O Homem da Beira Côa (1)

Rio Côa - © Capeia Arraiana

:: :: Delimitação do território e povos primitivos do Vale do Côa :: :: «O homem da Beira Côa» foi o tema de uma conferência proferida na Sociedade de Geografia, em 15 de Abril de 2013, em Lisboa, que agora publicamos, dividida em quatro partes. Caracteriza-se o povo da região do Côa em função das migrações, guerras, epidemias e catástrofes naturais a que esteve sujeito. Abordam-se as crenças e os rituais, em especial os que advêm de uma religiosidade popular muito original e diferenciadora. Vai-se também ao encontro das suas características físicas e psicológicas, onde se encadeiam as grandes epopeias dos tempos mais recentes: o contrabando e a emigração.

O homem do Côa - desenho de Marcos Oliveira

O homem do Côa – desenho de Marcos Oliveira

Delimitação do território
Para falarmos da Beira Côa importa delimitar o espaço a que nos reportamos. Ele será o território vizinho ao rio Côa, centrado na sua bacia hidrográfica, que não comporta apenas o vale que enquadra o rio, mas também o conjunto dos seus afluentes e as respectivas linhas de água.
A bacia do rio Côa, que nos documentos antigos é chamado rio Cuda, ocupa uma superfície formada por terra inóspita, puro pedrulhal de granito ou de xisto, mas onde há também campos de terra fértil, extensões planas, zonas de floresta, de pastagens e de terreno agrícola.
Nos primeiros quilómetros o rio, que nasce na serra das Mesas, em Fóios, concelho do Sabugal, um nada ao lado de Espanha, corre num vale pouco cavado e contém extensas margens planas, aráveis e férteis. Mas à medida que as águas avançam, entram em vale mais fundo, que depois se torna escarpado, mas mantendo ao seu redor, assim como junto aos ribeiros seus afluentes, frequentes pontos de terra arável.
No tocante ao clima, o vale divide-se também em dois territórios distintos. A Sul temos a chamada «Terra Fria», correspondendo aos concelhos do Sabugal, Almeida e Guarda, onde o clima é de rigores, especialmente no Inverno, quando o frio e o gelo imperam. Já a Norte, nos concelhos de Pinhel, Figueira de Castelo Rodrigo e Vila Nova de Foz Côa, temos a «Terra Quente», em que o tempo é mais ameno e onde se avista o olival, a vinha e o laranjal e as amendoeiras floridas cobrem a terra com esplendor.

Os povos primitivos do Vale do Côa
A razão primeira da fixação populacional no vale do Côa terá sido a procura de água potável. Houve porém outros motivos, centrados na precisão de água para as demais necessidades humanas, e em factores como a pesca e a abundância de caça (os animais iam necessariamente dessedentar-se aos cursos de água), também o valor do solo, que se queria fértil e arável, a abundância de pasto para os animais, de lenha como combustível para o fogo ou como material para construção. E ainda a necessidade de protecção face aos animais ferozes ou a outros homens inimigos.
No vale do Côa os vestígios da arte primitiva apontam para uma fixação humana regular desde há 20 mil anos. Num período a que se convencionou chamar Paleolítico Superior, recolheram-se no vale comunidades nómadas, constituídas por caçadores-recolectores, cujos instrumentos eram de madeira, pedra e osso. Com essas ferramentas rudimentares caçavam, pescavam, escavavam raízes, cortavam árvores. Também gravavam na pedra dura (no xisto que ali abunda), imagens dos animais com que partilhavam aquele mundo em que viviam, fossem touros, cavalos, cabras montesas, veados, camurças e peixes.
A espantosa concentração de arte rupestre neste vale abrupto do Côa tem deixado interrogações acerca do seu significado, mas tudo parece apontar para uma importância efectiva desta região, que terá sido, pelas suas características, uma área de concentração de diversas tribos.
As gravuras rupestres do vale do Côa não são apenas um testemunho da passagem humana por estas terras escabrosas da meseta ibérica, elas deverão ser tidas e lidas como o testemunho visível de um povo que aqui viveu e se aventurou, tendo no seu ser e da sua maneira de viver, muito do que é a riqueza de uma comunidade. A sua criatividade está exposta nas pedras cujos desenhos perduraram. Essa arte de representar mostra bem o essencial do carácter desse povo que tinha sentido prático, mas também apurado gosto estético. Era já uma comunidade organizada, que tinha sentido de vida colectiva, de responsabilidade, de coordenação, de divisão de tarefas, de saber. A qualidade das gravuras e a sua configuração deixam nos estudiosos do tema a certeza de uma intenção de assim deixarem o testemunho das suas vivências para as gerações vindouras.
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Paulo Leitão Batista

One Response to O Homem da Beira Côa (1)

  1. Alcina da Conceição Santos Alves Rodrigues diz:

    Excelente artigo, espero vê-lo publicado na integra……gostaria de o ter em livro quando da sua edição……..muitos parabéns

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