Memórias sobre o Concelho do Sabugal (67)

:: :: SABUGAL (1) – A antiga vila :: :: O livro «Terras de Riba-Côa – Memórias sobre o Concelho do Sabugal», escrito há mais de um século por Joaquim Manuel Correia, é a grande monografia do concelho. A obra fala-nos da história, do património, dos usos e dos costumes das nossas terras, pelo que decidimos reproduzir a caracterização de cada uma das aldeias nos finais do século XIX, altura em que o autor escreveu as «Memórias».

Igreja da Misericórdia - Sabugal - Censos 1758 - Capeia Arraiana

Igreja da Misericórdia – Sabugal

A antiga vila do Sabugal foi edificada num pitoresco outeiro, abraçado pelo rio Côa, que corre entre salgueiros e verdejantes amieiros, e desperta constantemente os habitantes com o murmúrio da sua corrente e monótono ruído das suas frescas águas, que dos açudes se precipitam em graciosas cachoeiras. Tem ainda actualmente grandes lanços de muralhas, mas não existem no recinto da antiga vila vestígios de edifícios notáveis. As casas eram pequenas, da mais singela aparência, grande parte de cantaria e xisto, ligadas com simples barro, porque o elevado preço da cal não permitia aos moradores o luxo de rebocarem as habitações.
Seria temeridade afirmar que existem ainda casas da primitiva povoação. Uma das mais curiosas que ali há, fica próxima da torre de vigia, vulgo do relógio, dizendo-nos a sua dona que lhe constava ter feito parte dos paços do concelho. É uma das poucas que noutros tempos foram rebocadas e nela se notam portais e janelas de um estilo característico, pouco vulgar.
No interior há também dois portais e um armário, aproveitado para cantareira, tendo duas divisões construídas de finíssimo granito, cercado de um bordão a imitar corda. Tanto esta casa como a porta da igreja de Santa Maria devem ser da época manuelina.
Perto da referida casa, pertencente, ao tempo em que a visitámos, a Isabel do Ferreiro, existem outras, pertencentes ao Sr. Joaquim José das Póvoas, que eram das mais antigas da vila e restauradas em época não muito remota.
No quintal vimos uma grande pedra de armas, que há muito tempo fora apeada do edifício para o seu dono evitar ser colectado pelo uso do brasão de armas. O abuso da parte do fisco fez desaparecer algumas preciosidades arqueológicas, num protesto dos proprietários de edifícios antigos contra os vexames praticados por certos escrivães de fazenda. Emoldurado por um artístico paquife de folhagens, vê-se um escudo esquartelado, com dois castelos e dois sabugueiros nos quartéis opostos, encimado por um elmo e um castelo por timbre. Está bem conservado. É a única pedra de armas onde existem os sabugueiros, que fazem parte das armas desta vila e donde os antigos cronistas dizem que derivara o nome. Convém notar, todavia, que, embora nas cercanias da vila abundem os sabugueiros, outro arbusto ali abunda mais, que à primeira vista se confunde com aquele e que o povo denomina ingre, cuja folhagem e inflorescência quase se confundem com a do sabugueiro.
Aqui e além aparecem ainda portais e janelas, no estilo da Vila do Touro, algumas trazidas de outras casas e a contrastarem com a pobreza das paredes onde piedosamente foram introduzidas por algum pedreiro ou proprietário pobre, numa instintiva devoção pelo passado.
Restos de colunas e pedras curiosas têm raramente aparecido na antiga vila.
Perto da casa da Torre jaz ainda ao desamparo o resto de uma pedra de armas onde a flor de lis nitidamente se destaca no escudo, que era encimado por um elmo. Tudo o mais é imperceptível.
Diz-se que junto desta casa havia outrora uma coluna indicativa do privilégio do couto, e a pouca distância uma torre de que não existem vestígios.
Mui perto da mesma casa, do outro lado da rua, também de tristíssima aparência, existe outra, hoje convertida em casa de forno, que dizem ter sido das melhores da vila. Ali, onde hoje vivem uns pobres trabalhadores, viveram outrora homens poderosos, e, em vez de alcatifas, sedas e panos de Arraz, nota-se lá apenas o tapete formado pela folhagem de carvalho, giesta, urze e rosmaninho, condenados à fogueira.
A vila ocupava pequena área, cercada de altas e fortes muralhas, construídas com grossas camadas de granito, de longe transportado, porque ali o solo e os rochedos são de xisto.
Nem da casa que foi palácio de D. Deniz, e onde várias vezes se alojou e a que se referem a tradição oral e escrita, nem de outros palácios de famílias ilustres existem hoje vestígios, porque o tempo e o vandalismo espanhol e francês tudo destruíram e transformaram ou fizeram desaparecer.
Perto da cidadela e a leste da mesma, orientada de poente a nascente, foi edificada a antiga matriz da freguesia de Santa Maria, templo antigo, da mais singela arquitectura, construído de grossa silharia granítica (1). Tem uma só nave.
Na parede da capela-mor, à direita, está um escudo esquartelado tendo em duas quartelas a cruz de Aviz e nas opostas nove castelos e em volta outros nove castelos.
Existe ainda a pia baptismal e o púlpito, já sem parapeito, ambos com simples ornatos.
Na capela lateral, do lado norte, devemos notar as colunas de fino granito, cujos capitéis assentam sobre cordas enroladas que lhes servem de astragalos. A base das colunas é quase o capitel invertido.
O pórtico da igreja, aberto no frontispício, ao poente, é em arco simples e da maior singeleza.
Um campanário, igualmente singelo, assenta sobre a parede do sul, tendo apenas a espessura desta, erguendo-se no ângulo que separa o corpo da igreja da capela-mor. Tem duas sineiras ou ventanas, como ali vulgar mente se diz, e sobre o entablamento uma cruz entre duas singelas pirâmides.
Deste mesmo lado da igreja vê-se uma lápide escura, parecendo de xisto, cujos caracteres são ilegíveis.
Esta humilde igreja foi a matriz da freguesia extinta no século passado, sendo um dos últimos abades o padre Manuel Correia (2), que tão perseguido foi durante as lutas entre D. Pedro e D. Miguel, sofrendo resignadamente um ano de prisão na cadeia do Limoeiro, onde seus inimigos políticos lhe infligiram grandes tormentos.
Era um pároco ilustrado, mas intransigente miguelista. Estando um dia ensinando doutrina na sua igreja, o filho de um dos partidários de D. Pedro não respondeu a uma pergunta muito simples, o que provocou ao velho abade esta censura: «Se lhe mandassem cantar a Constituição…»
Aquela frase simples, embora imprudente, bastou para que, dali a poucos dias, o conduzissem ao Limoeiro, onde sofreu rude tratamento, que lhe apressou a existência. Foi esta freguesia anexada à de S. João, única que hoje existe das cinco que dizem ler havido – S. Pedro, Santa Maria Madalena, S. João, S. Tiago e Santa Maria do Castelo.
Só existem actualmente (l905) as igrejas respectivas de S. João e Santa Maria do Castelo; todas as outras foram há muitos anos demolidas. Como recordação, em certas épocas do ano e nos domingos da Quaresma, o pároco e o povo, em procissão, visitam ainda, como vimos, o local onde existiram as igrejas demolidas e ajoelham ali devotamente, cantando em coro.
Diz-se que nesta igreja existia uma colegiada, como noutras vilas do país; mas faltam-nos provas para podermos asseverar a existência dela.
Para terminarmos esta rápida notícia a respeito da igreja de Santa Maria, diremos ainda que nela jazem, em sepultura rasa, os restos mortais de D. Rosa Marcelina, senhora muito virtuosa da casa de Sortelha, a quem o povo sincera e ingenuamente considera santa, indo orar sobre a sepultura dela, donde leva terra para a cura das sezões e outras doenças…
Em 1757 tinha a freguesia de Santa Maria 125 fogos. O abade, que era da apresentação do bispo, recebia de côngrua 150.000 reis.

Notas:
1
– A igreja de Santa Maria do Castelo foi demolida por 1911.
2 – Abade do Sabugal, natural da Ruvina, tio avô do Autor deste livro.

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Joaquim Manuel Correia

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