Memórias sobre o Concelho do Sabugal (50)

:: :: SORTELHA 3 :: :: O livro «Terras de Riba-Côa – Memórias sobre o Concelho do Sabugal», escrito há mais de um século por Joaquim Manuel Correia, é a grande monografia do concelho. A obra fala-nos da história, do património, dos usos e dos costumes das nossas terras, pelo que decidimos reproduzir a caracterização de cada uma das aldeias nos finais do século XIX, altura em que o autor escreveu as «Memórias».

O pelourinho de Sortelha

O pelourinho de Sortelha

O concelho de Sortelha
Esta vila foi sede de concelho até 1855, em cujo ano passou a fazer parte do concelho do Sabugal.
Compunha-se das freguesias de Sortelha, Casteleiro, Santo Estêvão, Moita, Malcata, Aldeia de Santo António (Urgueira), Pena Lôbo, Bendada, Pousafoles, Aguas Belas e Lomba dos Palheiros.
Em 1842 tinha, pois, as seguintes freguesias e fogos:
Aguas Belas, 130 fogos; Bendada, 151 fogos; Casteleiro, 148 fogos; Santo Estêvão, 126 fogos; Malcata, 100 fogos; Moita, 53 fogos; Pena Lobo, 90 fogos; Sortelha, 155 fogos; Urgueira, 100 fogos; Lomba, 51 fogos e Pousafoles (Posafolles), 184 fogos, somando todas as freguesias, 1.288 fogos.
Pertencia então ao Distrito de Castelo Branco.

Igreja paroquial
Quási ao centro da vila destaca-se a igreja paroquial edificada sobre enormes lagedos graníticos nos quais foi cavada a escadaria, sendo parte dos rochedos aproveitados na parede do templo, que tem regulares proporções. Sobre a vêrga da porta principal lê se uma inscrição com a data em que foi edificada esta igreja (1373?).
Tem cinco altares e, a não ser o altar-mor, que é muito antigo e de bela obra de talha, nenhum dos outros merece menção especial. O côro, toscamente construído, oferece, todavia, as necessárias comodidades. A sacristia é regular e nela vimos bons paramentos e alfaias pertencentes à igreja. O orago da freguesia é N.ª S.ª das Neves (Santa Maria).
O vigário era outrora da apresentação da comenda de Cristo e do rei. O rendimento paroquial segundo costume imemorial é o seguinte:
Côngrua, 120.000 reis; pé de altar, 50.000 reis; passal, 2.000 reis; casamentos, 240 reis; baptisados, 480 reis; enterramentos de menores, 160 reis; bens de alma, 4.360 a 10.000 reis.
Estas notas foram fornecidas à comissão criada por decreto de 30 de Dezembro de 1890 pelo pároco padre José Agostinho Pereira.
Dissemos que o vigário era da apresentação da comenda de Cristo e do rei. Nem todos sabem a significação da palavra comenda e por isso dela vamos dar uma notícia. Defensores, comendadores e comendadeiros, eram os nomes dados a indivíduos das classes nobres a quem os grandes mosteiros e catedrais encarregavam de defender e amparar e povoar as muitas terras que possuíam.
Não só os mosteiros e catedrais, mas também os hospitais, tinham seus provedores, directores e curadores, depois chamados comendadores, porque se lhes encomendavam os bens e rendas, cujas sobras, a cada passo, eram apenas o destinado aos enfêrmos e necessitados.
Alguns destes comendadores, sem escrúpulos, lançaram mãos desses bens, considerando-os exclusivamente seus, ficando os mosteiros e igrejas privados dêles. (v. «Elucidário» de Viterbo).

Escolas
Existem há muitos anos escolas de ensino elementar em Sortelha sendo muito tempo professor da cadeira do sexo masculino o falecido Pe José Luis de Matos, a quem sucedeu a afilhada, D. M. Lucinda de Matos. Da escola do sexo feminino era ao mesmo tempo professora D. Maria Soares Morgado, também dali natural.
Em 1853 havia já escola de ensino primário, tendo o professor o ordenado de 20000 réis!
Em igual época era o ordenado do Recebedor do concelho de 9000 réis, o do Escrivão da Câmara de 60000 réis, o do Administrador de 40000 réis.

Ermidas e capelas
Na parte ocidental da vila, extramuros, a pequena distância da porta principal, está a ermida de Santiago. A imagem deste Apóstolo assenta sobre um altar ordinaríssimo. O santo encosta-se a um bordão e leva na mão uma cabaça e um livro.
O cemitério paroquial é contíguo a esta ermida. Foi construído em 1889, à custa do povo e da Misericórdia. No centro vimos um jazigo, onde repousam os restos mortais de Fernando S. Pinto Mascarenhas Castelo Branco, mandado construir pela viúva, D. Luiza Sacadura.

Igreja da Misericórdia
A pequena distância desta ermida de que acabámos de falar, vê-se igreja da Misericórdia, que outrora parece ter sido a matriz da vila, o que parece verosímil, porque nos afirmaram ter dali sido retirada há poucos anos uma pia baptismal.
Tem a igreja três altares, muito antigos e de boa talha, nos quais se vêem algumas imagens, como as de Santa Rita e S. João, que devem ter sido obra de bons artistas.
O púlpito é também muito regular.
É mesquinho o rendimento da Misericórdia de Sortelha, proveniente. de inscripções, tendo além disso os anuais dados pelos Irmãos, tudo na importância de 141.840, dispendendo 19.000 réis em actos de beneficência.
Outras ermidas existem ainda em Sortelha mas limitar-nos-hemos a fazer delas menção. Referimo-nos às ermidas de S. Sebastião, Santo António e Santa Catarina, todas extramuros. Destas e outras, como a da Senhora da Graça, era a Câmara fabriqueira.
Fazem parte da freguesia de Sortelha as seguintes povoações e quintas:
Arrabalde, Quarta Feira, Quinta da Azenha, Caldeirinhas, Vinho Redondo, Vieiros, Serra do Porco, Ribeira da Cal, Carcola, Peixoto, CarvaIhal, Redondo e da Ribeira da Nave. Em quási todas há vinhas, oliveiras e outras árvores frutiferas, porque o clima é mais doce aqui do que na margem direita do rio Côa;
Daremos alguns esclarecimentos a respeito das principais.

Arrabalde
É este o nome dado à povoação que fica nas faldas do monte onde se ergue a antiga Vila de Sortelha. Era ali que várias famílias ilustres tinham seus solares.
O Arrabalde contrastava completamente com a vila, não só por naquele existirem bons edifícios, mas, ainda e principalmente, porque está em sítio mimoso, extremamente pitoresco, onde a vegetação é luxuriante, havendo ali belíssimas propriedades rústicas, entre as quais são dignas de menção as pertencentes ao Ex.mo Sr. Dr. Aurélio Santos e um pouco mais a nascente a vasta vivenda e quinta que foi do falecido e já mencionado Fernando S. P. M. Castelo Branco, pertencente agora aos filhos ou à Ex.ma Sr.a D. Luiza Sacadura, casada em segundas núpcias.
A casa de residência do falecido proprietário José Carlos, hoje pertencente ao sobrinho, Dr. Aurélio Santos, é antiquíssima e vasta, com grandes e boas acomodações, embora sem os primores das modernas construções. No tecto do salão nobre, vimos as armas das famílias Correias e Oliveiras, em madeira.
É digna de menção especial a capela desta casa, cujas paredes e tecto são revestidas de quadros a óleo, alguns de merecimento e valor artístico. Quando faleceu o antigo senhor desta casa não apareciam as pratas e dinheiro, cuja existência era notória. Depois de várias buscas em vários pontos da casa encontraram tudo na urna desta capela, aparecendo também um precioso cálice de ouro, o que nos constou há poucos anos ainda, sem podermos garantir o boato.
Perto desta vivenda há outra, hoje pertencente ao mesmo proprietário, chamada a casa de Santo António. É um palacete elegante e bem construído, mas quási abandonado. Quando o visitámos vivia lá gratuitamente uma família de Sortelha.
Ali vimos ainda uma boa capela, tendo um rico altar, de boa talha, que não chegou a ser pintado, não averiguámos porque motivo, mas deve ter sido por dali ter retirado o antigo proprietário ou por falecimento deste.
A direita de quem entra vê-se um bom jazigo de granito, primorosamente feito, no qual vimos a seguinte inscrição:
JAZIGO DOS OSSOS
DO CAPITAM MAYOR
M.EL DA COSTA CAST
EL Br.Cº DESTA U.a FAL
Leo. A 15 DE 7 B.bro D
E 1708. FEZ VINCULO
DE SEUS BENS E SE ACHARÁ
NO CART.º DA CAMERA DESTA U.ª
Pela data do falecimento do capitão-mór Manuel da Costa Castel Branco em 15 de Setembro de 1708, se descobre o motivo da falta da pintura do rico altar e a razão porque tudo o mais ficou incompleto.
Para a época em que esta casa foi construída pode dizer-se que estava com luxo. Pena é que fosse votada ao abandono pelo facto de ter perdido toda a importância a Vila de Sortelha, depois que foi extinto o seu concelho.
Perto deste palacete abandonado há uma grande cêrca e uma outra casa chamada Casa dos Hóspedes, cujo nome é bem sugestivo, indicando a importância e sentimentos dos antigos donos, verdadeiros beirões, hospitaleiros. Duma outra casa faremos ainda menção, a qual se encontra à beira do caminho e à esquerda de quem sobe para Sortelha.
Pertenceu a António Ferreira Ferraz… governador desta comarca em 1671, e por êle mandada fazer, como se lia na respectiva inscrição, que há anos foi arrasada, assim como o brazão de armas que a sobrepujava, porque o actual possuidor não quiz sujeitar-se ao pagamento de contribuição pelo uso de brazão de armas, vexame que devia ter sido prevenido pelos legisladores, que assim podiam evitar que tantas cousas antigas desaparecessem.
É encantador o panorama que do Arrabalde se disfruta e surpreendente a vista da antiga fortaleza, cujas altas muralhas derrocadas e sobre tudo a cidadela com a torre de menagem erguida sobre um elevadíssimo penhasco do monte, cortado a pique, produzem no espírito uma singular impressão.
Mui digno de visitar é pois este sítio, especialmente para um artista, que ali poderia admirar êsse quadro maravilhoso.
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Joaquim Manuel Correia

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