, igrejas, conventos, mosteiros e um vasto conjunto de repartições públicas, tudo sustentado pelos magros proventos de quem ali vivia e trabalhava. O campónio, que fossava a terra de sol a sol, na ânsia de sobreviver, tudo teve afinal que custear com o seu magro pecúlio.
A verdade é que os zelosos funcionários do Estado lhe montaram nas barbas a terrível máquina burocrática. Os paços do concelho e as repartições passaram a representar o poder político, que o oprimia, enquanto pelourinhos e forcas significaram a pesada mão da justiça, que o castigou impiedosamente.
Quase indiferente à opressão de Lisboa este homem que habitava na Beira Côa lavrou e semeou a terra pedregosa, andou de arma em riste na arte da caça, pescou aprestando o galrito, emparelhou pedras para construir muros divisórios e habitações. Pegou também em armas para servir nos exércitos, comerciou por onde pôde e, os mais engenhosos, dedicaram-se a artes essenciais, como a carpintaria, a frágua e a alfaiataria.
É pois, no que ao aspecto psíquico respeita, muito venturoso este povo, que sempre andou envolto em acções de audácia. E o maior desafio foi a tentação do proibido. Se lhe era vedado atravessar a fronteira para intercâmbio com os povos do outro lado, o raiano não se acobardou e desatou a cruzar a raia, na inquietação constante de comerciar com Espanha para arranjar sustento. Como bem lembrou o pensador bismulense Manuel Leal Freire (in «Contrabando delito mas não pecado», Guarda, 2001), o contrabando era delito, por força das leis vigentes, mas para o povo crente tal prática nunca foi pecado. Não acorria a estes homens valentes, que pela calada da noite atravessavam carregados a raia, declararem em confissão religiosa, perante o abade, terem errado por contrabandear.
Mau grado a amenização da fome pela via da candonga, nem assim teve dias melhorados. E quando o labrego cudano viu perdidas todas as esperanças de uma vida melhor, meteu-se na sua maior aventura colectiva: a grande abalada. Cansado de tanto lutar em vão pela vida, deixou a família e a aldeia e arrojou-se pela Espanha adentro, entregue a si mesmo ou a gananciosos passadores, no intuito de alcançar franças e araganças. A emigração foi um acto de coragem, que bem comprova a índole e o espírito timorato deste povo, que perante o desespero de uma vida de miséria, se lançou numa gigantesca façanha em busca do futuro. A uns seguiram-se outros, todos se juntando em bairros de lata ao redor das grandes cidades da Europa, desconhecendo a língua e os usos dos povos em que se embrenharam. Lá longe aceitou resignado todo o género de trabalhos, sem reivindicar condições, sem exigir salário justo: o que vinha era sempre melhor do que o nada que a sua terra pedregosa lhe dava – resignado, o homem do Côa adaptou-se ao novo mundo.
A emigração foi um cataclismo para a Beira Côa. Houve aldeias que perderam em poucos anos mais de metade da população e ficaram condenadas a uma aridez progressiva.
É quase somente por ocasião das festas religiosas e profanas que o cudense da diáspora acorre à terra de origem.
E a maior força destes actos lúdicos está nas touradas raianas, no desafio de pegar os bois agarrado ao forcão. A juventude continua a acorrer à terra dos avós, onde segura o forcão com a mesma valentia, manifestando ter herdado o carácter dos homens do passado.
O que podemos pois concluir do homem do Côa, no que reporta ao seu ethos? Talvez se lhe aplique que nem uma luva a receita de José Osório da Gama e Castro (in «Diocese e Distrito da Guarda», Porto, 1902) sobre a índole dos beirões: «são caracteristicamente lhanos e afáveis, dóceis, hospitaleiros, em extremos laboriosos, e amantes da ordem, que muito convém à sua actividade agrícola e industrial».
Ou quiçá a visão mais realista de Aquilino Ribeiro (in «Guia de Portugal», Lisboa, 1924): «É empreendedor, vivo, laborioso (…). Ao mesmo tempo é industrioso, por vezes astuto até à manha, económico, mas sem usura, de boa memória para o bem e para o mal. Daqui ser animado de dedicações ou de ódios que apenas o sacrifício ou a desafronta satisfazem. (…) É esmoler, religioso, mas de uma religiosidade milagreira ou de arraial, marcado raramente de fanatismo».
De facto, há suficientes e insuspeitos testemunhos que consideram no cudano um homem simples e pacato, por vezes até ingénuo, respeitador e leal para quem serve. Quanto à forte sentimentalidade, ela é especialmente notória no seu apego por festas e romarias, nas quais participa com grande empenho e emotividade.
E, para terminar, voltemos a José Osório da Gama e Castro: «Se a Pátria precisa do seu braço, não tem melhores soldados, mais sofredores, mais resistentes e mais bravos».
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Paulo Leitão Batista

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