Seiva é vida!

Joaquim Gouveia - Capeia Arraiana (orelha)

Por entre a luminosidade, crescente, destes primeiros dias de Primavera afirma-se, cada vez com mais vigor, uma paisagem diferenciada e em constante rejuvenescimento, deixando nas mãos dos homens o seu destino, nem sempre indiciador de uma bem-formada consciência cívica. A sua beleza e contemplação merecem, da parte de todos nós, o maior respeito.

Das minhas entranhas sai o sangue que me dá vida (foto: Joaquim Gouveia)

Das minhas entranhas sai o sangue que me dá vida (foto: Joaquim Gouveia)

Apesar do calendário ter já assinalado o equinócio da Primavera, a neve que espreita, sobranceira, da altaneira Serra da Estrela transporta até nós uma aragem fina e fria, capaz de nos enregelar os ossos.
Pelo caminho da estrada velha, que em tempo pretérito ajudava a escoar os produtos agrícolas do Casteleiro, caminhávamos compenetradamente na tarefa que nos esperava e contagiados com as sonoridades e as mutações que os campos nos oferecem.
A ameaça da chuva desafiava o arco iris que, teimosamente persistia em nos acompanhar, quão vigilante multicolor, nesta manhã de Primavera envergonhada.
De longe em longe, paredes meias com vigorosos silvados, dominadores de muros e cômoros abandonados num tempo sem dono, eram notórios os sulcos ainda frescos, daquela leira de terra que, ansiosamente, esperava pelas sementes que aquele homem solitário, carinhosamente lhe ofertava.
A água que escorregava pelo leito do ribeiro, abundantemente, habitado por salgueiros e embudes de caules venenosos, persistia em trazer à nossa memória o extravasar das suas apertadas margens, deixando os campos fronteiriços repletos do fertilizante lodo, trazia-nos à lembrança as marcas de um rigoroso Inverno que teima em se despedir.
Indiferente a estas agruras meteorológicas encontrámos, em pleno processo de regeneração, a velha mas vigorosa nogueira, residente deste local farto em azeite, vinho e de tudo um pouco para a sobrevivência da casa. A seiva que dela brotava, marca de uma sabedoria milenar, despertou em nós uma observação mais atenta, sim porque a natureza surpreende-nos sempre, sobretudo quando olhamos para ela com respeito e interpretando os seus sinais. Afinal esta seiva que é vida, não é mais que o equivalente ao sangue dos animais, resultante do corte de uns ramos, fora de tempo. Agora, não há mais do que esperar até o ciclo de rejuvenescimento se conclua, de modo a que as folhas de Verão e frutos de Outono continuem a gratificar quem tão bem cuida da vida desta nogueira.
De regresso a casa trouxemos bem guardadas as imagens de uma natureza, que dia a dia, desperta das noites longas de Inverno, disponível para quem a quiser interpretar.
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«Viver Casteleiro», opinião de Joaquim Luís Gouveia

One Response to Seiva é vida!

  1. Quim (JG),
    É conhecido o meu apreço pela temática de Fernando Capelo. Há tempos até lhe perguntei por que é que escreve tão poucas vezes aqui no ‘Capeia’: https://capeiaarraiana.pt/2014/02/19/clareiras-de-pensamento/ .

    Pois bem, hoje, sei lá porquê (ou sei), esta tua reflexão fez-me evocar aquele colaborador e a sua adoração pela Natureza como ela é (ou melhor: como ela está, pois, por acção humana vai-se transmutando, às vezes infelizmente – quase sempre).

    Fica aí esta nota: gostei. A nogueira parece chorar. Lágrimas grandes mas simples. Se calhar é de alegria, por nunca a terem cortado…

    Continua a observar e a mostrar-nos as tuas fotos.
    Um gd abr.

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