Memórias sobre o Concelho do Sabugal (54)

:: :: SOUTO :: :: O livro «Terras de Riba-Côa – Memórias sobre o Concelho do Sabugal», escrito há mais de um século por Joaquim Manuel Correia, é a grande monografia do concelho. A obra fala-nos da história, do património, dos usos e dos costumes das nossas terras, pelo que decidimos reproduzir a caracterização de cada uma das aldeias nos finais do século XIX, altura em que o autor escreveu as «Memórias».

Capela de Santo Amaro - Soito - Sabugal - Censos 1758 - Capeia Arraiana

Capela de Santo Amaro – Soito – Sabugal

Eis aqui uma povoação que, em poucos anos, a ser verdadeira a estatística, de simples logarejo, que era no século XVIII, se transformou numa das maiores e mais florescentes de todo o concelho. De presumir é mesmo que fôsse em tempos não muito remotos insignificante povoado, não só por que fazia parte da freguesia da Nave, mas sobretudo porque os antigos corógrafos nem dela dão notícia, apesar de fazerem menção de Aldeia da Dona e Foios, actualmente sem importância, como pode ver-se nas Corografias de Portugal de Cardoso e Carvalho e no «Portugal Antigo e Moderno» do falecido Pinho Leal.
Era um simples cura da apresentação do Reitor da Nave. Em 1593 era cura do Souto o Pe João Antunes.
O Souto fica na margem direita duma ribeira a E. do Sabugal, de que dista 12 quilómetros. Quem quiser visitar o Souto, partindo do Sabugal, tem de atravessar as povoações da Torre e de Ozendo, pelo caminho antigo.
No século XVIII tinha apenas 36 fogos e em 1889 tinha 390, tendo em 1945 mais de 600. São extensos os limites do Souto, confinando com os da Nave, Quadrazais, Vila Boa, Vale de Espinho, Foios, Aldeia Velha e Alfaiates. Foi objecto de litígio o limite do Souto e Alfaiates no sítio denominado Vilares.
Antes da Junta de Paróquia desta freguesia intentar uma acção contra a Junta da outra Paróquia e alguns particulares do Souto, tinha havido muitas desordens entre as duas povoações, cujas conseqüências foram trágicas, pois que tão irritados estavam os ânimos que foram cometidos excessos de parte a parte, sendo instaurados processos por crimes, respondendo alguns indivíduos.
Convencidos de que por aquêle meio, pela violência e perseguição, mal poderiam conseguir os seus intentos, foi posta uma acção em juízo, que nunca chegou a ser julgada. Foi advogado dos autores o falecido e distinto causídico Dr. José Aureliano de Matos, a êsse tempo residente na Guarda e dos réus quem escreveu estas linhas. Era escrivão o falecido Francisco de Almeida Carvalho. A questão parou por falta de preparo.
Os Vilares eram compostos de vastos e excelentes terrenos, quási todos incultos. Os de Alfaiates começaram arroteando e os do Souto seguiram-lhes o exemplo. Aquela imensa charneca foi ràpidamente transformada pelas duas povoações e como ambas considerassem sua uma grande parte dessa extensa área de terreno, foi esta disputada palmo a palmo, donde resultou cada uma defender-se de modo que ali correu muito sangue.
Nem os processos crimes instaurados, nem a acção que foi intentada resolveram a questão, ou puseram têrmo às ambições dos dois contendores, pelos motivos que expusemos. O certo é que o terreno está arroteado e de posse dêle estão muitos vizinhos, apesar de estar paralisada, e para sempre, cremos, aquela acção (1). E, o que é mais curioso, não houve mais desordens e nos terrenos questionados colhem-se belos frutos, muito centeio e trigo e grande porção de batata.
:: ::
A povoação é muito rica, porque é trabalhadora, e tem muito onde trabalhar nos seus pequenos limites, onde há ricos e férteis terrenos e boas pastagens.
Outrora havia muitos e grandes rebanhos de gado lanígero e caprino, cujo decrescimento é devido ao facto de terem sido arroteados grandes tractos de terreno maninho, onde os gados eram apascentados. Nas frescas margens da ribeira que banha o Souto existem riquíssimas várzeas e lameiros e nelas e noutros muitos sítios do limite produzem-se abundantíssimas cearas de trigo, centeio, milho (2), grande porção de batata e castanha (3), que exporta para Lisboa e Pôrto e que é de boa qualidade. Produz também bom linho e legumes (4).
O rigor do clima obsta a que ali haja muitas árvores frutíferas. Abundam, porém, os castanheiros, de que há grandes soutos e aparecem já algumas vinhas, cujo vinho é regular, embora pouco maduro (5).
O mostajeiro abunda também no limite do Souto, enfeitando os campos com uma folhagem ornamental e com os frutos avermelhados, mais agradáveis à vista do que ao paladar.
Muito tem contribuído para o aumento da produção o emprêgo da cal e da cinza nos terrenos que cultivam (6).
Os produtos agrícolas são transportados em grande escala pela linha férrea da Beira Alta, despachados na estação da Cerdeira, que fica no extrêmo do concelho, a confinar com o da Guarda (7).
Dissemos que actualmente há menos gado lanígero e caprino, o que, todavia, não pode significar que não haja ainda muitos gados destes e doutros, como bovino e suino. Efectivamente há no Souto muitas juntas de bois e vacas e muito gado suino, pois que ali, como na mor parte das freguesias do concelho, quási todos os vizinhos têm porcos.
A mor parte dos lavradores e proprietários abastados têm éguas para criação e cómodo pessoal e os que não podem ter égua têm jumenta para os mesmos fins.
Há muitos anos que no Souto tem havido pôsto hípico, onde geralmente havia bons exemplares de cavalos e jumentos reprodutores, especialmente destes, que em geral eram comprados na cidade de Zamora por preços elevados (8).

Indústria de tecidos
Houve outrora no Souto a indústria de tecidos de lã, sendo cardada, fiada e tecida a lã das ovelhas ali criadas.
Maranha se chamava ao tecido fabricado em quási todas as casas. Tingiam-no de azul ou preto ou encarnado e dêle fabricavam os mantéus, as cintas e mantilhas e saiotes para todas as mulheres; dêle se fabricavam as pantalonas, os coletes (sertuns) e jaquetas (véstias) dos homens do Souto. Êsses tecidos eram também exportados, assim como as mantas de lã. Depois veio a moda, e as mulheres do Souto, que são das mais formosas e esbeltas do concelho, puzeram de parte os grossos mantéus e características cintas grosseiras, ainda usadas pelas mulheres idosas, que substituiram por finas chitas e lãs, às vezes compradas a contrabandistas, assim como os saiotes e merinilhas. Mas ainda hoje no Souto a mulher fabríca o linho para as suas camisas e coletes e para as ceroulas e camisas dos homens.

Tecedeiras de linho
Efectivamente há no Souto boas tecedeiras, que tecem bem linho para toalhas, camisas, lençois e guardanapos e cobertas com lindos desenhos em relêvo ou felpudos e guardanapos e toalhas de manténs, tudo muito apreciado.

Mercado
Num dos domingos de cada mês (primeiro) realiza-se no Souto um mercado de gados, quási sempre muito concorrido (9).

Igrejas e capelas
No centro da povoação existe uma boa igreja paroquial construída há poucos anos no mesmo local da antiga, porque esta não tinha espaço suficiente para a população da freguesia.
Nada podemos dizer de visa a respeito dela porque nunca fomos ao Souto depois que foi edificada, em 1904, segundo nos informaram.
O orago é N.ª S.ª da Conceição.
A antiga igreja tinha além do altar-mor os laterais, todos regularmente ornados.
Rendimento paroquial, segundo declarou o falecido pároco Pe Manuel Garcia:
Côngrua, 80000 réis; Rendimento do passal, Lameira da Relva, 4500 réis; Pé de altar, 190840 réis; Casamentos, 480 réis; Batisados, 200 réis; Enterramentos de menores, 200 réis. Bem d’alma, 3000 a 18000 réis. Total, 280.340 réis.
Existem no Souto e nos limites muitas capelas, além da igreja da Misericórdia, à saída da povoação, contígua ao cemitério paroquial. A Misericórdia tém de rendimento a quantia de 70000 réis, proveniente de bens próprios, juros e inscrições, não fazendo dispêndios com beneficência em virtude desses pequenos recursos.

Breve notícia a respeito de alguns filhos do Souto
Dr. Manuel Nunes Carvalho Garcia, formado em teologia, que foi cónego da sé da Guarda e professor do seminário e depois colocado na sé de Évora, homem de verdadeiro valor intelectual e moral, sempre muito considerado por todos. Faleceu em 29-Dezembro-922 em Lisboa, sendo o cadáver transportado para o Souto.
Padre João Garcia, irmão dêle, que viveu em Lisboa, como capelão duma capela particular, falecendo ali, e cujos restos mortais foram trasladados para um jazigo mandado construir no cemitério do Souto. Deixou aos parentes uma avultada fortuna.
P.e Bernardo Garcia, irmão dos eclesiásticos de quem acabámos de dar uma rápida notícia. Foi capelão durante muitos anos no Ozendo e na Torre. Era muito espirituoso e versejava com muita graça.
P.e Manuel Nunes Garcia, ou P.e Manuel Garcia, como ultimamente assinava. Parente dos anteriores e irmão do Dr. Bernardo Nunes Garcia. Foi pároco do Souto por óbito do seu antecessor, que era também desta freguesia. Era muito estimado dos seus fregueses, que reconheciam nêle um bom pastor e belíssimo carácter. Faleceu em 1905.
P.e Bernardo Hilário Nunes, pároco da freguesia da Nave e seu irmão, José Nunes pároco em Aldeia do Bispo, irmãos de António José Nunes, professor do Souto durante muitos anos.
P.e João Antunes, pároco da Bismula, onde faleceu em 1904.
Dr. Bernardo Nunes Garcia, formado em Direito em 1884. Foi administrador da Guarda e depois nomeado delegado para o Ultramar. Promovido a juiz, esteve em Luanda, Cabo Verde, Tete e Salsete, sendo promovido a I.a instância e colocado na Relação de Gôa, de que foi presidente em 1907 e 1908. Em Outubro de 1908 foi colocado na Relação do Pôrto. Faleceu a 27-Setembro-915, sendo senador pela Guarda, juiz da Relação de Lisboa e presidente da comissão central da execução da lei da separação do Estado da Igreja.
Dr. João José da Fonseca Garcia. Foi administrador de Abrantes e advogado e notário no Sabugal. Foi senador e mais tarde colocado no Crédito Predial, como advogado.
P.e Júlio Garcia, irmão do Dr. Manuel Nunes Garcia, sobrinho do Dr. Bernardo Nunes Garcia. Foi-lhe dada carta de encomendação para paroquiar em Badamalos, depois de concluir o curso do seminário da Guarda.
P.e Manuel Gomes. (?) Vigário do Souto.
P.e João Carvalho. Foi durante muitos anos professor da freguesia de Aldeia do Bispo, até se jubilar, indo depois residir na terra da sua naturalidade, o Souto, onde tomou conta duma chapelaria. Afável e obsequiador, foi sempre muito estimado (10).
P.e Joaquim A. Fonseca. Foi pároco em Vale das Éguas, por falecimento do P.e João Correia, que morreu da queda de uma égua.
Dr. Manuel Nunes Garcia. Filho de José N. Garcia e sobrinho do Dr. Bernardo Nunes Garcia. Formou-se em Direito, exercendo a advocacia no Sabugal, onde foi notário, sendo colocado em Braga, onde faleceu em 21 de Outubro de 1922. Formou-se em Direito em 1891.
Dr. António Garcia da Fonseca, irmão do Dr. João José da Fonseca Garcia, formado em direito (11).
Dr. Alfredo Lopes, médico.

Notas:
(1) – Todos os terrenos de Vilares pertencem hoje a pessoas do Souto, por sucessivas aquisições.
(2) – Actualmente predomina o centeio e batata.
(3) – O nome do Souto provém da grande abundância de castanheiros, cuja cultura tem sido cuidada, pela substituição dos pés que morrem.
(4) – Actualmente muito reduzida.
(5) – A macieira e a pereira estão a desenvolver-se muito, apesar das geadas.
(6) – Actualmente são usados adubos.
(7) – Actualmente o tráfego é para o Barracão.
(As notas antecedentes foram fornecidas pelo conselheiro Dr. Antônio Garcia da Fonseca).
(8) – Havia no limite do Souto muitos terrenos de que eram donatários os alcaides do Sabugal pagando de doze um, e outros mais pertencentes a comendas, o que sucedia em várias povoações do concelho. Os condes de Rezende tinham ali propriedades importantes de que eram senhorios directos. Os enfiteutas estiveram muito tempo sem pagar os juros, do que tivemos conhecimento, pouco antes de nos domiciliarmos nas Caldas da Rainha, porque a Ex.ma Sr.- D. Maria Benedita de Castro Osório nos dera procuração para demandar os foreiros desta e doutras freguesias, que foi, pela indicada razão, substabelecida ao Ex.mo Sr. Dr. João da Fonseca Garcia. Aquela ilustre senhora, filha do Conde de Rezende e viúva do malogrado e distinto poeta Dr. Luiz Osórío, residia em Penamacor.
(9) – Actualmente o mercado não se limita a gados, mas abrange todos os produtos.
(10) – Fêz parte da guerrilha do Padre João Barrocas, tendo o posto de oficial.
(11) – Actual Juiz Conselheiro do Tribunal de Contas.

:: ::
Joaquim Manuel Correia

One Response to Memórias sobre o Concelho do Sabugal (54)

  1. José Morgado diz:

    Jose Morgado Morgado Amigo Carlos gostaria que reportasses as tuas investigações sobre a origem do Soito tão diferentes daquelas que há um seculo foram efectuadas pelo Dr Joaquim Manuel Correia da Ruvina.

    20/3 às 20:34 · Gosto · 1
    ..

    Ticarlos Do Soito Amigo Jose Morgado Morgado: A verdade está sempre para além de qualquer investigação e os números do Padre Carvalho acerca do Soito estão errados sem que se saiba porque razão: Em 1527 o Soito já era o principal lugar do termo do Sabugal com 160 moradores e em 1700 o numero de baptismos era igual ou semelhante aos de outros povos a quem o Padre Carvalho dava numeros três ou quatro vezes superiores. Basta ver os seguintes: Soito 36 fogos: 31 baptismos, Quadrazais 220 fogos: 31 Baptismos, Alfaiates 130 fogos: 31 baptismos, Rendo 110 fogos:23 baptismos, Aldeia da Ponte 115 fogos: 28 baptismos, Ruivós 100 fogos:9 baptismos e Vilar Maior (termo) 120 fogos 40 baptismos. Seria erro ou algum numero ilegivel? Nunca se saberá!!! A verdade é que o Soito, a par de Quadrazais, foram desde o século XVI até ao último quartel do seculo XIX, os povos com mais habitantes e só a partir daí o Soito se elevou ainda mais. Um abraço

Deixar uma resposta