Memórias sobre o Concelho do Sabugal (57)

:: :: VALE DE ESPINHO :: :: O livro «Terras de Riba-Côa – Memórias sobre o Concelho do Sabugal», escrito há mais de um século por Joaquim Manuel Correia, é a grande monografia do concelho. A obra fala-nos da história, do património, dos usos e dos costumes das nossas terras, pelo que decidimos reproduzir a caracterização de cada uma das aldeias nos finais do século XIX, altura em que o autor escreveu as «Memórias».

Capela Santo António -Vale de Espinho - Sabugal - Foto José Manuel Corceiro - Capeia Arraiana

Capela de Santo António – Vale de Espinho – Sabugal (Foto: José Manuel Corceiro)

À distância de 6 quilómetros dos Foios e a 15, pouco mais ou menos, a S. E. do Sabugal, é situada esta antiga povoação na margem direita e a menos dum quilómetro do rio Côa, sobre um pequeno outeiro e ao pé dum vale. A povoação é cercada de serranias, que lhe limitam muito o horizonte, especialmente do Sul, além do Côa, onde se destaca uma elevada serra, que se estende dos Foios a Vale de Espinho, Quadrazais, Malcata, Meimão e outras povoações.
Esta serra é há longos anos a riqueza da povoação, fornecendo-lhe mato para combustíveis, sobretudo torga ou urze (de cujas raizes ou cepas fabricam carvão) carvalhos, além de carqueja e outros arbustos de que tiram utilidade.
Só do carvão tiram anualmente um rendimento calculado em 2:500.000 réis.
Qualquer vizinho, amante do trabalho, encontra naquela e outras serras próximas meio de ganhar a vida, sem grande sacrifício nem dispêndio.
Quando um pai casa um filho é costume dar-lhe um enxadão, três sacas e um jumento, ficando com tão humilde dote habilitado a ocorrer às necessidades domésticas.
Num dia pode fabricar uma carga de carvão, cujo preço orça por 400 a 500 réis vendida em Vale de Espinho a indivíduos que se ocupam na revenda no Sabugal e Guarda.
Muitos, porém, fabricam-no para depois o irem vender directamente.

Gados
Além deste importante ramo de riqueza, outros tem de grande valor. Referimo-nos à criação de gados, lanígero e caprino, e à indústria das colmeias.
Em 1889 existiam ali 257 cabeças de gado vacum, 4000 de caprino e 350 de lanígero. O gado é apascentado nos seus vastos limites, onde há boas pastagens.
Mas, apesar disso, costumam os criadores mandar os gados lanígero e caprino a invernar para Espanha, Pesqueiro, ou para o concelho da Ida- nha, ou, como ali dizem, para o Campo, nome dado à vasta região de Penamacor, Idanha e Castelo Branco.
A razão disto está no rigor do clima, que não só é prejudicial aos gados que sucumbem à acção do frio, mas também porque no inverno este não deixa desenvolver herva nos campos, em virtude da neve e contínuas geadas.
É também esta a razão porque ali há poucas árvores frutíferas, excepto castanheiros, de que há belíssimos sou tos, abrunheiros, mostageiros e poucas mais.

As colmeias – a cêra – o mel
São em grande número as colmeias em Vale de Espinho e grande por isso a produção de cêra e mel, que são de boa qualidade.
Costumam transportá-Ias para diferentes pontos do concelho e às vezes mesmo para Espanha, que fica a poucos quilómetros, especialmente para o sítio de Sequeiros, onde o clima é aprazível e no qual existem belíssimos olivais, muitos pertencentes a portugueses. A mudança das colmeias realiza-se por causa do frio, principalmente, mas também por outras causas que podem influir na maior produção do mel.
Aquele que souber mudar as colmeias em épocas próprias e para sítios convenientes, pode crestar os cortiços, como êles dizem, três ou quatro vezes por ano.
Parte do mel é ali mesmo vendido ou consumido na freguesia, porque, como ouvimos a um homem já de avançada idade, «o mel é muito sàdio». O resto é vendido aos quadrazenhos e a outros vendedores ambulantes.
Várias pessoas nos asseguraram que o rendimento do mel podia calcular-se em certos anos em 2:000.000 réis, pois que a produção tem sido de 14000 litros e mais.
Se não há exagêro no cálculo, representa aquela quantia bom lucro, mas devemos acrescentar que a cera dá também uma avultada quantia que agora não podemos determinar.
Parte dela é também vendida por grosso e parte convertida em velas. O litro do mel custa geralmente 160 réis.
Além destas fontes de riqueza, devemos mencionar ainda os produtos agrícolas, centeio, trigo, milho, feijão, grão de bico, batata e castanha.
Apesar do rigoroso clima, é Vale de Espinho uma das povoações mais salubres do concelho e não têm nela grassado epidemias. As doenças que de quando em quando se notam são as sezões e as bronquites.
Os seus habitantes são em geral fortes, robustos, chegando muitos a idade avançada.
Em 1888 faleceu ali José Martins Lucas, que nascera em 1785 na freguesia do Souto. Casado em segundas núpcias, tinha 22 netos e 46 bisnetos e trinetos.
Pouco antes de morrer dizia com certa graça que nunca estivera doente e «que só lhe pesavam os anos». Tinha 103 anos e não lhe faltava um dente. Havia em Vale de Espinho uma cerejeira enorme que foi por êle plantada quando era criança.
Nos fins do século passado faleceu também ali um indivíduo que contava 107 anos de idade e que nós vimos guardando um grande rebanho de cabras, poucos anos antes de morrer. Usava calção, polaina e jaqueta de saragoça, porque nunca se conformou com outro figurino diferente do adoptado no seu tempo de rapaz, como sucedia com vários indivíduos de Malcata, Quadrazais, Aldeia Velha, Souto, Lageosa, Forcalhos e outras povoações do concelho.
Houve ali também uma mulher que morreu de 103 anos de idade, e que aos 99 ainda foi aos Foios a pé, afim de assistir ao casamento duma neta que tinha 49 anos. Teve oito filhos a quem sobreviveu. Chamava-se Ana Rata esta mulher privilegiada, que chegou aos 103 anos trabalhando sempre para viver e, quando as fôrças lhe faltaram, vivia da caridade, pois não tinha bens e apenas o usofructo da casa onde residia.
Notável foi também um outro indivíduo que morreu de avançada idade, conhecido pela alcunha de Ti (tio) Manhas, que no tempo da Guerra Peninsular organizou uma pequena guerrilha, dizimando muitos franceses nas serras próximas, surpreendendo-os quando passavam perdidos ou cansados.

Os irmãos Moreiras
Verdadeiras notabilidades no seu género são dois irmãos, Domingos Moreira e João Moreira, naturais desta freguesia, que adquiriram celebridade como caçadores, tendo por armas simples pedras. Coelho, lebre ou perdiz que lhes aparecesse, dificilmente escapava à sua pedrada certeira.
Acompanharam muitas vezes caçadores de justificada fama, que não conseguiam matar tanta caça, ou, como ali dizem, «arranjar um cinto» como êles.
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Diremos algumas palavras também a respeito dum tipo popular, o Manuel Russo, que desde criança teve o cabelo branco, sendo um verdadeiro exemplar de albino. Durante o dia traz sempre a mão diante dos olhos, por não poder fixar a luz. Muito serviçal, é por isso estimado por todos.

Pescadores e caçadores
Existem em Vale de Espinho alguns indivíduos que se ocupam no exercício da pesca e outros da caça.
No rio Côa criam-se muitas trutas e enguias, de sabor especial, sendo a truta o peixe que mais abunda ali. O que se não consome na povoação é vendido no Sabugal ou na Guarda, ao preço de 180 a 240 réis o arrátel, conforme os anos.
Há também muita caça em todo o limite de Vale de Espinho, especialmente nas serras, onde não há muitos anos apareciam ainda veados e porcos montezes.
Nessas serras abundam também os lôbos e raposas, gatos bravos e não há muitos anos ainda ali aparecia o lôbo cerval.
Conta-se, a respeito de porcos, um caso que podia ter sido fatal. Um indivíduo atirou a um porco, que, sentindo-se ferido, correu sobre êle. Perto havia um poço onde cairam os dois, montando o homem sobre o porco e conseguindo submergi-lo, porque o animal perdera as fôrças com a grande porção de sangue que lhe saía da ferida.
Há poucos anos também uns indivíduos daqui mataram um lôbo.
Vale de Espinho, como se depreende do que acabámos de escrever, é terra abundante e rica nos principais géneros de produção, superior à maioria das restantes do concelho, tendo sobre elas a vantagem da cêra, do mel e do carvão, que só ali, nos Foios, Quadrazais e Malcata se fabrica, em grande escala.
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É povoação muito antiga e nas proximidades têm aparecido indícios de ter sido habitada desde os tempos mais remotos.
No centro está a igreja paroquial, regularmente ornada, cujo orago é Santa Maria Madalena.
Tinha 150 fogos e 600 almas, no fim do século XVII, e actualmente 375 e 1555 almas. Como se vê, aumentou grandemente a sua população, sendo agora uma povoação importante.

Escolas primárias
Há muitos anos que nesta freguesia existem escolas para os dois sexos.
Foi ali professor o padre Félix, durante alguns anos, e desde a saída dêle tem ali estado Bernardino Luís Afonso Marques, que, como o antecedente, é um professor distinto.
A professora, D. Maria Augusta, é também muito conceituada. As casas da escola são das melhores de todo o concelho.

Comerciantes
Existem diferentes estabelecimentos comerciais.
Outrora havia apenas o do falecido proprietário Francisco Lopes. Actualmente há mais e bem sortidos.

Pôsto fiscal
Há longos anos que ali existe um pôsto fiscal, com bastantes guardas, noutro tempo do comando dum alferes.
Pela portaria de 26 de Dezembro de 1909 foi elevado a pôsto de despacho com habilitação de 3ª classe e correspondência com a alfândega (aduana) de Valverde deI Fresno.
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Apesar de ser povoação importante, alguns indivíduos dali têm ido para a Africa e Brasil, tentando fortuna, que nem sempre é favorável a quem a procura com grande sacrifício, como pode ver-se duma notícia publicada no Século de 24 de Março de 1907, em que se relata um verdadeiro quadro de miséria:
António de Oliveira e mulher e filhos partiram para a Baía onde estiveram 10 anos, regressando êle e três filhos, Alexandrina de Oliveira, de 17 anos, José de Oliveira, de 21, e António de Oliveira, de 14, auxiliados pela colónia portuguêsa, chegando a Lisboa sem cinco réis, onde por caridade foram recebidos no Hotel Patrício. A mulher, a desgraçada, lá ficou sepultada em terra estranha, morrendo na miséria.
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Era natural desta freguesia João Lopes, que casou em Valverde del Fresno com a viúva dum tio, José Lopes, chamada Petra, a qual, auxiliada pela criada e por um criado, de Pouca Farinha, freguesia de Rendo, concelho do Sabugal, o assassinou.
Foi um crime revoltante que alarmou e indignou toda a gente, porque a vítima era um rapaz simpático e estimado em Valverde e Vale de Espinho.
Os assassinos praticaram o crime aproveitando-se da circunstância dêle estar dormindo, altas horas da noite, vibrando-lhe muitos golpes de navalha, indo em seguida colocá-lo na praça, onde de manhã apareceu assentado. Tinham-no lavado cuidadosamente, colocando-o depois numa posição muito natural, para fazerem crêr que fôra ali assassinado.
Não Ihes valeu, porém, o disfarce, porque, apesar das altas influências postas em campo para conseguirem a absolvição, foram todos condenados, cumprindo a pena no cárcere Modelo.

Dr. Alfredo Lopes
Era natural desta freguesia o Dr. Alfredo Lopes, filho de Francisco Lopes e Luiza Freire Lopes, importantes proprietários e comerciantes de Vale de Espinho.
Formou-se em Medicina na Universidade de Coimbra em 1896, indo exercer a clínica para Murtosa, concelho de Estarreja. Concorreu ao partido criado na freguesia de Alfaiates, mas, desgostoso pela oposição que lhe moveram certas individualidades, obteve ser colocado no quadro de saúde de Angola e S. Tomé, sendo nomeado facultativo de 3.a classe em 26 de Janeiro de 1899, promovido à 2.a classe por decreto de 3 de Agosto de 1900 e à 1ª por decreto de 25 de Janeiro de 1902. Começou a carreira do Ultramar em Luanda em 1 de Maio de 1899.
Faleceu no hospital Maria Pia de Luanda em conseqüência das febres que adquirira no Alto Dande.
Foi sempre bom estudante e como médico prestou relevantes serviços. Foi deveras sentida a sua morte, porque era um bom carácter, verdadeiro homem de bem, bom médico, bom amigo e cidadão prestimoso, e por isso sempre estimado em toda a parte.
Francisco Lopes Júnior, irmão dêle, que foi estudante em Coimbra, tendo ido também para Africa, dali veio doente, falecendo 15 dias depois de ter regressado a Vale de Espinho, vítima de febre biliosa, como também fôra o irmão. Era igualmente rapaz simpático e querido.
Causou verdadeira dôr a morte destes dois irmãos, quando a vida tanto Ihes sorria e parecia bafejá-los a fortuna.
Poucos anos depois morria também o pai, para o que muito contribuiu a morte dos filhos queridos que tanto idolatrava.

Outros filhos de Vale de Espinho
Dr. Alfredo Lopes, médico em Alfaiates.
Dr. Carlos Marques, brilhante professor do Liceu da Guarda.
José Alexandre Marques, tenente.
Dr. Francisco Nabais do Amaral (foi concluir licenciatura em direito em 1928).
Dr. Sebastião de Brito e Abreu médico militar em Lisboa.
Tenente António Rodrigues Ferreira residente nas Caldas da Rainha.
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Joaquim Manuel Correia

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