Memórias sobre o Concelho do Sabugal (66)

:: :: A QUARESMA E A PÁSCOA NA ALDEIA :: :: O livro «Terras de Riba-Côa – Memórias sobre o Concelho do Sabugal», escrito há mais de um século por Joaquim Manuel Correia, é a grande monografia do concelho. A obra fala-nos da história, do património, dos usos e dos costumes das nossas terras, pelo que decidimos reproduzir nesta Quadra Pascal a caracterização de como se vivia a Quaresma, com os Passos, a Semana Santa, as Endoenças e a festa da Páscoa das aldeias sabugalenses nos finais do século XIX, altura em que o autor escreveu as «Memórias».

Encenação da paixão e morte de Cristo na aldeia de Ruivós em 2012

A Quaresma na aldeia – Os Passos- Semana Santa – Endoenças
Não nos demoraremos em descrições de muitos costumes e práticas religiosas ainda em uso no concelho do Sabugal; devemos, porém, fazer menção de alguns.
Na vila do Sabugal ainda subsiste o velho costume de nos domingos da Quaresma, ao anoitecer, toda a gente visitar as igrejas e capelas, cantando o terço no trajecto, até voltarem à igreja paroquial, onde entram somente os homens, ficando as mulheres à porta, entoando todas a Salvé Rainha. O mais curioso é que visitam também o local onde houve outras capelas, como a de S. Pedro e S. Tiago, e as ruínas da ermida de S. Domingos. Quando o povo, com o pároco e alguns homens vestidos de opas, com insígnias e cruz alçada, chegam junto das capelas ou do local em que elas existiram, todos ajoelham e rezam, terminando tudo na igreja paroquial com o canto da Salvé Rainha.
Em todos os dias da Quaresma há o costume de encomendar as almas, que consiste num canto triste e sentimental, altas horas da noite, geralmente executado por homens e mulheres que tenham fama de cantar bem.
Os rapazes costumam também entoar o terço, em dois grupos, percorrendo todas as ruas, bem distanciados um do outro, rezando alternadamente.

Os Passos em Ruivós e noutras freguesias
Há quantos anos assistimos nós à procissão dos Passos em Ruivós! Em nenhuma outra freguesia se representava a tragédia do Gólgota tão espectaculosamente como ali.
Lá apareciam em carne e osso soldados armados de lanças, levando à frente o centurião, com fardas, imitando as dos soldados romanos, a Madalena, de compridas tranças, S. Longuinhos, Simão Cireneu e a Verónica. Não faltava o Calhorra, empunhando e tocando uma grande trombeta, de som grave, rouco, que no dizer do povo, significava: Morra Jesus. O pobre trombeteiro, que era sempre um mendigo, a quem davam um quartinho, isto é, 1200 reis, ia defendido pelos mordomos e pela escolta, metido na sua túnica amarelada, semelhante à pele do lagarto, de chita pintalgada, e nem assim se livrava de pedradas dos rapazes, que consideravam uma boa acção apedrejar o desgraçado, ainda que fosse perto do andor de S. João ou da Virgem, que seguiam na procissão, ou perto do Senhor dos Passos, toscas imagens cujas feições faziam calafrios, devidas ao santeiro Cardépe, do Souto, um curioso inculto, mas habilidoso..
Quando o Senhor dos Passos serviu pela primeira vez nesta procissão, uma mulher do Souto gritou:
– Ah! Pai divino, pai divino, feito do castanheiro do ti Corrécha! Desse castanheiro já eu comi castanhas!…
Aquela imagem gigantesca causava terror, impressionava a multidão que reunia no largo de S. Paulo, onde era o calvário, junto da velha igreja. Era ali que a substituíam por outra imagem pregada na cruz.
Uns soldados jogavam os dados, outros simulavam cravar as lanças no corpo de Jesus, outros levavam-lhe uma esponja à boca, na ponta duma lança… Havia três sermões, em que quase sempre era orador o falecido Padre João de Matos, que arrancava à multidão muitos soluços e lágrimas, sendo ele o primeiro a chorar.
A divina tragédia, que era representada de tal modo, tanto provocou o ridículo com as figuras dos soldados, Calhôrra e outros, que um prelado a proibiu, porque pessoas ilustradas o informaram de que aquela procissão provocava o riso de muitos e a censura da mor parte.
No Souto, Vilar Maior, Sortelha e Sabugal, também se realizava aquela cerimónia religiosa e todos os anos se realiza ainda em Pousafoles, em virtude dum legado há muitos anos instituído por um filho daquela freguesia, P.e Torres.

A Via Sacra
Quem durante a Quaresma passar nas aldeias de madrugada há-de ouvir tocar à Via Sacra, ou, como lá dizem, às Cruzes, exercício de penitência que consiste em ajoelhar em frente de todas as cruzes que há dentro ou fora da igreja paroquial, enquanto um devoto lê na cartilha do abade de Salamonde os diferentes passos ou estações.

Endoenças
Em algumas freguesias costumam realizar-se Endoenças.

Páscoa – Folar – Alvíssaras – Bolos – Ovos
Depois da festa dos Ramos, cuja procissão dá a ideia dum olival movediço, atenta a grande porção de ramos de oliveira que todos levam, guardando-os depois em casa para livrarem das trovoadas, e depois das raras funções de Endoenças, que em poucas freguesias têm lugar, vem a festa da Páscoa, depois de tanto tempo de jejum e penitência, porque a Quaresma é muito respeitada.
Mal soa a meia-noite de sábado de Aleluia repicam os sinos e os moços do lugar, para ganharem as alvíssaras, cantam entusiasticamente a Aleluia, acordando toda a gente, havendo muitas pessoas que só depois disso se deitam, para assistirem a tanta alegria.
A festa e procissão de Domingo de Páscoa são sempre muito concorridas e nelas o povo assiste com o melhor fato. Os padrinhos dão sempre aos afilhados bolos de ovos e também ovos cozidos e pintados com raiz de ruiva. Os padrinhos mais pobres apenas dão bolos de vintém aos afilhados, que consistem em simples bolos de pão, cuja massa é espalmada e untada com azeite antes de ir ao forno. Estes bolos são iguais aos que em dias de mercado se acham expostos à venda, muito apreciados pelo povo. Um bolo de dez reis ou de vintém e meio litro de vinho satisfazem o apetite de qualquer homem, pouco habituado a grandes acepipes.
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Joaquim Manuel Correia

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