O Homem da Beira Côa (3)

Rio Côa - © Capeia Arraiana

:: :: O temor a Deus e a fisionomia do cudano :: :: «O homem da Beira Côa» foi o tema de uma conferência proferida na Sociedade de Geografia, em 15 de Abril de 2013, em Lisboa, que agora publicamos, dividida em quatro partes. Caracteriza-se o povo da região do Côa em função das migrações, guerras, epidemias e catástrofes naturais a que esteve sujeito. Abordam-se as crenças e os rituais, em especial os que advêm de uma religiosidade popular muito original e diferenciadora. Vai-se também ao encontro das suas características físicas e psicológicas, onde se encadeiam as grandes epopeias dos tempos mais recentes: o contrabando e a emigração.

Procissão no Sabugal

Procissão no Sabugal

O temor a Deus
Este povo, que atravessou os tempos entregue a si mesmo, enfrentando os perigos e superando as dificuldades, foi sempre muito supersticioso. Em cada tempo moldou as suas crenças às circunstâncias da vida.
Acreditava no sobrenatural, fruto das crendices que tinham reminiscências antigas, traduzidas em venerações a objectos ou na adopção de amuletos e de símbolos. Sim, pela razão de que a faculdade religiosa é afinal um legado que acompanhou o homem em todas as civilizações e em todas as épocas.
Nas crenças e nos rituais que lhes estão associados subsistem vestígios do culto da Lua e do Sol, traduzidos em diferentes superstições. Ainda hoje nas nossas terras, entre o povo, há restos dessas crendices, que o tempo e a evolução da instrução não conseguiram apagar definitivamente. Acredita-se que guardando uma pedra de raio, ou centelha, se evita o raio das trovoadas, teme-se deixar sobre a mesa o pão com o «solo» virado para cima, que pode ser motivo de maldição.
O povo crê em bruxas, lobisomens, almas penadas, moiras encantadas, papões, cocas, olharapos, trasgos e outras transfigurações dos medos com que coabita. Em cada tempo houve sempre pessoas visionárias, chamadas bentas, que eram afinal gente de virtude, detentoras de poderes de visão e de adivinhação.
O Cristianismo imperou e dominou, embora impregnado por imensas formas de religiosidade popular, que não são mais que o acumular de muitas crenças e superstições herdadas dos antepassados.
A religiosidade popular que persiste foi fruto das crenças Animistas, Espiritistas e Feiticistas do período pré-histórico, do culto da Natureza e dos Astros, assim como das divindades de Lusitanos, Romanos, Suevos e Visigodos, e também do monoteísmo judaico e muçulmano.
Se o cristianismo dominou, e disso não restam quaisquer dúvidas, a verdade é que este povo da Beira Côa sempre teve uma arte especial de ser cristão, por se manter arreigado a uma religiosidade de pendor espiritualista, fruto do anacronismo do seu credo.
O padre Francisco Vaz que teorizou abundantemente sobre as crenças e os ritos populares das nossas gentes, diz que a sua característica essencial é a de uma «Religiosidade Teológica», assente na celebração do Espírito Santo, na Cristologia e no Culto Mariano (in «Actas do Congresso do 7º Centenário do Foral do Sabugal», 1996)
O culto do Espírito Santo era traduzido na realização da FOLIA, que era uma prática popular em que as pessoas festejavam nas ruas, tocando os sinos, dançando e agitando bandeiras coloridas. Esta prática, que apareceu em contraponto ao BODO que se realizava noutras regiões, era incomodativa para as regras eclesiásticas, razão pela qual foi interdita pelo bispo da Guarda em 1928.
Já o culto de Cristo, Rei e Senhor, passou pelo erigir se inúmeras capelas e altares. Temos o Senhor dos Passos, o Senhor Morto, o Divino Cordeiro, São Salvador do Mundo, Cristo Rei, Menino Deus, entre outros. As evocações da paixão de Cristo mantiveram rituais como as ENDOENÇAS, ou martírios, em que o povo rezava a coberto da noite entoando sons lúgubres, e cantando quadras populares. O clero ficava ausente deste ritual, que porém aceitava por recear proibi-lo.
Quanto ao Culto Mariano, temos certo que cada aldeia da Beira Côa, por mais pequena e recôndita que esteja, ergueu um solar à Mãe e Rainha. As Senhoras são às dezenas, com diferentes e peculiares designações, num misto de fé e de apego popular: Senhora da Purificação, das Dores, do Pranto, do Bom Parto, da Sacaparte, da Ajuda, da Rosa, da Torre, do Monte, do Mercado, do Ó, das Neves, dos Aflitos… Para todas há abundantes romarias e festas, onde à devoção se junta a feira, a quermesse, o baile, o comer e o beber.
No essencial o homem cudano, há que afirmá-lo, é temente a Deus e ao Diabo. Cumpre com empenho as obrigações da fé, obedece às leis da Madre Igreja. Paga a tempo e horas a côngrua, a quota da irmandade e dá esmola generosa ao santo da sua devoção. Gosta especialmente de ir às grandes romarias, onde para além do divertimento, se empenha no cumprimento de promessas, no agradecimento pelos bons momentos da vida e no apelo à ajuda divina face aos tempos vindouros. Reza com devoção e reage mal quando alguém goza com os preceitos da religião.

A fisionomia do cudano
Não se afigura tarefa possível identificar elementos fisionómicos que singularizem o povo que habita as terras da Beira Côa. Sabemos que houve cruzamentos de diferentes povos e que o habitante que se arreigou nestas terras na epopeia dos tempos, é afinal um produto de todas as gentes que aqui aportaram vindas das mais variadas origens.
Joaquim Manuel Correia o maior etnólogo e antropólogo do Côa (in «Terras de Riba Côa – Memórias sobre o Concelho do Sabugal», Lisboa, 1946), diz-nos, baseado nos estudos de João Bautista de Castro e de J. Leite de Vasconcelos, que o pouco que se conhece dos tempos remotos de Riba Côa aponta para que a sua ocupação consistente venha do tempo dos túrdulos, um povo pré-romano, provindo da faixa marítima. Se os túrdulos aqui se fixaram, expulsaram ou assimilaram por sua vez os povos que já existiam no Côa. Seguiram-se certamente lutas com os povos vizinhos, fossem os vetões, os vaceus ou os galaicos. Dessa dinâmica resultou o cruzamento entre os povos, que terá sido potenciada com a luta contra a ocupação romana, que uniu os povos autóctones. A vitória romana e a consolidação da nova civilização trouxeram outras disseminações.
Os suevos e os visigodos, que puseram fim à ocupação romana, interagiram por sua vez com a região, e o mesmo se poderá dizer dos muçulmanos, que expulsando os visigodos, permaneceram na Península Ibérica durante oito séculos, embora provavelmente em pouco contacto com as terras do Côa, que terão permanecido semidesertas durante o tempo longo dessa ocupação.
A reflexão sobre a evolução histórica do território dá-nos a certeza de que o povo do Côa é uma mescla das diferentes plebes que por aqui passaram. Por isso nos diz ainda Joaquim Manuel Correia: «É vulgar na mesma povoação vermos homens de cabelos lisos e de cabelo encarapinhado, ruivos, pretos, louros e avermelhados, uns cujos tipos recordam o grego, outros o árabe, o índio e o malaio, outro o preto, no perfil e na configuração do crânio e face».
Contemplar as diferentes feições, a estatura, o modo de locomoção ou de trabalhar dos homens do Côa é afinal ler assim o livro da história da humanidade, onde as interacções sucessivas entre povos nos trouxeram o homem de hoje.
Podemos porém afirmar que, no geral, o homem da Beira Côa se enquadra perfeitamente no tipo beirão do homem português, mantendo as suas características morfológicas e fisiológicas dominantes. A pele é maioritariamente de cor trigueira, na cor dos cabelos predomina o preto e o castanho, os olhos são normalmente escuros. A estatura é meã, atirando para o baixo, sendo porém gente de boa envergadura, o que contribui para o aspecto tipicamente robusto do homem do Côa, que trabalha a terra, guarda os gados, pratica diferentes e duros ofícios.
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Paulo Leitão Batista

3 Responses to O Homem da Beira Côa (3)

  1. António Emídio diz:

    Amigo Leitão :

    Desde os meus quinze dias, ou três semanas de idade, até agora, quase sexagenário, conheci uma única religião nestas terras : « A Religião da Saudade ». Saudade de Deus, saudade desse Paraíso prometido o Além, já que esta Terra é uma simples passagem. Depois, a partida, a emigração, a saudade dos que partiram em relação aquilo que cá deixaram, a família, a aldeia, tudo ! Saudade dos que ficaram, em relação aos que partiram, aos filhos, aos pais, aos tios, aos amigos, a todos ! Depois, a Diáspora interna, espalhada por todo o País, tem saudades. Agora século XXI, partem novamente os jovens, e menos jovens, emigram, mais saudades ( ainda há pouco tempo falei com uma mãe que estava muito triste porque o seu filho partiu para outro país, sentia saudades dele ).

    Amigo Leitão, o poema de Nuno de Montemor « À Dulcíssima Memória de Minha Mãe », que está no livro dele – Amor de Deus e da Terra – é um hino, dos mais belos, à SAUDADE, só de alguém das nossas terras podia sair algo assim.

    António Emídio

  2. Antonio Martins diz:

    excelente trabalho estes artigos do “Homem de Beira Côa” que merece uma publicação que aguardo com boas expectativas! Quero acrescentar que Joaquim Manuel Correia não morreu… há continuidade da sua obra! Parabéns Paulo Leitão Baptista

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