O falar de Riba Côa – o léxico (101)

O Falar de Riba Côa - Paulo Leitão Batista - © Capeia Arraiana

Damos continuidade à apresentação do léxico «O Falar de Riba Côa» com as palavras e expressões populares usadas na raia ribacudana.
Entre os termos OBRAR e OVO CHOCO.

OBRAR – fazer; trabalhar – o linho foi obrado em casa. Defecar; evacuar.
OBRIGA – imposto.
ÓCADO – dente careado, furado (Clarinda Azevedo Maia – Fóios).
ÓCALOS – óculos (Francisco Vaz).
O COMIDO PELO SERVIDO – expressão que indica que a alimentação foi a retribuição do trabalho prestado.
OCUPADA – mulher grávida (Joaquim Manuel Correia).
ODRE – indivíduo gordo ou que come muito; estômago. Recipiente de pele de cabra voltada do avesso, próprio para o transporte de azeite.
OFLAR – presente oferecido pelos padrinhos, nos Santos e na Páscoa. O m. q. folar. Clarinda Azevedo Maia refere afelar.
ÓGADO – com vontade; desejoso (José Pinto Peixoto). O m. q. augado ou ougado.
ÓGADOIRO – picota; burra d’ógar; cambo (Manuel dos Santos Caria).
OGAR – baldear água – de augar (José Pinto Peixoto). Ficar com sentido em algo; desejo insatisfeito; o m. q. augar.
OITÃO – parte lateral de um edifício, onde assentam as traves (Clarinda Azevedo Maia). Também se diz outão.
OLGA – leira; courela; chão regadio. «A ribeira no Inverno assolava as olgas» (Leopoldo Lourenço).
OLHAL – buraco por onde passa água. Olhais da ponte: aberturas formadas pelos arcos que a suportam.
OLHAR PRÓ ERVO – olhar para o ar; não fazer nada. «Afoitava os ranchos a cantar, porque enquanto cantavam não olhavam pró ervo» (Carlos Guerra Vicente).
OLHEIRO – lameiro fresco, com água permanente, em terras arenosas (Duardo Neves).
ÓLIMO – olmo (árvore) – Francisco Vaz. Júlio Silva Marques escreve ôlimo.
OPILADO – inchado; enfatuado (Júlio António Borges).
O QUE FOR SOARÁ – expressão irónica que indica indiferença perante algo de importante que pode acontecer.
ORAÇÃO – reza por alma de um defunto nos quatro domingos seguintes ao seu falecimento. Diz-se no masculino: o oração. «Findo o oração segue o acompanhamento para a igreja» (Franklim Costa Braga).
ORATE – doido. Casa de orates: casa de malucos (Júlio António Borges).
ORDENHA – quantidade de leite tirado de uma só vez a uma fêmea. Casa onde modernamente se leva o gado para ser ordenhado através de máquinas.
ORDENHAR – mugir.
ORDENHO – redenho; parte gordurosa do porco (Manuel dos Santos Caria).
ORELHAS DE ABADE – filhós polvilhadas com açúcar e canela.
ORELOS – tiras de tecidos usados, com as quais se fazem mantas e alforges nos teares manuais (Vítor Pereira Neves). O m. q. farrapos.
ORGANDILHO – espécie de dobadeira do linho (Francisco Vaz).
ORGANEIRO – indivíduo natural da Vila do Touro.
ÓRGÃO – eixo horizontal de um tear, onde se enrola o tecido. Luísa Lasso de la Veja y Pedroso Charters escreve órgam.
OSGA – raiva; ódio (Júlio Silva Marques). Bebedeira.
OS MAIS – os outros; a demais gente.
OSMAR – estar apático, pasmado, sem movimento (Duardo Neves e José Pinto Peixoto).
O TANAS – nada; nem pensar!
OURIÇO-CACHANO – ouriço-cacheiro (Pinharanda Gomes).
OUSIO – ousadia; atrevimento; incitamento psicológico; apoio. «Queira desculpar o nosso ousio» (Abel Saraiva).
OVELHADA – rebanho de ovelhas.
OVO CHOCO – pessoa fraca e adoentada (Júlio António Borges).
Paulo Leitão Batista, «O falar de Riba Côa»

leitaobatista@gmail.com

One Response to O falar de Riba Côa – o léxico (101)

  1. Usam-se na minha terra (o Casteleiro) os termos que seguem: OBRAR, ÓCALOS, ODRE, OLHAL (da ponte), O QUE FOR SOARÁ, ORAÇÃO, ORDENHA e ORDENHAR, ORDENHO, ORELOS, ORGANDILHO, OS MAIS.

    Pouco, muito pouco.

    OBRIGA não se dirá, mas diz-se outra, inversa, e para um significado religioso: diz-se «desobriga» para significar o cumprimento das obrigações para com a Igreja na Páscoa (penso que confissão e comunhão).

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