Memórias sobre o Concelho do Sabugal (49)

:: :: SORTELHA 2 :: :: O livro «Terras de Riba-Côa – Memórias sobre o Concelho do Sabugal», escrito há mais de um século por Joaquim Manuel Correia, é a grande monografia do concelho. A obra fala-nos da história, do património, dos usos e dos costumes das nossas terras, pelo que decidimos reproduzir a caracterização de cada uma das aldeias nos finais do século XIX, altura em que o autor escreveu as «Memórias».

O castelo de Sortelha

O castelo de Sortelha

Sortelha foi mandada povoar por D. Sancho primeiro, de Portugal, a vindo para ali gente de várias terras, especialmente de Valência, atraída pelas garantias e privilégios que sempre eram concedidos aos povoadores.
Os seus limites vêm assim descritos no foral: «Incipiunt termini de Sortilia: In primo de Lavacolos per portum de monte sancto et deinde per pregam de siluestri, inde per semedurum veterem ad serram de opa, quomodo vertet aquas pro in termino de Sortilia, et inde ad rostum de opa quomodo vadit in directum ad locum ubi intrat meimoa et deinde quomodo vertit aquas de Saloma (Paloma 7) ad regnum Portugal: et inde ad capitam de panegas, deinde ad riparium de pousafaltes, sicut intrat in fluvium boy, et fluvius boi quomodo intrat in coa. Habeatis vos terminas et posteritas uestra, sicut dedit populatoribus de Sortilia avus meus domino Rex Sancius. Et habeatis pro hereditate quantum clauditur infra terminas memoratos…»
Do mesmo foral vamos extractar ainda o seguinte:
«Homines Sortilia non dent pausatam contra suam voluntatem… non sint major domi neque servituales contra suam voluntatem…
Clerici ipsius ville sint liberi ab omni fisco laecali et habeant honorem et heriditatem, sicut milites, et non respondeant nisi per episcopum et archidiaconum…
Qui milites Sortilie desarmaverit de suis caballis, per fortiam, pectet mihi D solidos e duplet equum domino suo… Homines Sortilie prehendant montaticum de illis qui venerint pausare in suis terminis; de grege ovium IIII carnarios e de grege porcorum IIII porcos, de bruto vacarum lª vaca: istum montaticum si conciliri, et Xª eclesia…
Qui filiam alienam rausuraverit, de eam parentibus suis, et pectet in CC morabitinos (1) Vª palatio, et sit homicida…
De tota illa venda, qui venerit ad villam nostram, de pane, et de vino, et de carnibus, et de piscato, et de pomis, quando villa nostra fuerit minguata, nullus eam ante horam comparet sine mandata de alcaidibus; et si comparaverit pectet L. X.a solidos (2) alcaldibus et concilio, et VII palatio…
Junior vel servus qui vobiscum habitaverit uno afino, sit liber ipse et semen ejus Qui invenerit uxorem suam in adulterio cognito relinqueat eam et habeat omnia bana sua et pectet 1 denario: et si aliquis homo voluerit propter hoc ei male fecerit pectet D solidos ad concilium, ciciatur de villa pro traditore, et VII palatio.

Muitas mais disposições se encontram neste fora!, que foi reformado por D. Deniz (L. de D. Deniz, fl. 39, XI g. 15. M.º 3 M.º 7); por D. Manuel em 1-6 (Junho)-1510, estando em Santarém, achando-se este ainda no arquivo da Câmara do Sabugal, bem como o Tombo do extinto concelho, mandado organisar no tempo de Filipe II de Portugal ao Dr. Pedro Godinho de Carvalho, do desembargo de EI-Rei, no ano de 1″15, encarregado de prover com alçada sobre os bens dos concelhos e terças nas comarcas da Beira.

Excertos do Tombo
Tinha o concelho a renda das achadas, cuja terça pertencia ao rei, havendo os Escrivães das Achadas e juizes das Varas nas freguesias do termo do concelho.
«§ 22.°- Os officiaes da camara da villa do Sabugal tem obrigação em cada hum anno no dia que se assentar darem hum jantar aos officiaes da camara e outras pessoas da governansa desta villa de Sortelha, que com elles vão á dicta villa do Sabugal, e os juizes desta entrão lá quando vão a este jantar com as varas alçadas e com ellas assistem em quanto lá estam e depois do jantar o Procurador da Villa do Sabugal paga hum tostão de EI-rei D. Manuel ao Procurador do Concelho desta villa, que lho offerecerá em huma salva de prata perante todos; e os vereadores e Procurador da villa do Sabugal servem aos sobredictos á meza».
§ 23.° – Tem obrigação os officiaes da Camera da Villa do Sabugal virem a esta camara da villa de Sortelha pedir contas em cada hum anno, para poderem incoimar, dos pães e soutos, que tem nesta villa de Sortelha da limitação que tem para a parte da sua villa».
Dêsse mesmo documento se vê que a Vila foi reguengo da coroa e era então do conde D. Luiz da Silveira, que apresentava o ouvidor. Em cada ano serviam dois juizes, dois vereadores e um procurador, tinham jurIsdIção na eleIção dos almotacés, porteIros, Jurados e quadrllhelros. Aí se mencionam algumas cousas da vila, tais como castelo, onde havia cadeia, de que era carcereiro o lugar-tenente do alcaide-mor, praça, pelourinho, casa da audiência, sino, e casa do açougue.
Na vila havia uma só freguesia, pertencente à comenda de Cristo.

Condes e alcaides de Sortelha
Foram alcaides-morés desta vila os Barões de Quintela, mais tarde condes de Farrobo.
O 1.° conde de Sortelha foi D. Luiz da Silveira, alcaide-mor de Alenquer, e guarda-mor de D. João III e de D. Manuel, «do seu conselho, veador mór das obras, terças, resíduos, hospitaes e capellas, destes reinos e senhorios, disse Pinho Leal. Em Gois existe o túmulo dum dos Condes de Sortelha «História de Portugal», de P. Chagas).
No tempo de D. Manuel foi atcaide-mor e senhor da Vila Manuel Sardinha, seguindo-se Pedro Zuzarte, Garcia Zuzarte, a quem D. João III permitiu vender o título a D. Luiz da Silveira, em 1522, que depois foi feito conde. Este condado uniu-se depois ao de Vila Nova de Portimão. D. Luiz da Silveira fôra guarda-mor do príncipe D. João (depois III), que lhe prometeu nomeá-lo conde de Penamacor quando fôsse rei; mas, faltando ao prometido, nomeou-o, já então rei, conde de Sortelha, dando-lhe esta vila, impondo-lhe a condição de só poder usar do título cinco anos depois da nomeação. «Foi excelente poeta, brilhante cortezão, e por vezes muito valido, o que suscitou contra si muitas intrigas», diz o Ex.mo Conde de Sabugosa no livro «O Paço de Cintra», a pág. 87, nota, citando Braancamp Freire (Brazões da Sala de Cintra, pág. 450).
Filho do conde D. Luiz da Silveira foi o Pe GONÇALO DA SILVEIRA, missionário na Etiópia, que, depois de baptisar em 25-Janeiro-1561 e converter o imperador de Manamotapa, que recebeu o nome de Sebastião, por então reinar D. Sebastião em Portugal, e sua mãe, foi por êle mandado matar em 16 de Março de 1561, tendo 36 anos de idade e 18 de religioso.
Era doutor em Teologia, pertencendo à Companhia de Jesus.
Vê do Benomotapa o grande império
De selvática gente negra e nua
Onde Gonçalo morte e vitupério
Padecerá pela fé santa sua.

(Camões, Lusíadas, canto X, estância 93).
Diz-se no «Domingo Ilustrado» (artigo «Almeirim») que mais tarde o imperador, arrependido de ter mandado estrangular aquêle grande orador sagrado, lavou a mancha dum modo ainda muito mais cruel, mandando matar os homens do seu conselho, os mouros que o tinham executado e também a própria mãe. (F. 1.°, pág. 83). «Ilustração», pág. 90 de 11-11-907).
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Joaquim Manuel Correia

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