Memórias sobre o Concelho do Sabugal (69)

:: :: SABUGAL (3) – O castelo :: :: O livro «Terras de Riba-Côa – Memórias sobre o Concelho do Sabugal», escrito há mais de um século por Joaquim Manuel Correia, é a grande monografia do concelho. A obra fala-nos da história, do património, dos usos e dos costumes das nossas terras, pelo que decidimos reproduzir a caracterização de cada uma das aldeias nos finais do século XIX, altura em que o autor escreveu as «Memórias».

Castelo do Sabugal

Castelo do Sabugal

Se tem havido dúvidas a respeito da origem e data rigorosa da fundação da antiga vila, dúvidas existem também a respeito da época em que foi edificado o castelo do Sabugal. (Vid. O Arch. Port., XI, 62). Tanto a tradição escrita corno a oral nos asseguram que fora edificado por D. Deniz, e a tal respeito se lê na Monarchia Lusitana que «acrescentou (D. Deniz) com maior perfeição todas as povoações, cercas e castellos e no Sabugal fez um castello com urna torre de cinco quinas, corno a de Coimbra, e no fecho da mais alta abobada está o escudo das armas reaes». A tradição escrita é confirmada pela oral, e até por forma poética, na seguinte quadra:
Eu el-rei D. Deniz
Ponte, fonte e castel fiz;
E quem dinheiro tiver
Fará o que quizer.

Esta quadra, que tem, corno havemos de ver, uma variante, é conhecida de toda a gente do concelho do Sabugal e limítrofes.
O notável crítico e distinto literato Sr. Ramalho Ortigão, na sua interessantíssima obra Banhos de Caldas e águas minerais, p. 69, dá-nos a variante daquela quadra popular, precedendo-a das seguintes considerações: «São lindíssimas as paisagens nas afluências de outros rios, corno o Tua, o Tâmega e o Côa, sobre o qual existe urna ponte do tempo de D. Diniz com o seguinte letreiro, que exprime de um modo curiosamente democrático urna das prerrogativas da coroa.
Esta fez el-rei D. Diniz
Que fez tudo quanto quis
Que quem dinheiro tiver
Fará o que quizer.

Esta variante, certamente referida ao castelo do Sabugal e que se encontra nas antigas corografias, apenas se refere à ponte, ao contrário da primeira, que explica a origem do castelo, ponte e fonte do Sabugal.
Por mais esforços que empregámos nunca conseguimos encontrar o famoso letreiro, que a tradição popular assevera existir na ponte e alguns escritores, mal informados, na abóbada da torre de menagem. O ilustre escritor e distinto coronel do nosso exército Sr. Abel Acácio sustentou há anos, em artigo publicado no Occidente, que o castelo do Sabugal fora edificado antes de Deniz, dizendo, a propósito desta .quadra, que ela destoa da ortografia do século XIII e que por isso não deve ter importância.
Antes de dizermos o que a tal respeito nos ocorre, seja-nos lícito transcrever daquela notável revista parte do referido artigo: A disposição do local daquela importante obra de defesa induz-nos a recuar, para lá de D. Deniz. a data da sua construção. Com efeito, se o castello tivesse sido edificado pelo monarca povoador, parecia natural que o seu destino seria a defesa da povoação contra os ataques leoneses e sarracenos, e portanto seria mandado levantar a leste da povoação, entre esta e a fronteira. Ora vê-se precisamente o contrario, isto é, o castello e a torre de menagem seguem-se a oeste da vila, tendo por fosso natural o Côa, olhando portanto o interior do pais, e como sendo atalaia de qualquer ataque das bandas da Guarda» (Occidente, nº 279).
Como se vê, o argumento capital em que este ilustre escritor fundamenta a sua opinião consiste no facto de ter sido edificado o castelo a oeste da antiga povoação, devendo ter sido a leste, se porventura fosse edificado no tempo de D. Deniz, para assim melhor defender aquela, pelas razões expostas neste artigo.
Temos o maior respeito a tão autorizada opinião; parece-nos, todavia, que ela não destrói a opinião, há longos anos firmada a tal propósito.
Não contestávamos que ficasse o castelo melhor a leste que a oeste da vila, se porventura a raia de Leão ficasse mais próxima e deste lado houvesse melhor ponto estratégico; mas, ficando a raia a mais de 15 quilómetros e a antiga vila havia muito tempo cercada de fortíssimas muralhas, que já não podiam cingir o povoado mais moderno, apesar de constar que houvera outra muralha, parece-nos que grave erro teria cometido D. Deniz edificando o castelo noutro ponto, sabendo-se que dali se domina um vastíssimo horizonte, que abrange terras de Leão; sobretudo do alto da torre de menagem, edificada no ponto mais elevado do outeiro.
As muralhas, como era natural, serviam para a defesa da povoação; mas esta alargou-se e delas se desprenderam, provavelmente já no tempo d rei, os moradores da vila.
Nestas condições, e na impossibilidade de levantar novas muralhas , à medida que a povoação se dilatava, era natural que D. Deniz não desprezasse o que havia e edificasse o castelo n ponto. Dentro das muralhas da vila, e em caso de aperto no castelo, se acolhiam com seus haveres os moradores, quando os inimigos a atacassem. Talvez as obras não obedecessem aos mais rigorosos preceitos da arte de fortificar, mas qualquer falta que porventura ali possa notar-se, de modo nenhum nos autoriza a concluir que o castelo não tenha sido edificado por ordem do rei Lavrador. Poucos castelos conhecemos tão fortes, e poucas torres de menagem tão elegantes e elevadas como esta de que vimos falando.
Que o castelo não foi edificado na mesma época em que o foram as muralhas de cintura, é fácil verificar-se. Basta comparar às grossas e toscas camadas de cantaria granítica, sem argamassa, da antiga muralha com os muros da cidadela e da torre, para concluirmos que foram edificados em época diferente.
Todas de tosca cantaria, as antigas muralhas diferem das da cidadela em que estas, exceptuando os cunhais, portais, varandas, frestas, abóbadas, escadarias e ameias, como vulgarmente se chama aos dentículos ou cubos que coroam os muros e a torre, são de alvenaria, ligada com a mais forte argamassa.
Onde melhor se observa a diferença de estilo e a solidez de construção é do lado ocidental, onde, sobre as grossas, primitivas e denegridas camadas graníticas da muralha antiga, assentaram o elevado muro que forma um dos lados do pentágono.
Deste mesmo lado e na antiga muralha foi aberta uma porta ogival em época que não podemos determinar com rigor, mas que presumimos ser a da edificação do castelo, atendendo a que no castelo e torre existem portas iguais.
A tudo isto devemos ainda acrescentar que na face leste da torre de menagem está insculpido o escudo com as quinas numa pedra que serve de verga à balesteira inferior, o que grandemente concorre para diminuir a dúvida, porque não é admissível que ali fosse embutido por D. Deniz ou outro monarca português anterior a ele, já pelo modo como está assente, já porque, embora antes deste reinado os portugueses ali tivessem domínio, este, se existiu, foi de curta duração e dele não restam vestígios, como vimos, quando nos ocupámos das terras de Riba-Côa.
Nem o facto de a quadra destoar da ortografia do século XIII deve causar embaraço, porque não tendo aparecido o letreiro não se sabe em que ortografia estava insculpido. Mas por não ter aparecido não podemos concluir que não tenha existido, na ponte ou noutra qualquer parte.
Ou a quadra tenha foros de lenda ou existisse realmente em parte hoje desconhecida, certo é que o sentido dela se adapta perfeitamente à tradição escrita e oral, e não repugna acreditar que ela existisse, importando pouco o facto de destoar da ortografia do século XIII, porque, qual- quer que fosse a origem dela, era natural que a fossem adaptando ao estilo das épocas posteriores. As duas variantes que apresentámos são mesmo a prova disso.
Por tudo isto parece-nos não restar dúvida de que o castelo e torre de menagem foram edificados por ordem de D. Deniz, que várias vezes esteve em Riba-Côa, onde radicou o domínio português, e por isso tinha necessidade incontestável de fortificar as vilas, sobretudo a do Sabugal, que devia ser a povoação mais importante.
Tal é, segundo o nosso humilde critério, o que nos ocorre dizer a respeito da origem e castelo do Sabugal, consagrado há muito pela poesia popular na seguinte quadra:
Castelo de cinco quinas
Na no há em Portugal
Senão Ó cimo da Coa
Na vila do Sabugal.

De cinco quinas é também a torre da Guarda, a que o povo impropriamente chama castelo; mas não tem a altura nem a elegância da do Sabugal (1).
Nas obras de fortificação do Sabugal há pelo menos três estilos, correspondentes a três épocas distintas.
O primeiro, cuja data não é possível determinar, e pode remontar ao período leonês ou ir mais além, é caracterizado pela forma tosca e singela da construção, como se observa nas velhas muralhas e na parte inferior, a leste da cidadela; o segundo, que julgamos ser do tempo de Deniz, é caracterizado pela solidez e maior perfeição, notando-se mais sobriedade no emprego da cantaria, substituída por alvenaria, ligada com admirável argamassa, dando às muralhas tal solidez que é mais fácil partir que desligar os pedaços de xisto de que são formadas; o terceiro é da época Manuelina, como se nota no portal, onde se erguia a ponte movediça, a nordeste, e perto da torre de menagem, aberta no muro que corria ao longo do fosso e cercava as altas muralhas da cidadela.
Sobre a verga deste portal, ladeando o escudo das quinas, estão em relevo duas esferas, semelhantes às do arco da vila, nome dado ao arco contíguo à torre de vigia, de que havemos de falar, com a diferença de que nesta o escudo é encimado pela coroa real.
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Poucas serão as vilas do país, que ofereçam aos visitantes curiosos, aos artistas e arqueólogos, tão útil campo de estudo como o Sabugal.
Quem visitar esta antiga vila, há-de sentir-se agradavelmente impressionado, especialmente na primavera, ao contemplar o majestoso, imponente panorama que se lhe oferece à vista ao aproximar-se da velha ponte do Côa.
A vetusta cidadela com suas muralhas e ameias, revestidas de liquen e de hera verdejante, que ali se prende e desenvolve luxuriantemente, com seus toscos e fortes torreões, com a mais bela e majestosa de quantas torres de menagem conhecemos, também coroada de ameias, onde as pombas descansam, e de secção pentagonal, tendo em cada face seteiras para (dois andares e, abertos para o último, portais, que dão acesso a curiosas e características varandas, de altos parapeitos e com orifícios nas soleiras, pelos quais outrora podiam deitar água quente e pêz derretido sobre o inimigo, não pode deixar de produzir no espírito do visitante a mais intensa e agradável impressão.
É realmente formoso esse quadro, que oferece a velha fortaleza, sobretudo do lado sul e poente, em cujas muralhas e torreões se ostentam formosas cobertas de vigorosa hera, que ali vegeta atrevida e altaneira, ornamentando portais e guaritas, torreões, muros e balesteiras de arruinadas barbacãs; é pitoresco variado panorama embelezado pela velha ponte, pela cidadela a mirar-se constantemente no açude com as árvores da íngreme encosta que bordam a estrada, os amieiros das margens do Côa e a piedosa ermidinha do Senhor dos Aflitos, com os esguios ciprestes que a vigiam.
E, para maior interesse e beleza deste quadro, alegres e formosas lavadeiras batem com a roupa nos lavadouros de xisto, ajoelhadas ao pé da água, entoando alegres, suaves canções, em coro com o murmúrio do rio que perto se despenha do açude e se converte em vasto lençol de espuma, perto do moinho, onde as mós ensurdecem o moleiro no seu suplício incessante, de moer o negro centeio e o alvíssimo trigo.
Deixemos, porém, as formosas raparigas e façamos uma rápida e singela descrição da
Cidadela.
Esta é formada por quatro elevadas muralhas, um misto de alvenaria e cantaria de quatro fortes torreões, dois nos ângulos da face ocidental, um no ângulo que une a face do norte com a oriental, perto da torre de menagem, e o quarto quase ao meio da face do sul. Todos estão muito arruinados na parte superior, privados já de ameias e dos portais que davam acesso às largas muralhas que os ligavam (2).
No cimo destas ainda se passa agora, usando de certas precauções, indo junto do estreito e baixo muro ameado e revestido de hera e onde existem muitas seteiras cruciformes onde a hera se prende e enrola em graciosas molduras.
Imponente é também o panorama que do alto destas muralhas, especialmente do lado ocidental, se contempla, observando-se todo o recinto fortificado, hoje convertido em cemitério, lúgubre cidadela dos mortos, cujas campas nos trazem à memoria a lembrança de muitos entes queridos e ilustres filhos desta vila (3).
Excepto na muralha do poente, em todas as outras existem toscas e por vezes perigosas escadarias, desgastadas e polidas por muitas gerações, através de tantos séculos, onde a erva cresce nas fendas da silharia granítica e nos carcomidos degraus.
Mais de um visitante tem parado a meio da ascensão, e até um ilustre juiz, sentindo a vertigem do abismo quando visitava a vetusta e notável fortaleza, teve de descansar e reparar as forças antes de descer.
Em volta destas chamadas muralhas e torreões outras de mais exíguas dimensões existem para defesa do fosso, hoje convertido em hortas e quintais.
Duas são as entradas da cidadela, uma a leste,. próximo da torre, e outra a oeste, ambas defendidas por fortes muros ameados, e munidos de seteiras cruciformes, espécie de baluartes que comunicavam com o fosso.
A entrada principal é a que fica a leste da fortaleza, contígua à torre de menagem, ao norte desta, tendo por cima do portal em arco um pequeno campanário, cuja sineira ou ventana era ao mesmo tempo portal com que da muralha se comunicava com uma varanda, de que só restam vestígios, igual às da torre.
O fortim ou pequeno baluarte, que defendia esta entrada, como que abraça a torre, restando dele ainda os muros ameados e o portal de que noutro ponto falámos, no interior em arco e em cuja verga existem as ar- mas do tempo da restauração. Estava ali a ponte levadiça.
O postigo aberto na muralha do ocidente era a outra entrada da cidadela, tendo em frente outro muro de menores proporções, existindo em cada extremidade uma guarita, havendo ainda perto da que fica do lado do sul, e próximo do torreão, um largo e alto portal, onde se vê o sulco destinado à colocação da tranca da porta.
Entre este muro e a alta muralha da cidadela ficava um grande recinto, cheio agora dos destroços que o vandalismo em toda a parte produz.
Para se. avaliar da solidez da construção deste muro basta dizer que nele foi aberto um grande arco pelos destruidores que por ali têm passado aos milhares e através dos séculos, uns roubando pedra, outros por maus instintos, para assistirem à derrocada, minando os alicerces, deixando o muro num estado de maravilhoso equilíbrio, para que muito concorre a . hera benfeitora.
No recinto da cidadela havia, encostadas à muralha, muitas casas, naturalmente destinadas à guarnição da praça, além da atafona e do poço ou cisterna, há muitos anos entupida.
Nas muralhas ainda se vê sinal de ali assentarem os barrotes e restos do cabouco.
Para rematarmos a notícia a respeito do recinto fortificado podíamos copiar algumas inscrições de lápides sepulcrais, mas apenas vamos copiar parte da que se vê na campa do Dr. João de Campos Pereira Barreto:
De Pinhel a Covalhana,
E de Monforte a Lisboa,
Saiidoso pranto inda mana,
Seu nome honroso inda soa…

Notas:
1
– Também de cinco quinas e mais elegante e alta que a da Guarda é a do Palácio onde em Évora esteve preso o Duque de Bragança por ordem de D. João II.
2 – O Estado Novo restaurou recentemente o castelo, sendo arrancada a hera das muralhas, por pôr em perigo a sua integridade.
3 – Foi construído há anos um cemítério novo para serviço da vila.

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Joaquim Manuel Correia

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