25 de Abril de 1974 – A manhã que mudou o País

Joaquim Gouveia - Capeia Arraiana (orelha)

Aparentemente era uma manhã igual a tantas outras. A vida pacata, algo cinzenta, que assombrava muitas das famílias desta Beira, tão distante e esquecida do poder vigente, foi abalada pelos ecos da revolução que vinham de Lisboa a conta-gotas.

25 de Abril -  Joaquim Gouveia - Capeia Arraiana

25 de Abril

Sete horas passavam sobre aquela aurora libertadora de abril. A camioneta da carreira da Viúva Monteiro do Sabugal acabara de inverter a sua marcha no Largo de S. Francisco, no Casteleiro, para aí receber um magote de rapazolas que se iriam juntar a outros, no Terreiro das Bruxas, Santo Estêvão e Alagoas, rumo ao Colégio do Sabugal.
Das frestas das janelas ventiladas desta carreira, velha, vinha um fino ar que arrefecia os tenros corpos daqueles jovens para quem prosseguir os estudos representava um ato de coragem e muito sacrifício das suas famílias.
Uma vez chegados, era visível uma agitação anormal do senhor Diretor. O respeito e algum medo que a sua figura representava para todos nós, faziam com que, ordeiramente entrássemos nas salas de aulas e, de imediato, abríssemos o livro na página certa.
Mas essa manhã de abril desenhava-se diferente. As notícias que as ondas artesianas traziam até esta recôndita vila, de um país, de portas fechadas ao mundo, eram algo confusas e perturbadoras, ao ponto de as aulas serem interrompidas.
A Revolução começava, então, a desenhar-se pelas ruas de Lisboa. Enquanto chaimites, carregados de soldados, faziam frente a um governo, já caduco, o povo reconhecia a sua gratidão com cravos vermelhos e palavras de ordem «O povo está com o MFA», «O povo unido jamais será vencido», (…) «Fascismo nunca mais»!
A alegria contagiante deste povo resignado ao silêncio, durante décadas, contagiou cidades, vilas e aldeias, extravasando fronteiras devolvendo aos pais de coração partido, os seus filhos exilados ou aqueles que, carregando o fardo de uma guerra colonial injusta, regressavam muitas vezes com marcas irreparáveis da sua condição humana ou considerados heróis desaparecidos, a quem o Estado atribuía o galardão de «defensores da Pátria».
Rapidamente este povo, asfixiado culturalmente e economicamente pobre, percebeu que algo estava a mudar, que aquela madrugada viria abrir as portas de um país, que jamais voltariam a fechar.
O medo de uma guerra que pairava sobre os meus dezoito anos foi levado por este vento de liberdade e esperança de um país que ansiava ser livre e mais justo. Agora sabia que, nem eu nem os meus colegas serviríamos de “carne para canhão”. A partir de agora poderíamos discordar do pagamento de uma mensalidade no colégio, do pagamento de uma taxa de gás para aquecimento de um salão de estudo, que nunca aquecia e de uma camioneta da carreira, velha e rejeitada para outros serviços. Tudo isto porque a débil economia das nossas aldeias mal dava para viver.
Com a Revolução de abril o País mudou! Os sinais de esperança estavam espelhados nos rostos de cada português!
A água, o saneamento básico, a luz elétrica, os arruamentos passaram a estar na ordem das prioridades dos órgãos do poder local, eleitos pelo povo e não escolhidos pelos mandantes de uma orquestra desafinada, envelhecida, a cair de podre.
Todos os portugueses passaram a ter direito à educação. A taxa de analfabetismo que antes de 1974 rondava 25 por cento da população cifra-se, atualmente, em cerca de 5 por cento. Para este decréscimo muito contribuíram as campanhas de alfabetização de adultos, o alargamento da escolaridade obrigatória, a criação de creches na rede pública, e multiplicou-se a oferta do ensino superior com a criação de novos cursos, universidades e politécnicos, descentralizados por várias regiões do País facilitando, desta forma, o acesso à educação dos filhos das famílias mais humildes.
Com a criação do Serviço Nacional de Saúde, atingimos níveis de mortalidade infantil nunca vistos, considerados, atualmente, dos mais baixos da Europa e aumentámos a média de vida dos homens e mulheres portuguesas. Para isso contribuiu o alargamento dos quadros médicos e outros profissionais de saúde, a construção de hospitais e centros de saúde, sem esquecer a aposta na investigação.
Paralelamente abriram-se autoestradas e uma rede completa de estradas secundárias, capazes de quebrar o isolamento de muitas das nossas aldeias e derrubar o muro que nos separava da Europa.
E o país mudou!
Mudou mais em 40 anos de Revolução do que em séculos de História.
Agora até podemos discordar uns dos outros, dos nossos chefes ou mesmo dos governantes, sem que a sombra da PIDE e o lápis azul da censura nos encaminhe para parte incerta.

Comemorar abril é enaltecer a Paz, a Liberdade, a Igualdade entre homem e mulher.
Comemorar abril é honrarmos a coragem dos «Capitães» que depositaram em nós estes valiosos tesouros.

Uma palavra muito especial para o Poder Local, sublime legado dessa alvorada de abril, que apesar dos erros (e quem não erra…), tem trabalhado arduamente na satisfação plena das necessidades das pessoas, nomeadamente aquelas que ainda resistem no chamado «mundo rural».
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«Viver Casteleiro», opinião de Joaquim Luís Gouveia

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