Memórias sobre o Concelho do Sabugal (68)

:: :: SABUGAL (2) – As origens da vila :: :: O livro «Terras de Riba-Côa – Memórias sobre o Concelho do Sabugal», escrito há mais de um século por Joaquim Manuel Correia, é a grande monografia do concelho. A obra fala-nos da história, do património, dos usos e dos costumes das nossas terras, pelo que decidimos reproduzir a caracterização de cada uma das aldeias nos finais do século XIX, altura em que o autor escreveu as «Memórias».

Igreja Matriz do Sabugal - Censos 1758 - Capeia Arraiana

Igreja Matriz do Sabugal

Muito se tem devaneado a respeito da fundação da antiga vila do Sabugal, sem que, infelizmente, se apurasse qual a data verdadeira em que a povoação teve começo. Tem-se dito que foi fundada por Afonso X de Leão em l220, opinião refutada pelo ilustre sabugalense Sr. António José de Carvalho, que entende ter sido reedificada por rei e não fundada, «porque pouco depois, em 1224, Fernando III, de Castela, e seu primo D. Sancho II, de Portugal, ali estiveram para terminarem as contendas entre Portugal e Leão por causa da rainha D. Tareja; e, em quatro anos, não se fundava uma vila com todas as comodidades indispensáveis para receber dois reis» (Rosa da Montanha, p. 200).
Efectivamente Fernando III, filho de Afonso IX, de Leão, e da rainha D. Berenguela ou Berengaria, ali teve, com seu primo, D. Sancho II, uma conferência por causa das filhas de D. Teresa e do referido Afonso IX, que em testamento indicara D. Sancho para lhe suceder no trono.
Já pouco antes D. Berengaria e D. Teresa (I), cujos casamentos com Afonso IX foram anulados, se reuniram em Valença, para decidirem dos interesses de seus filhos; mas a primeira esposa cedeu à segunda a troca da pensão anual de trinta mil morabitinos, para as filhas D. Sancha e D. Dulce, isto em fins do ano de 1230 ou começo de 1231. D. Sancho, o infeliz ulteriormente destronado, não conseguiu para aquelas, vantagens maiores, e apenas cuidou de reaver a praça de Chaves, que estava em poder de Leão, e garantir a combinação feita pelas duas rainhas, ficando os dois reis aliados. De passagem diremos que D. Teresa casara com Afonso IX em 1191, e em 1196 era anulado o casamento por Celestino III.
Afonso casou depois com D. Berenguela, princesa castelhana, mas este casamento foi também anulado, sendo os infelizes esposos absolvidos por comissão do papa Inocêncio III, pelos bispos de Toledo, Santiago, Palência e Zamora, em 1204.
Diz-se que o dito Fernando III, o Santo, dera foral à vila, mas tudo nos leva a crer que a esse tempo já devia ser povoação importante e que ali demoraram os Árabes e Romanos, ligados aos primitivos habitantes. Talvez algum castro ou restos do domínio romano atraíssem as atenções e novos povoadores. Mas quem foram estes e quando foi edificada a vila?
Querem alguns que a vila do Sabugal fosse edificada pelos moradores do Sabugal Velho, de que noutro lugar nos ocupamos e que fica próximo de Aldeia Velha, num elevado outeiro onde existem ruínas de uma povoação muito antiga (vid. O Arch. Port., X, pág. 199 e sgs.); mas julgamos que as duas povoações coexistiram desde longos tempos, embora possa crer-se que os moradores do Sabugal Velho abandonassem este e fossem para outro. E nada obsta a crer que os dois existiram na mesma época e que tivessem igual nome.
Tudo isto porém é problemático.
Sabugal quer dizer «lugar com sabugueiros», e havendo tantos no Sabugal não era mister que lhe viesse o nome de outra povoação. Não é sequer admissível a hipótese de ter sido fundada a vila por Afonso X, afirmando alguns escritores que já seu pai, Fernando o Santo, lhe dera foral, o que indica ser a esse tempo povoação importante, dando-lhe privilégios grandes para facilitar mais o seu desenvolvimento; e o facto de receber ali o rei de Portugal, D. Sancho 11, seria já a prova da importância da vila. É certo que na Torre do Tombo não existe esse foral, nem em Franklin nem nos Portugalia Monumenta Historica (2). O Sabugal Velho parece ter sido povoação de tempos mui remotos, e iguais indícios há a respeito da vila de que nos estamos ocupando.
Em 1897 o falecido Bernardo Rasteiro, quando arroteava um chão perto do outeiro da fonte, achou uma lápide sepulcral, que nos cedeu e depois oferecemos ao Museu Etnológico em 1904.
A lápide tem na cabeceira uma estrela de cinco raios, em baixo relevo, e em seguida a seguinte inscrição:
AMB ATVS MALG EINI[F] HSE
Cremos que deve ler-se: Ambatus, filho de Malgeinus, está aqui sepultado.
A lápide tem as costas abauladas e a cabeceira é curva. Tem três quadriláteros, delimitados por sulcos abertos no granito, um deles mutilado e que devia ser igual ao da cabeceira; mas só este tinha aberta uma estrela cujos raios avultam num círculo cavado na pedra.
Já numa inscrição publicada a p. 78 de O Archeologo Português, vimos o nome Ambatus; e também noutra inscrição, publicada no vol. IX do Portugal Antigo e Moderno, aparece Ambatus, V. s.a do Campo.
Várias vezes ouvimos dizer no Sabugal que ali tinham aparecido sepulturas feitas com tijolos e argamassa, mas delas não restam indícios actualmente. No quintal do falecido escrivão do juízo de direito da Comarca do Sabugal, Francisco de Almeida Carvalho, apareceu em 1904 um selo de cobre onde se lê «sêllo do concelho de Buena Ventura», o qual oferecemos ao Museu em nome do ilustre extinto. Moedas do reinado de Afonso IX, de Leão, têm aparecido algumas de prata e cobre, e de crer é que mais apareçam ainda, assim como lápides e inscrições que possam contribuir para o esclarecimento do assunto.
Quando D. Deniz tomou posse do Sabugal, era a vila uma povoação importante, por certo a mais notável de Riba-Côa, e já a esse tempo se tinha estendido pela planície até à Madalena, em cujo sítio existem ainda fazendo parte dos muros dos quintais, algumas pedras com a cruz de Cristo. Não é provável que, sendo a povoação fundada, como alguns dizem, por Afonso X, o sábio rei de Leão, tivesse florescido tanto em tão curto espaço de tempo, corno o que durou desde então até D. Deniz.
A falta de documentos e provas irrecusáveis deixa-nos em simples conjecturas, que outros mais esclarecidos e estudiosos poderão talvez desfazer; mas tais conjecturas não podem chegar ao ponto de admitirmos a hipótese, pouco verosímil, da fundação da vila no tempo de Afonso X, nem mesmo de seu pai Fernando 111, de Leão, pelas razões atrás expostas.

Notas:
1
– Lafuente celebra a formosura desta filha de Sancho I, e Florez (Reinas Catholicas, T. f) dela diz que carrebataba Ia attención de cuantos Ia miraban, y que a sus gracias naturales unia un juicio é una discrecion superiores a sua edad, con unos dotes e prendas sobre- naturales en el alma que Ias hacian parecer una imagen pintada por mano deI soberano artífice para tener en ella sus delicias~. (Lafuente, Historia de Espana, t. ill, p. 338).
2 – O sr. Pedro A. de Azevedo,em resposta ao meu amigo Dr. Felix Alves Perdiz que na Torre do Tombo não há noticia do foral dado pelo rei de Leão ao Sabugal.

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Joaquim Manuel Correia

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