Memórias sobre o Concelho do Sabugal (47)

:: :: SEIXO DO CÔA :: :: O livro «Terras de Riba-Côa – Memórias sobre o Concelho do Sabugal», escrito há mais de um século por Joaquim Manuel Correia, é a grande monografia do concelho. A obra fala-nos da história, do património, dos usos e dos costumes das nossas terras, pelo que decidimos reproduzir a caracterização de cada uma das aldeias nos finais do século XIX, altura em que o autor escreveu as «Memórias».

Igreja Matriz do Seixo do Côa - Censos 1758 (foto: Capeia Arraiana)

Igreja Matriz do Seixo do Côa (foto: Capeia Arraiana)

Fica a povoação do Seixo do Côa a 17 quilómetros pouco mais ou menos ao norte do Sabugal, numa encosta da serra que lhe dá o nome, no fundo da qual passa o rio Côa, a que se reunem o ribeiro do Bezerrinho e a ribeira do Boi, confundidos desde as termas do Cró. O rio Côa divide o limite do Seixo dos de Valongo e Vale das Éguas.
Ao Seixo pertencem as povoações de Martim de Pêga e Peroficoz, a primeira um tanto ao Poente e a segunda ao Norte, ambas distantes mais de três quilómetros.
A povoação do Seixo está dividida em três partes, uma, a principal, edificada na encosta da serra, exposta ao Norte, outra distante mais de duzentos metros, exposta ao Nascente, e outra, mais ao Sul, passando entre estas uma ribeira, cujas margens são unidas por uma ponte de moderna construção no caminho do Sabugal à Cerdeira.
Esta freguesia é muito antiga e já no ano de 1768 tinha 101 fogos e no fim do século XVII 150 e 600 almas. Em 1893 tinha 187 fogos e 752 almas, incluindo o Peroficoz e Martim de Pêga.
No livro «Diocese e Districto da Guarda» impresso em 1902 figura com 209 fogos e 774 almas.
O pároco da freguesia era da apresentação do abade da Faia, vimos no «Portugal Antigo e Moderno», e tinha 20.000 reis de côngrua. O rendimento paroquial, agora, segundo as declarações do reverendo padre António Pires, pároco ali e natural do Rochoso, é o seguinte:
Côngrua, 90.000 reis; pé de altar, 30.000 reis; casamentos, 300 reis; baptizados, 300 reis, e bens de alma, 3.600 a 7.000 reis.

Cadeira de instrução primária
Há muitos anos que foi criada, sendo primeiro professor o nosso velho amigo e ex-condiscípulo em Malhada Sorda, Bernardino Lourenço da Silva Sampaio, natural da Cerdeira, para onde foi transferido.
Foi ele quem teve a iniciativa de mandar construir uma barraca de madeira no Cró e uma banheira de cantaria para mais decentemente ali tomarem banho ao preço de 20 reis as pessoas que quizessem aproveitar as águas no local, mas, tendo sido colectado no Sabugal, retirou a pia e barraca e tudo continuou como antes disso.
Foi ali muito estimado, como depois na sua terra natal, o que nos dispensa de maiores referências.
Depois dele foi despachado João Filipe Salvado, sendo também muito estimado na povoação.

Igreja paroquial
Foi há poucos anos construída, tendo havido sérias dificuldades por causa da escolha do local. Dizem-nos que ficou um templo vasto e decentemente ornado. O orago era N.ª S.ª das Neves, mas agora é Santa Maria Madalena.
Além da igreja, há ainda que mencionar duas capelas, a de Santa Bárbara e a da Senhora dos Milagres (esta no Cró) além das igrejas de Martim de Pêga e Peroficoz.
Modernamente construída à custa da povoação, a igreja de Peroficoz está decentemente ornada. Não há muitos anos ainda que ali havia um capelão pago pelos moradores. O Peroficoz é uma boa povoação, rica, muito arborizada.e tem bons prédios, especialmente lameiros, colhendo, assim como o Seixo, muito centeio, batata, feijão, milho e linho. É uma povoação pitoresca e florescente.

Filhos ilustres desta freguesia
Era natural do Peroficoz o Pe Domingos Fonseca, belíssimo carácter, que deixou grandes saudades aos parentes e amigos, consternados com a sua morte que teve lugar em circunstâncias imprevistas. Tinha cantado missa havia pouco tempo. Era primo do Dr. José Deniz da Fonseca e Domingos Deniz da Fonseca que muito o estimavam.
Era também natural do Seixo o falecido e inteligente filho de J. Luiz Barreiros, sobrinho do padre Barreiros. Tinha o curso de Teologia, feito no Seminário da Guarda. Sentindo-se, porém, pouco disposto a receber as ordens sacras, foi para as Caldas da Rainha, onde leccionou com geral agrado. Adoecendo gravemente, faleceu tuberculoso, sendo muito sentida a sua morte. Era sobrinho do nosso malogrado amigo e ex-condiscípulo em Malhada Sorda, padre Bernardino Pires, filho do abastado proprietário Domingos Pires, já falecido. Foi pároco em Valongo e Quadrazais e depois colado na freguesia do Rochoso, onde era muito benquisto dos seus fregueses, falecendo em 1909.
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Joaquim Manuel Correia

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