Memórias sobre o Concelho do Sabugal (73)

:: :: SABUGAL (7) – A Senhora da Graça :: :: O livro «Terras de Riba-Côa – Memórias sobre o Concelho do Sabugal», escrito há mais de um século por Joaquim Manuel Correia, é a grande monografia do concelho. A obra fala-nos da história, do património, dos usos e dos costumes das nossas terras, pelo que decidimos reproduzir a caracterização de cada uma das aldeias nos finais do século XIX, altura em que o autor escreveu as «Memórias».

Santuário da Senhora da Graça - Sabugal

Santuário da Senhora da Graça – Sabugal

A Senhora da Graça
A ermida da Senhora da Graça, onde se venera esta imagem, data de tempos imemoriais, alvejando ao sul do Sabugal, donde dista perto de dois quilómetros, edificada na margem esquerda do rio Côa, sobre um pequeno outeiro, banhado por dois regatos, que a pouca distância vão desaguar no rio. O sítio é ameno e pitoresco e ali tiveram os frades do Convento de Penamacor um aprazível retiro.
Debalde procurámos a origem da fundação desta ermida, que parece ser antiquíssima, embora da mais humilde arquitectura.
A ela se referem alguns documentos pertencentes ao extinto concelho de Sortelha, em cujo limite se achava.
Tinha a Câmara do Sabugal obrigação de ali ir todos os anos na segunda-feira de Pascoela, dia em que se celebrava uma festividade muito concorrida pelo povo, sendo costume antiquíssimo dar pão, vinho e azeitonas a todos os indivíduos que ali os reclamassem nesse dia.
Tão curioso costume desapareceu há poucos anos.
A ermida é de pequenas dimensões e, como dissemos, da mais simples e humilde arquitectura. Devemos todavia fazer menção do altar, onde há curiosa obra de talha, representando a ceia do Senhor, em toscas figuras da mais infantil concepção artística.
Neste altar são veneradas as imagens da Senhora da Graça e de S. Francisco, esculturas há poucos anos vindas do Porto.
No interior da ermida vêem-se muitos ex votis de cera e alguns quadros, cujas legendas são curiosas.
Copiemos a legenda de um deles:
«MILAGRE QUE FES NOSSA SENHORA
DA GRAÇA A D. LUIZA ANTª DE S. CLARA
DE HUMA QUEIXA QUE PADECIA ADES
ANNOS E APEGANDO-SE COM A SENHORA
COM HUNS REMÉDIOS QUE LHE FIZERAM
LOGO TEVE SAUDE A SEIS DE AGOSTO
DO ANNO DE 1757.»

Além da festa a que a câmara era obrigada todos os anos, indo ali processionalmente o povo com os vereadores, empregados, administrador do concelho e autoridades, levando o secretário a respectiva bandeira, outra tem sido feita. em quinta-feira da Ascensão, por uma comissão de pessoas da vila. Todos os anos eram nomeados os mordomos ou membros dessa comissão, sendo a lista dos seus nomes lida pelo pregador.
Assistimos a algumas dessas festas que os mordomos e mordomas capricharam em tornar o mais luzidas possível, havendo na véspera esplêndido arraial, em que um hábil pirotécnico exibia belas peças, admiradas por toda a gente, executando a filarmónica da vila, e algumas vezes a banda regimental do 12 de infantaria, os seus mais selectos reportórios.
A última romaria ou festa a que ali assistimos foi tristemente célebre e teve lugar no dia 16 de Maio de 1901.
Os festeiros, para darem mais brilho ao arraial, tinham, havia 3 anos, mandado levar para o largo da Senhora da Graça, uma velha peça de artilharia, que durante muitos anos estivera à entrada da vila, à porta do jardim. Na véspera da festa desse ano fizeram com ela vários tiros, o que tornava mais variado o espectáculo e no dia 16 alguns deram também, cujo estampido, se aterrou algumas pessoas, muitas mais divertiu.
Mas a peça era antiquíssima e manejada por mãos inábeis, o que tornava mais perigoso o uso dela, pois estava muito oxidada. Como estes inconvenientes não fossem já de pequena monta, o encarregado dela, A. J. Fontes, além de sete quilos de pólvora com que a última vez a carregou, teve a tristíssima ideia de lhe lançar também uma certa porção de dinamite, de sorte que ao mesmo tempo que se ouviu uma formidável detonação, os estilhaços do monstro cortaram em vários sentidos o espaçoso arraial. O pânico e confusão foram horríveis, seguidos de gritos lancinantes.
João Proença, do Sabugal, ficou logo morto, António Janela, das Vinhas, com uma perna fracturada e o Ramalha, também do Sabugal, mas residente no Meimão, com outra perna em mísero estado e muitas outras pessoas feridas. Um estilhaço da peça partiu duas pernas duma égua do taberneiro A. Malcatenho e outros foram cair a grande distância do local.
O António Janela faleceu no dia 18 desse mês e o Ramalha no dia 20, sendo impotentes os esforços da ciência para salvar os desgraçados.
Foi grande a consternação em toda a vila e povoações circunvizinhas, motivo porque .não houve urna réeita de amadores que estava anunciada. Foram presos A. J. Fontes e Ildefonso Gondim e feitas autópsias aos cadáveres das vítimas, não havendo, porém, procedimento judicial contra os indivíduos presos.
Se a autoridade administrativa houvesse sido previdente ter-se-ia evitado tão lamentável acontecimento que enlutou várias famílias. Diz-se que a peça tinha vindo para o Sabugal nos tempos da revolta dos marechais, trazida de Monsanto.
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Há muitos anos que entre as freguesias da Urgueira e do Sabugal existe certa animosidade por causa desta ermida. Por tal motivo as imagens de S. Francisco e da Senhora da Graça estiveram muito tempo na igreja de S. João, contra o que os da Urgueira protestaram, sem razão alguma, visto que a ermida, embora esteja no limite desta, pertence à vila do Sabugal.
Já noutros tempos houvera rivalidades por motivos semelhantes, sendo também levadas para a igreja de S. João as duas imagens referidas. Conta-se que um descontente, ouvindo dizer que se a imagem estivesse um ano fora da ermida, não havia direito a voltar para esta, tirou a imagem de S. Francisco e, a altas horas da noite, ia com ela embrulhada no capote, atravessando a ponte, quando um valentão lhe grita arrogantemente:
– Quem vai aí?
– S. Francisco, respondeu o do capote.
A tal resposta, o primeiro ficou seriamente atrapalhado, apesar de ter fama de valente, em quanto o outro seguiu pachorrentamente com o santo.
O certo é que os ingénuos acreditaram que era o S. Francisco que por seu pé fora para a sua ermida.
Por causa de tais rivalidades houve alvitres para se edificar outra ermida na margem direita do Côa, celebrando-se uma reunião das pessoas mais importantes da vila para tratarem do assunto, sendo escolhido local para nova ermida e aberta subscrição para custear as despesas, sendo logo nesse acto prometidos 257000 réis por diferentes indivíduos que assistiram.
Opinaram alguns que se requeresse a alteração dos limites das duas freguesias, afim de ficar pertencendo ao Sabugal o local da ermida, evitando-se desse modo conflitos sérios, porque o pároco da Urgueira, no uso do seu direito, negava licença para realizar-se a festa. Foi a questão afecta ao Prelado da diocese, D. Tomás de Almeida, que numa circular proibiu os párocos da sua diocese de se revestirem em freguesia estranha sem licença do respectivo pároco.
Em vista disso a Câmara, para não se humilhar, resolveu em 1894 fazer a festa na igreja de S. João, com entusiasmo, orando o venerando p.e Joaquim A. Marques, pároco de Vale de Espinho.
Depois da reunião na casa da câmara apareceram vários pasquins afixados em diferentes pontos da vila: Ou bom ou nada, dizia um; Faça-se depressa, dizia um outro, dos muitos e variados que apareceram.
Certo é que os ânimos esfriaram, e agora tudo voltou ao antigo estado, porque a festa realizada na igreja de S. João não tinha aquela poesia das antigas festas da Senhora da Graça, em volta da sua branca ermida e havia já saudades do pitoresco sítio, das danças populares, das folias, do fogo preso, das merendas variadas, dos bons vinhos e licores e dos famosos bazares.
A imponente e curiosíssima procissão, onde iam numerosos estandartes e guiões e variadas bandeiras, as folias de diferentes terras, com seus cantadores, tambores, gaitas de foles e bombos, as filarmónicas e tantos mais elementos, tudo causava infinitas saudades e por isso as festas têm continuado a divertir s povos, e a Câmara, reconhecendo isso, mandou construir uma estrada de macadame afim de facilitar o trânsito para o sítio.
A lenda, que anda sempre ligada a tudo o que o povo mais adora, não faltou também nesta ermida, como consta da Crónica da Província da Piedade, por Fr. Manuel de Monforte, que nos refere o ilustre sabugalense António José de Carvalho, para explicar a origem da romaria, de harmonia também com a tradição corrente na vila.
Este ilustre escritor, depois de dizer que consta ter a romaria origem num voto por causa duma grande epidemia que grassava na vila em tempos mui remotos, conta-nos que a origem dela, na opinião de Fr. M. de Monforte e segundo a tradição, teve por fundamento o ter desaparecido uma dama da vila, «por se ter dado aos demónios, estando sentada a uma janela na vila do Sabugal. Mas (os demónios) a levaram logo ao rio Côa, que por ali passa, onde se afogou e chegou ao estado em que se via – diz o frade – que a pobre mulher estava morta sem tripas nem as mais coisas interiores (ipsis verbis). E isto foi assim; porque, indo eu àquela terra, vi a janela, onde a mulher estava, quando desapareceu, achando-a depois morta no rio».
As lendas não se discutem, não lhe faremos por isso comentários, como o ilustre escritor, respeitando esta, por mais pueril que seja a razão dada pelo ingénuo frade.
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Joaquim Manuel Correia

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