Memórias sobre o Concelho do Sabugal (65)

:: :: VILAR MAIOR (3) :: :: O livro «Terras de Riba-Côa – Memórias sobre o Concelho do Sabugal», escrito há mais de um século por Joaquim Manuel Correia, é a grande monografia do concelho. A obra fala-nos da história, do património, dos usos e dos costumes das nossas terras, pelo que decidimos reproduzir a caracterização de cada uma das aldeias nos finais do século XIX, altura em que o autor escreveu as «Memórias».

Castelo de Vilar Maior

Castelo de Vilar Maior

A riqueza da freguesia
Vilar Maior possue belíssimas propriedades rústicas nos seus extensos limites, especialmente veigas e lameiros, nas margens do Cesarão e ribeira de Alfaiates e perto do Sabugal.
Colhe muito centeio, trigo, milho, batatas e feijão, linho e outros géneros agrícolas.
Tinha já regular produção de vinho antes da invasão filoxérica e êste era de belíssima qualidade; mas têm sido feitas já plantações de videira americana, dando bons resultados.
Também existem alguns soutos de castanheiros e outras árvores frutíferas.
Criam-se ali gados, ovino, caprino e bovino.
Há em Vilar Maior ricos proprietários, mas o maior proprietário é o Ex.mo Sr. Francisco Pessanha, casado com uma ilustre senhora, filha do falecido dr. Júlio César, Visconde da Quinta de Ferro, que foi deputado na legislarura de 1897 a 1899. Não é só o primeiro proprietário de Vilar Maior é também dos maiores de todo o concelho do Sabugal.

As minas
Perto de Vilar Maior, na Tapada do Aires, existe um poderoso filão de minério rico em cobre, ouro, prata e urânio.
Várias companhias e sindicatos têm feito pesquizas e começado a exploração daquela mina e outras do concelho, em Vale das Éguas, Rapoula, Quartafeira, etc., tendo o concessionário delas, A. J. Vilas Boas, residente na Quartafeira, sofrido vários revezes e contrariedades. Em 1908 ouvimos-lhe dizer que estava a exploração confiada à Companhia do Urânio, que vai explorar as diferentes minas de que é tão rico o concelho do Sabugal, tanto as do distrito mineiro do Côa, como da Quartafeira.
Este homem tem sido duma coragem e tenacidade heróica para conseguir o seu ideal.

O mercado
Todos os meses há em Vilar Maior um mercado de gados, lanígero, caprino e ovino, que é muito importante, costumando ser no último domingo de cada mês.
O mercado realiza-se na margem direita do Cesarão, numa encosta próxima da ponte.

Indústrias
Há nesta freguesia muitos padeiros, moleiros, sapateiros e alfaiates e muitos indivíduos havia também empregados na exploração da mina, que tinha um poço de grande profundidade e algumas galerias. No Cesarão há muitos moinhos, que no verão laboram com dificuldade.

Fontes
Há três fontes de água potável, sendo a da Fraga a de melhor qualidade, mas nenhuma deita água em abundância, de sorte que, todas, não fornecem água necessária para a população, mormente em certos anos.
O que supre a falta de água é o Cesarão, de que várias vezes temos falado e que muito contribue para a riqueza da povoação.

Arrifana
Esta povoação, que fica a 5 quilómetros da sede da freguesia, é situada numa encosta da margem direita do Cesarão, entre grandes penhascos e fragas.
Tem 40 visinhos.
A capela, da invocação de S. Fabião, é de grande simplicidade, mas decentemente ornada, tendo dois altares, um dêles dedicado a S. Fabião, advogado contra as sesões.
Tem também cemitério.
Diz-se que quando um exército francês ali esteve acampado lhe roubaram o cofre nesta povoação.
:: ::
Como o Cesarão seca alguns anos no estio, os moleiros costumam arrendar moinhos no Côa, que passa, a pequena distância.
A necessidade é a mãe das artes, é costume dizer-se. Também confirmou o ditado: Francisco Fernandes Ildefonso, notando a falta de água, inventou uma maneira de moer, realmente engenhosa, embora exigindo certo trabalho, porque as pedras eram movidas à mão.
Em 1842 tinha o concelho de Vilar Maior as seguintes freguesias:
Aldeia da Ribeira e Escabralhado, 96 fogos; Bismula, 91 fogos; Malhada Sorda, 243 fogos; Nave de Haver e Poço Velho, 180 fogos; Vilar Maior e Badamalos, 174 fogos; Vale das Éguas e Ruivós, 71 fogos; Valongo, 46 fogos; Aldeia da Ponte e Forcalhos, 246 fogos; Alfaiates, 167 fogos; Rebolosa, 66 fogos; Seixo do Côa, 124 fogos. Total: 1504 fogos.
:: ::
Joaquim Manuel Correia

Deixar uma resposta