Memórias sobre o Concelho do Sabugal (70)

:: :: SABUGAL (4) – A Torre de Menagem :: :: O livro «Terras de Riba-Côa – Memórias sobre o Concelho do Sabugal», escrito há mais de um século por Joaquim Manuel Correia, é a grande monografia do concelho. A obra fala-nos da história, do património, dos usos e dos costumes das nossas terras, pelo que decidimos reproduzir a caracterização de cada uma das aldeias nos finais do século XIX, altura em que o autor escreveu as «Memórias».

A gárgula onde se dependurou o Basílio das Quintas

A gárgula onde se dependurou o Basílio das Quintas

É incontestavelmente das mais fortes e notáveis do país a torre de menagem do castelo do Sabugal, não só pela sua forma, de secção pentagonal, mas sobretudo pela sua solidez e gigantescas proporções, tendo mais de 28 metros de altura e 41 de perímetro, segundo temos ouvido dizer.
Fica encostada à muralha oriental que forma um dos lados da cidadela. Nesta muralha existe uma elevada e estreita escadaria de cantaria, igual às da muralha do norte e do sul, e por ela se sobe ao cimo e dali se passa para o primeiro andar da torre, entrando pelo portal que deita para a muralha e que está alguns decímetros acima desta. Até ao primeiro andar a torre é massiça, ao contrário do que julgavam alguns sonhadores de tesouros, que acreditavam ter ela um grande vão onde havia muitas riquezas, comunicando esse imaginário rés-do-chão com o rio Côa. Tudo isso não passa de fantasia popular. O primeiro andar comunica por meio de uma escada em caracol com o segundo, que assenta sobre a abóbada que forma o tecto do primeiro. Deste segundo andar passava-se ao terceiro que era de madeira, assim como a escada, há muito desaparecida, como ele, podendo por isso ver-se do pavimento do segundo a abóbada do terceiro em que assenta o eirado da torre. Os andares tinham largas aberturas para a luz e terminavam em seteiras no exterior, mas o terceiro tinha comunicação com cinco fortes e características varandas de cantaria, a que o povo chama arquetas, de altos parapeitos, especialmente em frente dos respectivos portais, estando abertos na torre e na soleira os buracos por onde podiam lançar água quente ou pêz derretido sobre os assaltantes. Estas va- randas serviam ao mesmo tempo para darem luz ao terceiro andar e para se vigiar por elas o inimigo e impedir a entrada.
Por uma abertura praticada na última abóbada passava-se ao vasto eirado da torre, cercado de altos parapeitos ameados, onde se notam já mutilações produzidas por faíscas eléctricas. Do eirado domina-se toda a cidadela, com seus muros, adarves, barbacãs, torreões e guaritas, num vastíssimo e variado horizonte, de poucos conhecido por ser de difícil acesso, em razão de não haver escada que ligue ao segundo andar. Numa das abóbadas vê-se o escudo das quinas, como se afirma na Monarchia Lusitana.
As águas pluviais que caíam no eirado saíam por uma gárgula que deita para a face do sul.
Vem a propósito narrar um facto, que muito deu que falar, praticado há muitos anos, e que tornou vulgar o nome do Basílio das Quintas de S. Bartolomeu, e que ele confirmava sempre que a tal respeito o interpelavam.
Era o Basílio um homem popular, habilidoso, mas sobretudo arrojado e temerário. Sendo apaixonado pela música, lembrou-se de fazer uma rabeca com que acordava e arreliava os vizinhos a altas horas da noite. Um dia, ao amanhecer, foi encontrado numa rua sem dar acordo de si, tendo um grande ferimento no frontal, que estava fracturado. Nunca disse quem o ferira, talvez nem mesmo o soubesse, mas também nunca se viu que um homem resistisse a tão grave ferimento que lhe deixou um grande orifício, que nós observámos, de grande profundidade.
Era bastante este facto para o tornar famoso na aldeia, mas um outro o tornou ainda mais conhecido.
Num dos muitos dias em que ele andava alegre, dominado pelo vinho, que era a sua paixão, subiu ao eirado da torre, trepou às ameias, dali desceu à gárgula, e, segurando-se com as pernas em volta desta e com a cabeça virada para o abismo, começou a tocar o fandango na sua famosa rabeca!
Os sons desta foram ouvidos pelos vizinhos do castelo, que a custo conseguiram saber de onde partiam, incrível como era que o temerário Basílio ali estivesse. Ficaram horrorizados quando o viram tocando pendurado da gárgula ou cachorro, como lhe chamam ali, e ninguém julgava que ele voltasse às Quintas; mas não tardou que, revestido do mais extraordinário sangue-frio, voltasse às ameias, ao eirado e descesse até ao cemitério, e dali para a sua aldeia, depois de ouvir as mais acres censuras por tamanha temeridade, que produziu calafrios em quem a presenciou e ouve contar.
O Basílio, muitos anos depois disto, apareceu morto numa rua das Quintas de S. Bartolomeu.
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Completando a notícia a respeito da antiga vila do Sabugal, intra-muros, digamos algumas palavras acerca da torre chamada actualmente do relógio, e que se tornou célebre por causa do notável poeta e capitão Brás Garcia de Mascarenhas.
A torre fica perto da praça, encostada à velha muralha que cercava a vila, onde existe a tosca escadaria que lhe dá acesso. Fica a leste da antiga povoação, junto de uma das entradas desta, sobrepujando o arco o escudo das quinas encimado pela coroa real, entre duas esferas. Em frente desta porta dizem ter existido outra, aberta noutra muralha.
A torre é elevada, e sobre ela foi alçado um campanário de uma só ventana, onde se vê o sino do relógio, que há muitos anos ali existia e que foi substituído por outro em 1906.
Os andares da torre eram de madeira, de que não restam vestígios, tendo um deles, o superior, acesso pela porta aberta na face ocidental, um pouco acima do nível da muralha, onde existe a escadaria de que já falámos.
O rés-do-chão tem acesso por uma pequena porta em arco, tão baixa que uma criança de 10 anos terá de se curvar para passar por ela.
Diz-se que nesta torre esteve preso muito tempo o autor do Viriato Trágico, Brás Garcia de Mascarenhas, natural da vila de Avô e chefe da Companhia dos Leões, fundada em Pinhel, e que por altos serviços presta- dos à pátria, fora nomeado governador da praça de Alfaiates, que fica a 18 quilómetros pouco mais ou menos do Sabugal, perto da fronteira de Espanha.
Sucedendo ter entrado em Portugal um troço de cavalaria e gente armada, e não obstante ter ordem do governador da província, Sancho Manuel, para não sair da praça, certo é que, ou por conselho ou ordem de Fernão Teles, governador do distrito, ou por impulso natural, perseguiu o inimigo e tomou os gados que este roubara nas povoações portuguesas da raia e levava para o seu país.
Despeitado por tão glorioso feito, não perdeu o referido governador ensejo de o perseguir e castigar, envolvendo-o numa intriga vil e acusando-o injustamente de ter correspondência com o governador de uma praça espanhola, de apelido Caracau, ou Macacau, segundo outros, e de assim trair a sua pátria.
Não lhe valeram protestos, e em breve era enclausurado na torre de que nos estamos ocupando, por ordem de Sancho Manuel, onde esteve incomunicável. O engenhoso poeta julgou-se perdido, e teria morrido de fome e desgosto, se uma ideia luminosa lhe não viesse à mente atribulada pelo procedimento do seu perseguidor.
Pediu um livro para se entreter na triste, medonha clausura, e foi-lhe enviado um FIos-Sanctoram – por ser o que mais convinha a quem estava em tão crítica situação e tão perto da morte, pensaram os seus algozes, mal suspeitando o engenhoso intento do valente capitão.
Apenas de posse do precioso livro, não se entreteve a ler a vida dos santos varões, que a igreja canonizara, mas a cortar as margens das folhas do livro, onde depois de unidas, formou uma grande tira de papel, na qual compôs uma carta em verso aproveitando palavras do livro e cortando letras para formar outras que ia colando no papel com massa feita com o pão que lhe davam.
Concluída tão engenhosa quanto original epístola, conseguiu entregá-la a uma sentinela, também de Avô, lançando-lha por uma seteira da torre, em cruz, como as da cidadela, sendo enviada ao irmão do poeta.
Reinava então em Portugal D. João IV, a quem quarenta homens, que foram quarenta heróis, levaram a ser rei.
El rei recebeu a carta, e ficou tão surpreendido e admirado pela engenhosa lembrança e defesa feita pelo poeta, que ordenou ao seu secretário de Estado, Francisco de Lucena, que mandasse vir o preso à sua presença.
Chegado à presença de el-rei, este ouviu-o atentamente; e reconhecendo, pelo que lera na carta e de viva voz lhe disse, que fora vítima da mais feroz injustiça, não só o condecorou com o hábito de Avis, como também o restituíu ao governo da praça de Alfaiates, nomeando-o, além disso, inspector de cavalaria.
Pena é que tal carta não chegasse a nossos dias, pois seria um documento valioso, não só para demonstrar o talento do poeta, mas também para evidenciar como naquela época se praticavam tão cruéis injustiças.
Infelizmente, porém, nem cópia jamais logramos ver desta carta, cuja existência é atestada pela tradição oral no Sabugal e confirmada também pela tradição escrita.
Nada há mesmo que possa pôr em dúvida este episódio da vida do poeta, tanto mais verosímil quanto é certo ter existido o facto que lhe deu origem.
Talvez ainda venha a esclarecer-se mais o assunto, de modo que não fique com foros de lenda este episódio, como alguns cépticos e respeitáveis críticos pretendem considerá-lo, sem darem valor à tradição oral e escrita.
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Anos depois de escrevermos as linhas precedentes tivemos a desagradável notícia de que desabara um lanço de muralha e de que fora demolida a antiquíssima igreja de Santa Maria do Castelo.
A notícia do desabamento do lanço da muralha vimo-la no Diário de Notícias de 1 de Julho de 1912, nestes termos lacónicos, mas expressivos:
«Castelo do Sabugal. Ameaça ruína éste precioso monumento
Sabugal, 1 – No inverno passado desabou um lanço da muralha que circunda o castelo desta vila, sendo para recear que num futuro mais ou menos próximo sumptuoso monumento venha a sofrer qualquer prejuízo se não se adoptarem as providências convenientes. Chamamos a atenção do ilustrado Conselho dos Monumentos Nacionais para este importante assunto».
A pouco e pouco há-de ir desabando o resto, apesar de o forte, vetusto e venerando castelo, que pelo insigne poeta do D. Jaime foi dedicadamente cantado, estar classificado como monumento nacional.
Desabou já o lindo e curioso portal que dava acesso à cidadela e sobre cuja padieira se destacavam as armas do tempo da restauração.
Embora a igreja não representasse um espécime notável de arquitectura mediévica, era digna de ser conservada pela sua antiguidade, ali, em frente da torre de menagem, resistindo como esta às maiores intempéries. Já em 132l figurava na história da vila, pois fora taxada em 10 libras, sendo a de S. Tiago em 18, a de Santa Maria Madalena com a capela (tal- vez a de S. Domingos) em 30, a de S. Pedro em 20 e a de S. João em 15. Em épocas sucessivas desapareceram as antigas igrejas das invocações da Madalena, S. Pedro e S. Tiago, demolidas por quem tinha obrigação de as conservar. O mais que ainda existe está condenado a desaparecer também, se sérias providências não forem adoptadas. Aqui fica exarado o brado da nossa indignação contra o vandalismo duns e a criminosa incúria doutros.
O pelourinho, que existia perto do edifício do tribunal, em frente do arco da vila, também há muitos anos fora apeado, sendo de louvar a iniciativa do malogrado magistrado e artista Dr. Vale de Sousa, que, à custa de trabalho e investigações a que procedeu, conseguiu reconstituí 10 numa esplêndida aguarela em 1907, como lemos no Diário de Notícias de 23 de Julho desse ano. O desenho vem publicado na História de Portugal de Pinheiro Chagas (edição ilustrada).
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Joaquim Manuel Correia

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