Memórias sobre o Concelho do Sabugal (56)

:: :: VALE DAS ÉGUAS :: :: O livro «Terras de Riba-Côa – Memórias sobre o Concelho do Sabugal», escrito há mais de um século por Joaquim Manuel Correia, é a grande monografia do concelho. A obra fala-nos da história, do património, dos usos e dos costumes das nossas terras, pelo que decidimos reproduzir a caracterização de cada uma das aldeias nos finais do século XIX, altura em que o autor escreveu as «Memórias».

Igreja Matriz de Vale das Éguas - Sabugal - Censos 1758 - Capeia Arraiana

Igreja Matriz de Vale das Éguas – Sabugal

Como o seu nome indica, é situada num vale, numa pequena elevação que nele existe, estando a uns 14 quilómetros ao N. do Sabugal. É uma das povoações que de longe oferecem melhor perspectiva.
Uma antiquíssima tradição explica o nome dado a esta freguesia, relacionando-o com a antiga e extinta povoação que tinha o nome de Atalaia, cujas ruínas existem ainda no alto do Cabeço da Senhora das Preces, limite da Ruvina, na margem direita do Côa, a trezentos metros pouco mais ou menos deste rio.
Diz-se que Caria Atalaia era uma vila antiga cujos habitantes mandavam as suas éguas para o vale onde está situada a freguesia de que nos estamos ocupando, no qual havia excelentes pastagens e dali o nome ao local e depois à povoação que ali se fundou. Certo é que Caria Atalaia desapareceu por motivos e em época ignorados. Tal é a tradição com ou menos foros de lenda.
De Caria Atalaia vemos notícia na «Monarchia Lusitana» onde se diz que Fernando o Santo, quando enobreceu a vila do Sabugal, lhe deu por termo Vilar Maior e Caria Talaya, «outra povoação e castelo a duas léguas do Sabugal, para o Norte de que hoje não há mais que ruínas». Distam estas ruínas de Vale das Eguas talvez 4 quilómetros ou mais.
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Abrigada como é do Norte, o seu clima é dos mais doces, havendo por isso em Vale das Eguas muitas árvores frutíferas, produzindo também muito bom vinho, cuja produção podia calcular-se em 84.000 litros e que diminuíu imenso depois da invasão da filoxera.
Produz muito centeio, trigo, batatas e hortaliças e tem bons soutos de castanheiros, perto das Aguas Férreas e da Areeira, onde se cruza caminhos de Ruivós, Vale das Eguas e Valongo, de cujo sítio se contempla um dos mais vastos e magestosos horizontes de todo o concelho.
Há nesta povoação belíssimas pastagens ou lameiros em todo o vale que começa pouco além do sítio das Aguas Férreas (onde há a famosa nascente) e termina no Côa e bem assim no vale que se estende entre Ruivós e Vale das Eguas, em cujos lameiros há abundantissimos freixos seculares que são muito apreciados e muito contribuem também para a riqueza da povoação, por serem aproveitados para o fabrico de rodas e eixos de carros.
O feno ceifado nestes lameiros é de boa qualidade. A mor parte pertencem a proprietários da Ruvina e Valongo, povoações confinantes de Vale das Éguas.
É terra abundante em águas, tanto potáveis como para irrigação aquelas não são das melhores.
Nos seus limites passa o rio Côa, ao Poente, e mais dois ribeiros um o do Sporão e outro o de Ruivós, que nasce perto desta freguesia, além do ribeiro dos Porqueiros, que nasce no limite da Ruvina.
A Nordeste de Vale das Eguas há uma boa nascente de águas férreas, muito recomendadas para certas doenças, motivo porque muita gente deIas faz uso.
Muitas pessoas, que no verão freqüentam as Caldas do Cró, que distam daqui 5 quilômetros, mandam para ali transportar águas térreas, por suceder várias vezes que a alguns membros da mesma família são mais úteis estas que as sulfurosas, em virtude de temperamentos e doenças dife- rentes. Têm dado óptimos resultados contra certas doenças do estômago.
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É antiquíssima esta povoação e nos seus limites existem vestígios de terem ali habitado antigos povos.
Perto da ermida de S. Lourenço, a pequena distância do Côa e no sítio denominado da Pesqueira, numa tapada junto da qual se cruzam os caminhos do Cró a Vale das Eguas e de Valongo a Rendo, existe ainda uma grande pia sepulcral, cavada em rocha granítica, sepultura igual a outras do concelho, que são consideradas romanas por uns e por outros medievaís.

Igreja paroquial
Quási no centro e no ponto mais elevado da povoação ergue-se a antiga igreja e à direita e a pequena distância do frontispício um forte e vistoso campanário, edificado haverá quarenta anos pouco mais ou menos. A igreja era de regulares proporções e tinha altares antigos de boa talha dourada.
Como, porém, parecesse pequena aos moradores foi ampliada em 1904, por iniciativa do pároco, P.e José Augusto Pinto, que é natural da Ruvina, filho de Bernardino Pinto e Ana Pires.
O orago da freguesia é S. João Degolado. O pároco era da apresen- tação do Reitor da Nave.
Tinha no fim do século XVII 50 fogos e 200 almas e actualmente 65 e 264 almas.
O cemitério paroquial fica perto da igreja. Ao cimo da povoação está a capela de S. Sebastião e perto do Côa havia a de S. Lourenço, há muito em ruínas.

Minas em exploração
No sítio do Barroco da Pena, limite desta freguesia, esteve em exploração uma mina de cobre e outros metais. Começaram os trabalhos em 1901 dirigidos pelos senhores Guilherme Ivens Ferraz e A. J. Vilas Boas, aquêle tenente de marinha e este proprietário residente na Quartafeira. Os dois interromperam as relações e os trabalhos ficaram interrompidos; consta-nos, porém, que a exploração foi confiada a uma companhia estrangeira.

Instrução primária
A escola de instrução primária foi criada por despacho de 13 de Maio de 1908, assim como outra em Aguas Belas, ambas mistas. A primeira professora foi D. Alexandrina Garcia de Brito, nomeada em 3 de Março,de 1909.
E de justiça, porém, dizer, que sempre tem havido em Vale das Eguas professores particulares, que ensinavam mediante uma pequena remuneração. Foi ali que aprendemos a ler e escrever com o já falecido Lucas Afonso Rocha. Depois dêle ensinou um seu filho, também já falecido, e José Mendes Cardoso, vulgarmente conhecido pela alcunha de Vinhó. Devido, pois, à iniciativa particular, poucos homens haverá em Vale das Eguas que não saibam ler e escrever.

Os entremezes
Durante alguns anos os rapazes de Vale das Éguas levavam à cêna entremezes e comédias, conseguindo agradar. Na Bismula, Rendo e outras freguesias costumam também levar à cêna várias peças antigas, como D. Inês de Castro, Paixão de Cristo, etc.

O Padre João Correia
O P.e João Correia era natural de Vale das Éguas, sendo filho de Josefa Martins e Afonso Correia. Ordenou-se na Cidade de Pinhel, tendo estudado primeiro em Sortelha e depois em Pousafoles.
Foi capelão no Marmeleiro, freguesia da Guarda, e durante muitos anos foi pároco de Vale das Éguas. Caíu desastradamente em 1879 de uma égua, no sítio das Almas, donde toi transportado para casa, não tornando a dar acôrdo de si e falecendo.
Foi muito estimado, não só dos seus fregueses, mas de toda a gente, porque era muito bondoso e caritativo em estremo. Foi por isso muito sentida a sua morte. Era apaixonado pela caça e pesca, suas únicas diversões, sendo muito amigo de toda a família.
Da mãe dêle ainda hoje é bem-saudosa a memória, porque ninguém a igualou em actos de bondade. Os pobres choram a sua morte. No dia em que faleceu mandou avisar os filhos para se despedirem dela, porque tinha o pressentimento de que morria. Efectivamente, depois de ir à missa chegou a casa e faleceu nesse dia cercada dos filhos, rezando-lhe o padre João Correia o ofício d’agonia, que ela repetiu com toda a serenidade. Apesar de ter bons rendimentos, chegava a passar mal, porque dava aos pobres tudo aquilo de que precisassem, ainda que ficasse sem nada.
No dia dos ofícios celebrados por sua alma deu-se um facto que comoveu toda a gente, pelas circunstâncias especiais que o acompanharam. Foi o caso de, na manhã do dia em que iam ser celebradas as exequias ou ofícios, duas perdizes que passavam na direcção da igreja baterem no campanário e caírem mortas. a caso, bastante extraordinário em si, causou grande impressão, porque, tendo andado vários caçadores caçando, na véspera, não obstante serem afamados, não conseguiram matar peça alguma de caça, com que, segundo é costume, a família obsequiasse nesse dia os amigos e os eclesiásticos que assistissem, oferecendo a todos abundantíssimo jantar.
O caso pode explicar-se pela coincidência e acaso, mas essa explicação não satisfaz o povo que viu nele a intervenção do sobrenatural.
Fiéis amigos da verdade, aqui expuzemos o facto, e cada um pode, a propósito dêle, fazer os comentários que entenda.
O padre João Correia, ao ter notícia do que se passara, ficou muito sensibilisado, derramando abundantes lágrimas, sucedendo o mesmo aos colegas.
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Joaquim Manuel Correia

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