Memórias sobre o Concelho do Sabugal (64)

:: :: VILAR MAIOR (2) :: :: O livro «Terras de Riba-Côa – Memórias sobre o Concelho do Sabugal», escrito há mais de um século por Joaquim Manuel Correia, é a grande monografia do concelho. A obra fala-nos da história, do património, dos usos e dos costumes das nossas terras, pelo que decidimos reproduzir a caracterização de cada uma das aldeias nos finais do século XIX, altura em que o autor escreveu as «Memórias».

Vilar Maior há umas décadas atrás

Vilar Maior há umas décadas atrás

Homens ilustres
Era filho desta vila D. Gaspar do Rêgo da Fonseca, doutorado em cânones, provisor, visitador e vigário geral dos Bispados de Lisboa, Coimbra e Guarda e em 1637 Bispo da cidade do Pôrto. Faleceu em Lisboa dia 13 de Julho de 1639. Escreveu algumas obras dignas de nota, «Isentos de Malta» e «Igrejas de Braga».
Três eclesiásticos houve nascidos em Vilar Maior e falecido século passado um em Valongo, o Padre Júlio, outro em Badamalos, o Padre Bernardo Cardoso, outro mesmo nesta vila, o Padre Franco, com quem tivemos relações de amizade. É pároco do Safurdão o P.e Júlio Simões, que foi nosso condiscípulo no Liceu da Guarda e também amigo.
Era igualmente desta vila o general Frederico Garcia, que foi coronel de Infantaria 7, e comandante do Distrito de Reserva em Leiria. Em 1640 era conde de Vilar Maior D. Fernando Teles, casado com D. Mariana de Menezes, o qual foi um dos conjurados que acabaram com o govêrno dos Filipes.
Sexto conde de Vilar Maior foi D. Manuel Teles da Silva, 2.º Marquês de Penalva.

Assassino real
D. João, filho de D. Pedro I e de D. Inês de Castro, pouco depoi assassinar D. Maria Teles, sua esposa, em 28 de Dezembro de 1377 (Novembro, diz A. X. R. Cordeiro), refugiou-se em Vilar Maior, com grande séquito de voluntários que o quiseram acompanhar; mas, como não se julgasse suficientemente seguro e não confiasse excessivamente na protecção que na vila poderiam dar-lhe, retirou precipitadamente para S. Feliz de Gallegos, procurando depois o rei de Castela, abandonando aqueles o tinham acompanhado e ficaram nos casais junto do castelo, como nos diz Fernão Lopes. Sobre o assassino ingrato, vimos a pág. 143 dos «Sermões da História» que se nacionalizou castelhano em Vale de Ia Mula, vindo como castelhano armado contra Trancoso e Elvas.

Uma lenda antiga ligada a Vilar Maior
Pela Páscoa de flores,
Pela paixão, se dizia,
Entrou em Vilar Maior
Uma grande cavalaria.
Levavam cavalos brancos,
Gente de muita valia,
Foram-se a esperar as môças
Que iam p’rà missa do dia.
Disse o tenente ao alferes:
– Qual daquelas é mais linda?
– A de vêrde bem me agrada,
Mas eu a do azul queria,
Hei-de roubá-Ia a seu pai
Inda que me custe a vida.
Não era ainda meia noite
A porta da mãe batia:
– Que fazeis aqui, alferes,
Às deshoras pela vila?
– Eu não venho por ti, velha,
Venho pela tua filha.
– Minha filha não está cá
Estd em casa da prima.
Mas pegou numa candeia,
Indo encontrá-la deitada
Na cama onde dormia.
. . . . . . . .
, . . . . . . . . . . . . .
-Por diós te peço alferes,
E pela Virgem Maria,
Que me deixes só vestir
Uma alva camisinha…
– Se a tu tens de bom linho
Dar-ta-hei de cassa fina.
-Por diós te peço alferes,
E pela Virgem Maria
Que me deixes só rezar,
Só uma Ave Maria.
Á Senhora do Castelo
Qu’ela é minha madrinha.
– Olha filha por onde andas,
Não sejas deshonra minha,

Medita nas barbas brancas,
Que teu pai na cara tinha.
. . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . .
-Aqui tens, oh! velha honrada,
Aqui tens a tua filha,
Ela não se quiz vender
Por isso tirei-lhe a vida.
– Venha cá a minha filha
Espelho onde me eu via
Antes a quero ver morta
Que a sua honra perdida.
. . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . .

Eis aqui copiado este romance popular, ligado a Vilar Maior, relatando uma tragédia de amor, onde há paixão e sentimento. Nunca vimos esta lenda impressa, mas desde criança a ouvimos e, fielmente trasladada, aqui fica. Refere-se a antiquíssima época, anterior, quem sabe, ao domínio português.
Talvez venha em antigos cancioneiros, onde seja respeitado o rigoroso estilo da época, sem lhe faltarem versos, pois anda muito mutilada.
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Joaquim Manuel Correia

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