Casteleiro – A terra, a serra e a água

José Carlos Mendes - A Minha Aldeia - © Capeia Arraiana

Estamos em meados do século XVIII. É fulcral a agricultura, apoiada na pecuária, mas também o é a caça e até, em pequeníssima escala, a pesca. Assim se faz a vida: com base na terra, na serra e na água. Ontem como hoje e como há pelo menos três mil anos? É que, por mais tecnologia que exista, a paparoca é sempre feita do mesmo… ou melhor: antes fosse… com tanta dose de químicos, o que por aí se come é cada vez mais de «plástico». Mas volto ao século XVIII: retomo uma parte do material disponível: as respostas que os párocos da zona dão ao Governo do Marquês sobre a vida, os locais e as pessoas daqui. Hoje, vou «pegar» sobretudo nas respostas do Casteleiro e da Moita para a hidrografia e ainda nas do Vale para a orografia da região. De caminho, sugiro que leia a edição nº 42 do «Serra d’ Opa».

A Ribeira sempre foi fonte de vida

A Ribeira sempre foi fonte de vida

As linhas de água da zona são descritas pelos padres da Moita e do Casteleiro de forma pormenorizada, o que muito me agrada, pois estas coisas não mudam em apenas 250 anos. E pela verdade do que eles escrevem sobre os recursos hídricos, posso deduzir da verdade do resto. Estes são elementos «permanentes», estáveis – ou, pelo menos, com poucas alterações de século para século.

A Junta limpa a ribeira e os ribeiros afluentes

A Junta limpa a ribeira e os ribeiros afluentes

A Ribeira
Assim, confirmamos que a Ribeira é a principal fonte de recursos hídricos e de rega – embora se presuma que nas zonas de serra, as mais altas, haja, como sempre houve, poços e presas, sejam naturais sejam feitos pelo Homem.
A nossa Ribeira (que lá para trás foi da Nave) mas aqui no Casteleiro é apenas «a Ribeira» (ainda hoje), é pouco caudalosa na maior parte do ano e até seca durante meses. Tal e qual.
Sabemos também por esses documentos que têm vários afluentes ao longo do seu percurso.
Vamos então seguir a Ribeira, pela pena dos dois párocos – primeiro, o da Moita, pois é por lá que passa primeiro a nossa Ribeira.
Nascente
«Nasce junto á Quinta das Alagoas, que hé freguezia de Santo Antonio da Urgueyra»; «principia a nascer ao pé da serra chamada do Mosteiro, ao pé de uma quinta chamada Alagoas, freguesia de Sancto António da Orgueira, termo da vila de Sortelha».
Água
«Nam nasce logo caudaloza, porque vay crecendo com os regatos que se lhe ajuntam em varias partes, e ordinariamente seca, e por isso nam corre todo o anno»; «corre quase todo o ano, ou ao menos até ao fim de Julho, e sempre nela se conservam alguns poços de água».
Curso
«A ribeira em si corre quieta mas os tais ribeiros que nela se metem correm algo tanto arrebatados»; «tem de comprimento donde principia até aonde se mete na Ribeira Meimoa duas léguas e não passa senão ao pé deste lugar de Castelleyro».
Afluentes
«…vay crecendo com os regatos que se lhe ajuntam em varias partes»; «nela também se mete outro ribeiro pequeno que chamam o Ribeiro do Poio, o qual principia a nascer num sítio chamado Corredoura no limite da dita vila de Sortelha, e este se vem meter nela no sítio das Alvercas, limite deste lugar»; e ainda «três pequenos ribeiros, chamados um o Ribeiro de Val de Castelloins, e outro de Cantellegalo, e outro do Espírito Sancto, este se mete nela no sítio chamado Guaralhais, aqueles no sítio chamado Tinte».
Pontes
«Nam tem ponte alguma de cantaria, e somente tres de pau: huma no porto que vay deste Lugar para o de Castelleiro, outra no caminho que vay para a Villa da Sortelha, e outra no porto do caminho que vay do Castelleyro para o Lugar de Val de Lobo»; «Tem esta ribeira duas pontes de pao, uma no sítio chamado Alaia dos Ramos e outra no sítio chamado as Relvas da Ponte».
«Foz»
«Morre na Ribeyra da Meymoa, e esta no Rio Zezere, e este no Tejo, e o sitio em que entra na Meymoa hé chamado o Anasser, junto ao Lugar da Bemquerença»; «morre na ribeira chamada Meimoa entre o lugar Benquerença e o lugar Escarigo».

Ribeira: fonte de riqueza
Por onde passa, a ribeira é fonte de riqueza. Numa zona onde a água é escassa, quando a ribeira leva água, é uma fartura. Duas a três vezes por ano, a enchente e as enxurradas certamente inundavam tudo, como na minha meninice. Mas, depois de passada a tormenta, os campos ficavam ainda mais férteis, com os resíduos adubantes.
Vamos então ver como é que os padres da época acompanhavam a ligação da ribeira à sobrevivência e à economia local. Aqui, justifica-se que junte as opiniões do Pároco do Vale de Lobo de 1758 – numa terceira citação para cada «item». Ficarão então as citações por esta ordem: Moita, Casteleiro, Vale.

Agricultura e silvicultura
«Cultivam-se as suas margens, semeando-se de centeyo, e em algumas partes, com seu regadio se colhe linho e feyjoins, e tem alguns arvoredos que constam de castanheiros, carvalhos, amieyros e salgueyros»; «nas suas margens se costumam cultivar para centeio, as árvores que há ao pé dela são algumas oliveiras e alguns amieiros, porém estes não dão frutos. Também ao pé do lugar em alguns chãos que estão junto dela se costuma semear linho de secadal»; «as duas margens de centeio, e trigo e tem ao redor oliveiras e carvalhos».

Aproveitamento «industrial» das água
«…há… moinhos, pizoins, e lagares de azeite… tem treze moinhos, tres lagares de azeite e tres pizoins…»; tem dentro do limite desta freguesia esta ribeira sete moinhos e três lagares de azeite, dois pizoins e algum dia teve também um tinte, porém hoje se acha demolido»; «tem esta ribeira de onde principia até à Benquerença quatro lagares de azeite e quatro moinhos».

Uma serra mítica e vistosa

Uma serra mítica e vistosa

A Serra
Na próxima semana falaremos da Serra d’Opa e de como a viam os párocos do Vale, da Moita e do Casteleiro.
Para adiantar serviço, digo-lhe que, para o Cura Leal, do Casteleiro, «esta chamada Serra d’Opa tem de comprimento quase duas léguas e de largura meia légua. Principia no limite do lugar da Moita no sítio da Cabeça Gorda e acaba num sítio que chamam Sam Dinis no limite do lugar chamado Benquerença, distante deste povo duas léguas. E a Serra chamada Serra da Preza terá de comprimento uma légua e de largura quase o mesmo. Principia no limite deste lugar e acaba no limite do lugar chamado Escarigo, distante deste lugar légua e meia».
Mas nem todos assim pensavam.
Por exemplo: o padre da Moita achava que esta serra vinha já da Espanha: «Emquanto vay no Iemite desta freguezia se chama a Serra da Opa, que em outtras tem outro nome de que os Parochos dellas daram noticia» e que, «depois que entra no Reyno de Portugal, esta Serra, que pello Lugar de Val de Espinho, termo da Villa do Sabugal e Bispado de Lamego, tem de comprimento nove legoas, e de largura meya legoa, e finaliza no Rio Zezere, junto a hum Lugar chamado Alcaria, termo da Villa do Fundam, e sempre entendo que he braço da celebrada Serra da Estrella».

Nota – Consulte a edição n.º 42 do «Serra d’ Opa», aqui.
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«A Minha Aldeia», crónica de José Carlos Mendes

One Response to Casteleiro – A terra, a serra e a água

  1. Caro leitor, já depois de enviada a crónica, ficou pronta e foi inaugurada esta exposição virtual que o convido a visitar também. São rochas de encanto da nossa zona. Pode aceder por aqui: http://serradopa.blogspot.pt/2014/05/beira-interior-rochas-de-encanto.html.

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