Memórias sobre o Concelho do Sabugal (55)

:: :: URGUEIRA :: :: O livro «Terras de Riba-Côa – Memórias sobre o Concelho do Sabugal», escrito há mais de um século por Joaquim Manuel Correia, é a grande monografia do concelho. A obra fala-nos da história, do património, dos usos e dos costumes das nossas terras, pelo que decidimos reproduzir a caracterização de cada uma das aldeias nos finais do século XIX, altura em que o autor escreveu as «Memórias».

Capela da Senhora do Pilar - Urgueira - Aldeia de Santo António - Capeia Arraiana

Capela da Senhora do Pilar (1700) – Urgueira – Aldeia de Santo António

A cêrca de quatro quilómetros a O. S. O. do Sabugal fica a freguesia da Urgueira, também conhecida por Aldeia de Santo António, porque é nesta povoação a sede da freguesia, por nesta estar a igreja paroquial. Urgueira deve ser corrupção de urzeira, mas urgueira se chama ainda a um arbusto que ali abunda.
Aldeia de Santo António é situada numa encosta, castigada pelo vento norte, motivo porque o seu clima é muito frio.
Em 20 de Janeiro de 1891 gelou o vinho nas galhetas da igreja paroquial, o que me afirmou o pároco, que então ali pastoreava a freguesia, P.e José Gonçalves Leitão, que mais tarde foi colado na freguesia de Aldeia da Ponte; mas esse facto de gelar o vinho sucedeu noutras povoações. É povoação muito antiga e mais ainda o deve ser a Urgueira, onde existe a antiga igreja paroquial, de menores proporções que a actual e menos própria para o culto, por estar menos ornada.
A outra está bem situada, tem regulares dimensões e bons altares, especialmente o altar-mor, que é antigo e onde está o orago da freguesia que é Santo António de Lisboa. Num dos outros é venerada a imagem do Coração de Jesus.
O Pároco era antigamente da apresentação do vigário de Sortelha, tendo 40.000 réis de rendimento.
Actualmente o rendimento paroquial é o seguinte:
Côngrua, 96.000 réis; pé de altar, 34.000 réis; casamentos, 240 réis; baptisados, 500 réis, e bens de alma, 2.250 a 10.400 réis.
Nos fins do século XVII tinha a Urgueira 40 fogos e 160 almas e actualmente 184 fogos e 739 almas. Em 1768 tinha já 96 fogos, donde se vê que a população aumentou consideràvelmente.
Aldeia de Santo António dista da Urgueira talvez 400 metros. Esta última está exposta ao Poente.
O cemitério está contíguo ao caminho de Sortelha e deve estar a igual distância das duas povoações.
Da freguesia fazem parte, além das povoações da Urgueira e Aldeia de Santo António as seguintes povoações, lugares e quintas ou casais: Amiais, Alagoas, Paã, Coço, Corolejo, Moinhos, Pateira e do Silvestre.
Depois da Aldeia de Santo António e Urgueira as povoações mais importantes são os Amiais, seguindo-se-lhe as Alagoas. Ambas são povoações mimosas e abundantes em quási todos os produtos agrícolas, atenta a bondade dos seus terrenos e abundância de águas, havendo por isso bons lameiros e pastagens. Tanto nelas como nas restantes povoações e lugares há abundância de centeio, milho, batata, feijão e grão de bico.
Nas quatro principais abundam os soutos de castanheiros e existem muitas árvores frutíferas e carvalhos, aproveitados para combustível, assim como giestas e um arbusto a que dão o nome de urgueira, que cobre as encostas que tocam nos limites de Santo Estêvão e Malcata, o qual deu origem ao nome da freguesia.
Pelo que acabamos de expor vê-se que o terreno não é estéril, como afirmaram antigos corógrafos, ou porque o clima se modificasse ou porque ao tempo em que êles escreveram se descurasse a cultura dos campos.
Agora exporta batata, centeio, castanha e outros géneros. Tem bastante gado lanígero, algum capríno, vacum e suino.
Como já dissemos, a freguesia tem oficialmente o antigo nome de Urgueira, mas é mais conhecida por Aldeia de Santo António e na vila do Sabugal tem ainda outro nome: a Freguesia, de sorte que ir à Freguesia é ir a Aldeia de Santo António.
A Urgueira era realengo do conde de Sortelha. Neste limite há ainda um sítio denominado Reguengo, cujos terrenos foram há muitos anos divididos pelos vizinhos da freguesia e cremos que do Sabugal. Ora da mor parte desses terrenos já se haviam apropriado muitos paticulares. Fôra reguengo da Coroa pagando de nove um.

Sepulturas em rochas
Existem ainda, no limite de Aldeia de Santo António, algumas sepulturas abertas em barrocos, nome dado aos rochedos, que abundam ali.
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É natural da freguesia da Urgueira o Sr. Dr. José Osório Dá Mesquita de Oliveira Homem, formado em direito pela Universidade de Coimbra em 1879. Depois de ter sido delegado do Procurador Régio em diferentes comarcas, foi promovido a juiz de Direito, tendo servido, além doutras comarcas, em Almeida e Vieira.
Foi sempre muito respeitado pela sua ilustração e belo carácter. Nasceu em Aldeia de Santo António e depois de concluir a formatura em Direito foi durante alguns anos advogado no Sabugal e por muito tempo Administrador do Concelho.
Era também natural desta freguesia o falecido P.e Miguel Nabais, que foi pároco em Valongo e Santo Estêvão, onde faleceu em 1900. É sobrinho dêle o P.e Manuel Nabais, que foi pároco na Bemquerença e, depois de ter sido coadjutor do falecido abade P.e António José Bigotte, foi colado abade do Sabugal em 1906, tendo feito permuta com o último, que fôra nomeado pároco para uma freguesia do Patriarcado.
Natural de Aldeia de Santo António é também o Sr. Joaquim Osório Dá Mesquita, irmão do Dr. J. Osório Dá Mesquita e de António Mesquita.
Joaquim Osório Dá Mesquita deve ser um pai feliz como poucos, como pode concluir-se da notícia inserta num jornal (Amigo da Verdade) de 20 de Outubro de 1929: «Estiveram nesta povoação os Ex.mºs Srs. Joaquim Mesquita e sua Ex.ma espôsa Sr.a D. Isabel Mesquita, e seus filhos, os Sr. Dr. Diogo Mesquita, Delegado no Pôrto, João Mesquita, escrivão da Boa-Hora, em Lisboa, tenente Joaquim Mesquita, funcionário do Ministério da Guerra, ALexandre Mesquita, professor do Liceu Passos Manuel, em Lisboa, D. Maria de Lourdes, doutorada em Filosofia, e D. Ermelinda Mesquita». Que título de glória e que exemplo de amor pela instrução dos filhos!
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Joaquim Manuel Correia

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