Memórias sobre o Concelho do Sabugal (71)

:: :: SABUGAL (5) – A Vila extra-muros :: :: O livro «Terras de Riba-Côa – Memórias sobre o Concelho do Sabugal», escrito há mais de um século por Joaquim Manuel Correia, é a grande monografia do concelho. A obra fala-nos da história, do património, dos usos e dos costumes das nossas terras, pelo que decidimos reproduzir a caracterização de cada uma das aldeias nos finais do século XIX, altura em que o autor escreveu as «Memórias».

O Sabugal antigo em dia de neve

O Sabugal antigo em dia de neve

Depois deste protesto contra o vandalismo e incúria que originaram a destruição ou ruína de obras respeitáveis e monumentais, deixemos a antiga vila com a notável cidadela e passemos ao resto da povoação, à vila extra-muros.
O povo chama «vila» somente à parte antiga, sendo certo que ambas são antiquíssimas, como pode facilmente convencer-se quem examinar alguns edifícios. O ter existido uma freguesia com o nome de Santa Maria Madalena, cujo templo foi demolido há longos anos, sendo provavelmente aproveitados os materiais para a construção da igreja da Misericórdia, seria já poderoso argumento para demonstrar que extra-muros existe uma povoação desde tempos imemoriais.
E que ao sítio onde existia a igreja demolida chegava a povoação e que esta tinha certa importância, depreende-se do facto de para ali convergirem dois caminhos, um deles profundo, especialmente no sítio de S. Domingos, onde existe uma grande trincheira, que não só revela antiguidade, mas a preferência que o povo tinha em ir na direcção da Madalena.
Objectar-se-ia que ia por ali o povo para passar o Côa, ao fundo da quelha da Atafona mas a isso responderemos que com mais facilidade o passaria na ponte.
Dir-se-há também que existe outro caminho fundo dos lados de Malcata e que por isso a existência do outro atesta a antiguidade da freguesia da Madalena. Ora tanto um como o outro provam a antiguidade das duas povoações, cuja existência a tradição oral e escrita confirmaram há muito.
A própria igreja da Misericórdia, que é muito antiga e onde, como dissemos, foi aproveitado o material da demolida, talvez há muito tempo em ruínas, confirma a longa antiguidade da primeira.
Certo é que não temos dados demonstrativos da época da demolição de uma e edificação da outra.
Nos muros que contornam a propriedade onde a igreja existia abundam ainda pedras, que revelam terem feito parte dum edifício, especialmente aquelas onde está insculpida a cruz de Cristo. No Sabugal e num quintal contíguo ao largo da fonte existe uma pia de pedra, grés, ou granito fino, que dizem ter vindo da Madalena, e que evidentemente foi sepultura, tendo a configuração das que se encontram nos rochedos de Sortelha, Aldeia de Santo António e Ruivós.
Perto do local onde estava a igreja da Madalena existe, como noutra parte referimos, uma elevação de terreno, que indica ter ali existido algum reduto, castro ou obra de tempos remotos. Uma exploração no local está naturalmente indicada.
A pequena distância do sítio da Madalena existiam ainda há poucos anos ruínas da capela ou ermida de S. Domingos.
Ali vimos a inscrição seguinte:
REEDIFICADA EM 1640 A CUSTA DA VII.LA
Essas ruínas desapareceram há anos.

Igreja da Misericórdia

Quase na extremidade nordeste da vila existe a igreja da Misericórdia, templo característico, de pórtico romano, com modilhões semelhantes aos da Misericórdia de Alfaiates.
Esta igreja foi restaurada em 1678, como se vê duma inscrição aberta na ridícula porta duma varanda, aberta então para iluminar o coro.
Vimos ali imagens do Senhor dos Passos e outras, sendo apenas digna de menção a de Santa Isabel.
Do lado exterior da parede do norte vê-se embutida urna pedra com aparência de lápide tumular, tendo nas cabeceiras urna cruz de Malta em relevo, dentro dum círculo aberto na pedra, sendo urna muito maior do que a outra. Entre os dois círculos onde existem essas cruzes, e longitudinalmente, existe um sulco, que parece indicar a medida antiga. Outros sulcos formam um quadrilátero onde há quatro pequenas esferas indicadas por sulcos e uns simples ornatos. Ao lado da cruz maior vê-se um sulco em ziguezague e mais dois direitos, que indicam medidas antigas. A pedra é semelhante a uma que existe embutida na porta ocidental de Sortelha. Na lápide existem caracteres insculpidos, cujo calco fiz mas se me extraviou.
Pelo exposto parece- me que se não trata de lápide tumular.
O púlpito é semelhante ao de Aguas Belas e Lomba dos Palheiros, assente sobre uma coluna de singelo capitel, de granito corno os parapeitos. O capitel, coluna e modilhões da igreja foram provavelmente trazidos do sítio da Madalena.
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A antiga irmandade da Misericórdia ocorria às despesas do culto, conservação da igreja e dum pequeno albergue, cujo edifício era, não diremos modesto, mas miserável, como as pessoas que ali se acolhiam.
As verbas de 30.000 reis e 10.000 reis figuravam nos orçamentos para despesas do albergue e esmolas!
O rendimento proveniente de foros capitais mutuados, Inscrições e anuais, era de 421$700 reis, sendo despendidos 211$070 reis em actos de beneficência.
Vê-se que era das irmandades mais pobres do distrito, cujo rendimento era de 12.126$830 reis e a despesa de 7.594$140 reis.

Igreja de S. João
É a matriz da única freguesia da vila, templo modesto, de singela arquitectura, e uma s6 nave, como as de Santa Maria e Misericórdia. Os altares são simples, as imagens toscas e algumas, como a do Espírito Santo, ridículas e indignas dum templo. Devemos exceptuar as esculturas da Senhora das Dores e a de S. João, orago da freguesia, que são muito regulares.
Ao lado direito e contígua à igreja ergue-se uma torre de quatro sineiras ou ventanas, no alto da qual as cegonhas costumam fazer ninho. São dignos de menção o pálio e paramentos de seda da Índia, bordados a ouro e oferecidos pelo falecido Manuel Gonçalves da Silva, mais conhecido pelo «Lameiras» assim como a imagem de S. João, em cumprimento dum voto, que fizera no alto mar, quando ao regressar da Índia o navio foi assaltado por medonha tempestade, que lhe devorou toda a fortuna, que à custa de tanto trabalho alcançara (1).
Perdeu tudo mas salvou a vida; e voltando à Índia, onde estava muito acreditado, em poucos anos adquiriu nova fortuna com trabalho e proceder honesto. Na volta da Índia veio à sua terra natal, entregando à igreja tão valioso donativo. Este sabugalense é um grande exemplo de honradez e trabalho. Era filho de José Pinharanda e de Maria Lameiras. Saiu do Sabugal em companhia dum juiz de direito que dali fora para Arganil; depois partiu para Macau, onde se dedicou à vida comercial. Tanto de Arganil como de Macau sempre enviou à mãe dinheiro e vários géneros de que ela carecia, começando pela modesta quantia de 1$200 reis.
No Sabugal foi recebido festivamente ao regressar. Era filho dele o infeliz Dr. Manuel José da Silva, que em 1893 foi cobarde e barbaramente assassinado em sua casa, em Lisboa, pelo Mestre Lobo, cujo crime tanto impressionou a população da capital, já pela qualidade da vítima, já pelas circunstâncias em que foi praticado. O criminoso, a quem foi aplicada a maior pena da escala penal, faleceu quase um ano depois na Penitenciária de Lisboa.
Dum livro existente no arquivo da Câmara, de que adiante nos ocuparemos, e que servia para «nele se lavrarem os termos de juramento aos juizes e officiaes mecânicos da villa, copio a fls. 1: «Termo de juramento dado a juíza do officio de padeira desta uilla e seu termo Maria Gonçalves Lameiras> dado pelo juiz de fora Dr. António Manuel da Fonseca Abreu Castelo Branco, sendo escrivão António Eusébio Pereira. Na data está tão pouco legível o penúltimo algarismo que não sabemos se o termo foi lavrado em 1826, se antes ou depois, sendo provável que não fosse antes mas sim muito depois, visto que fora prestado o juramento perante o último juiz de fora que houve no Sabugal.
Esta Maria Gonçalves Lameiras, juíza das padeiras da vila e termo, era a mãe do ilustre e benemérito sabugalense de quem vimos falando, o qual faleceu em Lisboa, onde residia. Termina-se esta notícia relativa à abadia de S. João, dizendo que era das mais rendosas do concelho, tendo 200$000 reis de côngrua e 117$000 reis do passal ou rendimentos de bens próprios da igreja, além do pé do altar.
O passal compunha-se dos seguintes bens: coito da Paan; lameiro e tapada do Judeu; chão e tapada dos Amiais; foro e chão à Ribeira, limite de Santo António; chão e lameiro do A velar, em Vila Boa; chão das Cotes- mas, na Torre; chão às Travessas; chão de S. Domingos e um palheiro, no Sabugal; foros de prédios no Souto; uma tapada na Ruvina; terras do Rodeio em Rendo e terras nas Quintas de S. Bartolomeu.
O pé do altar consistia no seguinte:
Casamentos 500 reis; baptizados 500 reis; enterramentos 240 reis; acompanhamentos 1$700 reis; bens de alma desde 2$500 a 33$000 reis, conforme as fortunas; responsos 20 reis; ofertório 2$700 reis; certidões e atestados 240 reis.
O pároco era apresentado antigamente pelo Bispo da Guarda, assim como o da extinta abadia de Santa Maria do Castelo, os quais, bem como os párocos de Rendo e Quadrazais, faziam parte do cabido de Pinhel, cujo bispado foi extinto há muitos anos, sendo o último vigário geral o que depois foi Patriarca de Lisboa, D. António Mendes Belo.
Outrora o Sabugal era sede do arciprestado, taxado em dez libras. Unida à igreja de S. João havia uma capelania perpétua taxada em 23$220 reis.
Extra-muros há na vila um bairro moderno denominado de S. Sebastião, edificado quase todo depois da construção da estrada que liga o Sabugal a Rendo e Vila Boa. Neste bairro existia a ermida de S. Domingos, de que já falámos, e a de S. Sebastião, que dá o nome ao bairro, ambas já desaparecidas.
Tinha esta última na frente um bom alpendre, de que apenas restavam as fortes colunas de granito quando saímos do Sabugal. A ermida está num plano superior à estrada, havendo ali um muro de suporte e duas escadarias que dão acesso ao Largo de S. Sebastião. A ermida, apesar de muito arruinada, ainda estava aberta ao culto, há pouco tempo, celebrando-se ali uma festa no dia do patrono, ouvindo-se então na véspera O” pequeno sino, especialmente durante a procissão.
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Nota 1 – O valor da oferta feita por Manuel da Silva foi recentemente avaliado em 100 contos da moeda actual, segundo informação do Dr. Carlos Frazão, Presidente da Câmara Municipal do Sabugal.
Do mesmo dedicado sabugalense recebemos a cópia da seguinte carta existente no ar- quivo da igreja do Sabugal:
Ill.mo e Ex.mo Sr. Manoel Lourenço Ferreira
D. Abbade da Villa do Sabugal
Lisboa 22 de Agosto de 1849
Mui estimado Amº e Sr.
Nesta data remetto ao Nosso Amº e Sr. C. M. de Sá Azevedo, a Sua Carta de Mercê do seu officio de Escr.vam do Juis de Pás desse Julgado, que importou na quantia de vinte e sete mil tresentos e noventa, 27$390 reis, em metal sonante de que abatido de .Sua conta de Rs. 19$970 que V. S.a mandou pôr á disposição do Lº Sr. Cassiano, por sua carta de 26 de Julho p. po ficam e restando sette mil e quatro centos e vinte 7420 reis, VSª. será abonado de receber delle e deixalos ficar em Seu poder á minha ordem de que terá abondade de me avisar.
Permitame VSª que lhe lembre que não tendo eu athegora recebido reposta á minha carta com data. de 20 de Junho deste anno, que lhe deriji, e aos Membros da Junta de Parochia da Igreja de S. João Baptista dessa Villa, juntamente com os Paramentos de que fis offerta á d. Igreja, que eu agora lhe pesso e que venha acompanhada com o asento que tho- marao do donativo que eu lhes fis, no que me darão mais uma prova, alem de mtas que ahi me derao, apreço que fiserão dI! minha offerta.
Tenha abondade de me recomendar ao Sr. Seu Pai e a Todos os mais dessa Sua casa. Sou
DE V. S.ª
Am.o V.or e ob.do Servo
Manoel Gonçalves da Silva

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Joaquim Manuel Correia

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