Maio, maduro Maio

Adérito Tavares - Na Raia da Memória - © Capeia Arraiana (orelha)

Sem menosprezo por todos os outros colegas de blogue», aprecio particularmente os «posts» do nosso prezado conterrâneo Fernando Lopes. A sua recente crónica «Maio», motivou-me a escrever sobre o mesmo tema. Com a devida vénia, aqui vai.

Capa do disco de José Afonso «Maio, maduro Maio» (1971) - Capeia Arraiana Desfile de tropas no 28 de Maio de 1926; em primeiro plano, o general Gomes da Costa que, a partir de Braga, desencadeou o golpe militar que daria início a uma Ditadura de quase meio século Imagem icónica do Maio de 68 em Paris com Daniel Cohen-Bendit, um dos líderes do movimento estudantil, a enfrentar a Polícia com um sorriso desafiador - Capeia Arraiana

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Maio, maduro Maio,
Quem te pintou?
Quem te quebrou o encanto
Nunca te amou.

José Afonso, Cantigas do Maio (1971)

As palavras transcritas acima são de uma das mais bonitas canções de Zeca Afonso, incluída num disco que constitui, na minha opinião, o apogeu da sua excepcional carreira de criador poético e musical e de cantor «engagé». Trata-se de um disco gravado em Paris, com a colaboração de alguns refugiados políticos portugueses em França, como José Mário Branco, ou de outros cantores de intervenção, como Francisco Fanhais. À beleza e ao profundo significado social e político das composições e dos poemas do Zeca juntaram-se os excelentes arranjos de J. Mário Branco e a qualidade da gravação. Foi, para além do mais, um disco premonitório, do qual faz parte a canção mais emblemática da Revolução do 25 de Abril de 1974, “Grândola, Vila Morena”. É, portanto, um disco histórico.
Em 1971, quando Zeca Afonso dizia «Quem te quebrou o encanto/ Nunca te amou» referia-se, como é óbvio, aos fundadores da Ditadura, iniciada com o golpe militar de 28 de Maio de 1926. E fazia o seu apelo inconformista, de corajoso combatente a favor da “liberdade, igualdade e fraternidade”, a favor da recuperação do “encanto quebrado”: «Qu’importa a fúria do mar!/ Que a voz não te esmoreça/ Vamos lutar.» Vivia-se então a agonia do Estado Novo. Ao salazarismo sucedera o marcelismo. As esperanças de transição pacífica para a democracia, prometidas pela famosa declaração marcelista de «renovação na continuidade», em breve dariam lugar à frustração e ao desencanto dos que desesperavam de ver Portugal modernizado, política e economicamente. Marcelo Caetano, enredado nas teias do regime e atolado no lodaçal da guerra africana, acabou por fazer a continuidade sem renovação. Entre os desiludidos contavam-se os deputados da chamada «ala liberal» da Assembleia Nacional, como Pinto Leite, Sá Carneiro, Miller Guerra, Mota Amaral e Pinto Balsemão. Nas fábricas, nos campos, nas universidades e até no seio das Forças Armadas, intensificou-se a luta contra a «situação» (como então se dizia). Formações partidárias clandestinas promoviam acções violentas, com assaltos a bancos e atentados bombistas. O regime salazarista-marcelista, caduco e apodrecido, agonizava, conduzido a um verdadeiro beco sem saída: a questão fundamental do País, a guerra colonial, continuava por resolver. Perante a falência da solução militar e a recusa da solução política, a questão ultramarina acabaria por ser resolvida por meios revolucionários.
O Maio, maduro Maio que Zeca Afonso canta, é um mês com um encanto e um significado particular. Nas sociedades europeias pré-industriais, o mês de Maio era o tempo do amor e do casamento: a Igreja recusava celebrar matrimónios durante a Quaresma e desanconselhava os crentes de praticarem relações sexuais nesse tempo de recolhimento e de sacrifício, que preparava a Páscoa. Acabadas as festividades pascais e antes que viessem em força os trabalhos agrícolas das mondas, das ceifas e das colheitas em geral, os camponeses (que eram 85 a 90 por cento da população, lembremos) tratavam de casar. Quando fazemos a análise dos registos paroquiais, verificamos que, na sazonalidade dos casamentos, Maio ocupa geralmente o primeiro lugar. Isso deve-se às causas que apontei e ainda, claro, à inegável predisposição primaveril de todos os seres viventes para o amor. Citemos, de novo, o Zeca: «Sempre depois da sesta/ Chamando as flores/ Era o dia da festa/ Maio de amores.» Hoje como ontem, Maio é o mês do amor, com as suas temperaturas amenas, o verde jovem e fresco das árvores cobertas de folhagem tenra, os prados de mil flores e mil odores, as encostas pintadas com a urze, o rosmaninho, as maias e as estevas. E é também o mês em que as pessoas se sentem mais enérgicas, mais criativas, mais reivindicativas. O 1.º de Maio é o dia do Trabalhador. E foi este o mês em que, nas ruas de Paris, explodiu o movimento estudantil conhecido pelo nome de «Maio de 68».
Os excessos da sociedade de consumo, os problemas sociais e o choque provocado pela guerra do Vietname desencadearam, no final dos anos 60, entre a juventude, uma enorme vaga de contestação, iniciada nos Estados Unidos, com o movimento hippie. Os hippies punham em causa os valores dominantes na sociedade industrial, defendiam o amor-livre e a não-violência, punham flores no cabelo, falavam do “flower power”, praticavam uma vida simples e admiravam a espiritualidade das religiões orientais. Parcialmente influenciados por estas ideias, os estudantes americanos desenvolveram uma intensa campanha contra a guerra do Vietname, com canções de protesto e grandes manifestações de rua.
Estas movimentações exerceram forte repercussão na juventude europeia. No entanto, na Europa, os movimentos estudantis tiveram um carácter mais assumidamente político, inspirados pelas ideologias de esquerda, sobretudo o trotskismo, o maoísmo e os ideais de Che Guevara. Em Maio de 68, os estudantes de Paris ocuparam as universidades, lutaram contra a polícia nas ruas da cidade, levantaram barricadas, transformaram a cidade-luz num autêntico campo de batalha. A sublevação estendeu-se às fábricas e conseguiu sacudir seriamente uma França aburguesada, consumista e acomodada, então dirigida pelo velho e prestigiado general De Gaulle. Ficaram famosos alguns slogans dos estudantes, como «Soyez realistes, demandez l’impossible» («Sejam realistas, peçam o impossível»), ou «Il est interdit d’interdire» («É proibido proibir»), ou ainda «Sous les pavés, la plage» («Debaixo das pedras da calçada, está a praia»).
Em Portugal, o movimento estudantil teve a sua prova de fogo em 1969. A repressão policial foi particularmente violenta, mas a Ditadura tremeu.
Apesar do utopismo violento e anárquico do «Maio de 68», o idealismo dos jovens estudantes parisienses acabaria por dar alguns frutos positivos. As pessoas tornaram-se progressivamente mais exigentes para com os políticos, mais conscientes dos seus direitos, com um sentido crítico mais agudo. Mas o idealismo revolucionário acabaria por enfraquecer. Nos anos 80 e 90, o individualismo e o espírito competitivo passaram a dominar as mentalidades. Todavia, face a um certo vazio ideológico e a uma clara ausência de valores sociais (acentuados pela crise do comunismo e pelo desmoronamento do bloco de Leste), surgiram novas formas de inquietação entre a juventude, relacionadas com os grandes problemas ambientais, a droga, a fome no mundo, a crise economico-financeira, o desemprego. Não faltam aos jovens de hoje causas nobres por que lutar. Em qualquer época do ano, mas sobretudo em Maio.
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«Na Raia da Memória», opinião de Adérito Tavares

ad.tavares@netcabo.pt

One Response to Maio, maduro Maio

  1. Fernando Lopes diz:

    Caro Professor AdéritoTavares, sinto-me honrado.
    Abraço

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