O Homem da Beira Côa (2)

Rio Côa - © Capeia Arraiana

:: :: Actividade humana, habitação tradicional e vias de comunicação :: :: «O homem da Beira Côa» foi o tema de uma conferência proferida na Sociedade de Geografia, em 15 de Abril de 2013, em Lisboa, que agora publicamos, dividida em quatro partes. Caracteriza-se o povo da região do Côa em função das migrações, guerras, epidemias e catástrofes naturais a que esteve sujeito. Abordam-se as crenças e os rituais, em especial os que advêm de uma religiosidade popular muito original e diferenciadora. Vai-se também ao encontro das suas características físicas e psicológicas, onde se encadeiam as grandes epopeias dos tempos mais recentes: o contrabando e a emigração.

Lavrando a terra

Lavrando a terra

A actividade humana
Já dissemos que os primeiros ocupantes do vale do Côa eram nómadas, que viviam da caça, da pesca e da recolha de frutos e de raízes, alimentando-se do que a Natureza lhes dispunha e podiam alcançar. No vale imperava a floresta, que era rica em espécies animais, e o próprio rio e seus afluentes continham abundância de peixe.
Mas a evolução levou à sedentarização e ao cultivo do solo. As terras aráveis junto ao rio e afluentes, as «veigas», foram transformadas em hortas, beneficiando da abundância de água. Ao mesmo tempo os povos do Côa tornaram-se pastores que guardavam os seus rebanhos nos vales, nos planaltos e nas alturas da montanha.
As aldeias formaram-se onde havia boas terras de aluvião ou óptimos prados para o gado, bem como condições de protecção face ao sol e às intempéries.
Cada aldeia tentou substituir por si ou com a ajuda das que lhe estavam nas proximidades. A evolução das técnicas e da organização social levaram a que este povo procurasse garantir a auto-suficiência. Cada aldeia procurou cobrir as suas carências. Para além dos agricultores e pastores, a aldeia pejou-se de outros especialistas. O barbeiro, que talhava barbas, cortava os cabelos e era o mestre curandeiro, que a todos acudia em caso de doença. O ferreiro, com forja e fundição, que fabricava e reparava os instrumentos agrícolas e ferrava os animais. O carpinteiro, o pedreiro, o moleiro, o sapateiro, o alfaiate, a costureira, o boticário, enfim, cada um com a sua arte, que colocava ao serviço dos outros.
No seio destas comunidades, entregues a si próprias também se desenvolveu e aperfeiçoou o trabalho comunal. Aqui sobressai o sistema da «adua», ou de trabalho «à vez», que servia para a utilização colectiva do formo, do moinho, do lagar, do poço. Desenvolveu-se assim o trabalho comunitário e solidário de um povo que sabia que tinha de sobreviver e viver em conjunto, de passar o saber de pais para filhos, de dar continuidade à existência e ao labor quotidiano.
O exemplo mais comum às diversas comunidades aldeanas era o da adua no uso do forno. Cada família sabia quando era a sua vez de aquecer (desamuar) o forno, de cozer o pão, de recolher as lenhas, de guardar o fermento, de limpar o forno. Ai daquele que faltasse ao cumprimento dos deveres, que abusasse da confiança ou que desrespeitasse os usos e os costumes herdados do passado…

A habitação tradicional
Outra questão que importa explorar é a forma como se protegeu e abrigou este homem do vale do Côa, desde os tempos antigos. Se nos primórdios ocupou cavernas e ergueu choças efémeras, ou pelo menos sem a solidez que lhes garantisse segurança, o certo é que com a sua efectiva fixação em aldeamentos melhorou substancialmente a arte de construir abrigos. Para além de casas de pedra, cobertas com colmo ou giestas, apareceram fortificações nos locais mais altos, para conferirem a devida protecção face a ataques inimigos.
Mas no que reporta ao homem simples, ao que vivia o seu quotidiano pastoreando animas ou revolvendo os campos, aquele cujo estudo aqui nos motiva, a construção do seu abrigo obedeceu sobretudo a razões de ordem prática.
Com o evoluir das técnicas de construção o íncola beiracudano consolidou a construção do lar, radicada no uso do granito ou do xisto, que eram as rochas mais abundantes, variando em função da constituição geológica dos terrenos. Carlos Alberto Marques no seu estudo geográfico «A Bacia Hidrográfica do Côa» (Coimbra, 1938), deixa-nos a caracterização da casa tradicional do povo da Beira Côa:
• Planta rectangular, com rés-do-chão e primeiro andar;
• Portas e janelas guarnecidas com cunhais de granito (mesmo nas terras xistosas, as ombreiras eram sempre de granito, vindo das proximidades);
• Telhado com duas vertentes
• Rés-do-chão térreo e dividido em duas partes: uma era a loja para o gado (vaca, égua, burro ou vitelas), outra era a adega para a «pinga do vinho» e para a arrumação das alfaias agrícolas, arcas de cereal e batatas;
• Escadaria exterior para o primeiro andar encostada à fachada, com degraus de pedra, e encimada por terraço chamado «balcão»;
• O primeiro andar, com soalho de madeira, tem as seguintes divisões: a «cozinha», com pequena janela para o exterior, caiada a barro amarelo, com lareira, cantareira, escano (banco), mesa, e diversas louças; o «meio da casa», forrado de madeira, com bancos, e mesa, que era onde a família comia quando havia visitas; as «alcovas» ou quartos (dois ou três), que são pequenas dependências onde apenas cabe uma cama e sem qualquer janela para o exterior; a pequena «despensa», anexa á cozinha e que servia de depósito de apoio.
• No exterior a casa do lavrador tinha o «curral», delimitado por um muro, onde se acumulavam os estrumes, e onde existia ainda o «cabanal», que era um simples coberto para guarda do carro das vacas, da lenha e de algumas alfaias.
• Muitas casas tinham também ao lado um pequeno horto com poço, onde se cultivavam couves, alfaces, tomates e outras hortaliças.
Para além dessa sólida e prática casa do lavrador, que se tornou típica na Beira Côa, havia também as casas apalaçadas, que eram o refúgio da gente grada, dos grandes proprietários, assim como os tugúrios, que eram invariavelmente casas térreas, cobertas de colmo ou giestas, onde viviam as gentes mais pobres, que não possuíam terras e que trabalhavam como cavadores e jornaleiros.

As vias de comunicação
Palco da vida humana desde tempos remotos, o vale do Côa é porém uma terra pedregosa, com muitos lugares de difícil acesso, onde apenas a pé homens e animais os cruzavam. Ainda assim, confluiriam ali diversas rotas, que ligavam aos principais povoados, mas cujos vestígios estão hoje pouco evidentes. O rio e os ribeiros eram facilmente transponíveis a vau durante as estações quentes, quando a água escasseava, mas eram obstáculo dificilmente transponível nas épocas de chuvas, quando os leitos enchiam. Só a abertura de estradas e caminhos comunais contornando os penhascos e a edificação de pontes e pontões permitiram amenizar o problema da mobilidade.
A larga rede de aldeias e de lugarejos uniu-se na sequência desse trabalho árduo de romper caminho nos locais mais inóspitos, ainda que neles, durante séculos, apenas passassem carros de tracção animal. Foi porém assim que as comunidades se ligaram e interagiram.
A rede viária que existia ainda há poucas décadas ligando a maior parte das terras da Beira Côa fora em grande parte construída com o labor colectivo de juntas populares para as quais uns contribuíram com dinheiro e materiais e outros, a maior parte, com o simples trabalho braçal.
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Paulo Leitão Batista

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