Memórias sobre o Concelho do Sabugal (53)

:: :: SORTELHA (conclusão) :: :: O livro «Terras de Riba-Côa – Memórias sobre o Concelho do Sabugal», escrito há mais de um século por Joaquim Manuel Correia, é a grande monografia do concelho. A obra fala-nos da história, do património, dos usos e dos costumes das nossas terras, pelo que decidimos reproduzir a caracterização de cada uma das aldeias nos finais do século XIX, altura em que o autor escreveu as «Memórias».

Uma das portas de Sortelha

Uma das portas de Sortelha

Notícia de vestígios da existência do homem pré-histórico nos limites de Sortelha
Em vários pontos de Sortelha têm aparecido instrumentos incontestàvelmente pertencentes aos habitantes da idade da pedra.
Vários escritores antigos referem a existência dum dólmen em Sortelha. Tendo-o procurado em vão, convenci-me de que se tratava dum curioso monumento existente próximo do caminho de Sortelha para Bendada, na Quinta dos Vieiros, pertencente ao Sr. Conde de Tarouca. Ali fomos visitar êsse gigantesco monolito, existente no sítio denominado Pedra Furada.
Há quem afirme que êsse enorme rochedo com os seus suportes, em que dum lado se apoia, não deve considerar-se uma anta ou dólmen. Que andou ali a mão possante do homem é facto de que não pode duvidar-se; que o colosso tem sido considerado um dólmen é tambem averiguado.
Nós apenas diremos que há em França muitos semelhantes, até muito maiores, assim como na Dinamarca. Deste colosso curiosíssimo demos já notícia circunstanciada a pág. 24 do V. X do «Archeologo Portuguez».
Nessa mesma revista e igual página e na seguinte demos notícia duma enorme Lapa, que vamos transcrever:
«A pequena distância de Sortelha existe, perto do caminho que liga o Arrabalde à Ribeira da Azenha e à esquerda de quem desce, a 200 metros pouco mais ou menos das muralhas da vila, ao norte destas, uma espaçosa lapa sob um enormíssimo penedo granítico, que deve ter sido um belo abrigo ou habitação do homem pré-histórico.
«O que torna notável este abrigo, assim como outro que está um pouco mais abaixo, e à direita do referido caminho, é a existência de cavidades a um metro de altura, pouco mais ou menos, na parede da lapa e à esquerda quando se entra na primeira, abertas sinuosamente no granito, tendo cinco ou seis decímetros de profundidãde. A que examinei começava numa fossa pouco profunda, donde partiam duas aberturas em direcção oposta, ambas igualmente sinuosas. .
«Qual o fim a que eram destinadas, será objecto de conjecturas; mas parece natural que fôssem feitas para servirem de esconderijos, onde guardassem os machados, as setas, os raspadores e talvez os restos de rezes mortas, e as jóias mais estimadas.
Destes buracos, onde cabe um braço à vontade, havia muitos em toda a encosta de Sortelha, vendo-se vestígios de alguns em paredes fendidas, que dão a idéia da sinuosidade que descrevem.
«Parece fora de dúvida que foram praticados por mão do homem nos
tempos pré-históricos, pois que não pode admitir-se a hipótese de terem sido feitos por aves para servirem de ninhos… No rochedo que forma a lapa existem também pequenas fossas, talvez comêço doutras iguais às primeiras, de cuja continuação o artista desistisse, porque o perfurador ou o machado e o escopro de silex não vencessem a resistência da pedra.
Não conheço nada igual, nem tenho visto notícia de obra semelhante e por isso não sei se tais cavidades teriam ou não a aplicação que eu presumo.
«Fossas pequenas existem em vários penedos, que vulgarmente chamam barrocos em todo o concelho do Sabugal, sobretudo em Pena Lobo, Sortelha e Ruvina, assim como cúpulas, algumas de grandes dimensões e de fabrico intencional; mas nada se parecem com estes esconderijos, a que chamarei escaninhos do homem pré-histórico».
Em nota ao mesmo artigo sustentámos que, ao contrário do que a respeito de fossas semelhantes sustentara o nosso amigo e ex-condiscípulo Dr. Félix Pereira, as julgávamos artificiais, por não poderem ser devidas à acção das chuvas, nem dos agentes atmosféricos, como sucede a algumas junto do Côa, ou do mar, e por obedecerem ao mesmo desenho e andarem associadas a outras cavidades e finalmente por existirem em sítios onde viveu o homem pré-histórico e cuja passagem ficou assinalada por fossas iguais, em parte destruídas, como se vê noutros pontos próximos de Sortelha».
Depois de escrito aquêle artigo vímos vestígios de cavidades iguais na Ruvina, no sítio da Cancela e Barroco do Paio e Gorgolicha ou Làginhas.
À direita de quem sai da porta ocidental de Sortelha e a pequena distância, observámos uns rochedos curiosos na direcção de Pena Lôbo, um dos quais dá um perfil regular dum homem.
Será o perfil um efeito do acaso, como do acaso resultam as imagens que por vezes se desenham nas nuvens, representando animais em curiosas e variadas atitudes; mas nada admirava que ali houvesse o trabalho do homem. Nas ilhas da Páscoa apareceram gigantescas figuras humanas e tão curiosas e abundantes eram que foram transportadas algumas para França, o que de modo algum quer dizer que esta esteja neste caso.

Sepulturas em rochas
No vasto lagedo que cerca a igreja de Sortelha existem seis sepulturas feitas em tempos imemoriais, talvez na época do domínio romano. Quatro dessas pias sepulcrais estão ao norte da igreja, muito perto umas das outras e duas do lado do nascente, igualmente muito próximas e paralelas, tendo estas digno de nota o terem menos de um metro de comprimento. Foram por certo feitas para crianças e são as únicas que temos visto daquele tamanho.

As muralhas
Já nos referimos às muralhas de Sortelha. Tem havido quem afirme haver ali obra dos Romanos, o que não é muito aceitável.
É natural que datem do tempo de D. Sancho I, sendo certo que foram depois várias vezes restauradas.
Actualmente estão muito arruinadas, sobretudo do lado Sul e Poente. Oferece, todavia, um aspecto imponentíssimo, difícil de descrever, êsse conjunto de muralhas desmanteladas, entre rochedos colossais.

A vila de Sortelha em 1527
Cadastro da população
A vila e têrmo tinha 333 moradores. No têrmo tinha 15 lugares. População da vila, dentro dos muros, 48 moradores. Lugares eram os seguintes:
Santo Estevam, 76 moradores; Santo Antonio, 15 moradores; Malcata (Malcata hoje), 13 moradores; Pena Lobo, 24 moradores; Bemdada, 48 moradores; Casteleiro, 52 moradores; Mouta, 42 moradores; Aquyntam de cyricota (?), 4 moradores; Aquyntam d’agoas bellas, 12 moradores; Aquyntam de Vali mourysco, 7 moradores; Aquyntam dos amos (?), 3 mo- radores; Aquyntam da pãm, 2 moradores; Aquyntam do azyuall (?), 3 moradores; Aquyntam do ameall, 2 moradores e o casal do duram da rua, 1 morador.
«E a dita Villa tem de termo em comprido seis legoas e em largo trez legoas parte e comfronta com ho termo da cidade da goarda que estava pera o norte e da dita Villa á dita cidade sam quatro legoas e aonde se parte o ho termo ha legoa e meia e assy parte e comfronta com a Villa de bellmomte e ha de huuma Villa a ouutra duas legoas pera ho poente e ainda se partem os termos huuma legoa e assy parte e comta com a Villa da covylham e ha de huuma vylla a ouutra quatro legoas aonde se parte ho termo huuma legoa e assy parte e comfronta com a Villa de penamacor e de huuma Villa a ouutra são tres legoas e omde se parte ho termo haa huua legoa e assy parte e comfronta com o reyno de Castella cinco legoas e parte com a villa do sabugal e ha de huuma villa a outra duas legoas e tamto tem de termo pera dita vylla (sic) chega o termo a dita vylla pelo ryo de coa, que vay pegado nos muros do sabugal e assy parte e comfronta com a vylla de touro e tem de termo pera Ilaa legoa e mea, o sabugal jaz pera o nacente e o touro mais pera o norte).
(Ver pág. 103 do «Cadastro da População do Reino», publicado em 1921 por João Tello de Magalhães Collaço).
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Joaquim Manuel Correia

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