Memórias sobre o Concelho do Sabugal (45)

:: :: RUVINA :: :: O livro «Terras de Riba-Côa – Memórias sobre o Concelho do Sabugal», escrito há mais de um século por Joaquim Manuel Correia, é a grande monografia do concelho. A obra fala-nos da história, do património, dos usos e dos costumes das nossas terras, pelo que decidimos reproduzir a caracterização de cada uma das aldeias nos finais do século XIX, altura em que o autor escreveu as «Memórias».

Igreja Matriz da Ruvina - Censos 1758 - Foto: Capeia Arraiana

Igreja Matriz da Ruvina

Como todos costumam gabar a sua terra natal, suspeitos seríamos julgados se disséssemos que esta povoação era das mais pitorescas e bem situadas do concelho do Sabugal, ainda mesmo acrescentando que era das menos populosas, visto que em 1889 apenas constava 61 fogos e 41 em 1757. Fica a povoação 12 quilómetros ao norte do Sabugal, numa encosta abrigada do norte, cercada de arvoredo, ao cimo dum vale, onde abundam, além de muitos carvalhos e freixos, nos frescos lameiros que possui, muitas árvores frutíferas, incluindo oliveiras e algumas amendoeiras, cerejeiras, macieiras, pereiras, etc. Podia a povoação ser das mais higiénicas do concelho, porque a sua posição é das melhores, mas, infelizmente, por várias vezes tem sido vítima de epidemias, o que se pode atribuir ao pouco cuidado dos habitantes e especialmente às péssimas condições e falta de asseio da fonte.
A povoação luta todos os anos com a falta de água, apesar de em 1892 a Câmara ter procedido à exploração dela, construindo uma fonte no mesmo local da antiga, aproveitando a antiga nascente e reunindo-lhe, por um aqueduto subterrâneo, as águas da fonte chamada da Quelha. Ora, embora as intenções fossem boas, a verba destinada às obras foi insuficiente e o trabalho, feito por empreitada, não correspondeu à expectativa. Bastará dizer que o cano segue o caminho do Lameirão para se ver que as águas da chuva, infiltradas no terreno que o cobre, hão-de inquinar as da nascente. Além disso sucede que próximo da fonte há um pio destinado aos gados e um tanque para lavagem de roupas, tudo a pequena distância da fonte de água potável e com pouco escoante, o que assás contribui para que as águas sejam inquinadas, especialmente no verão, época em que elas não saem do depósito, onde as mulheres vão encher os cântaros, mergulhando-os.
Segundo o onomástico medieval, Ruvina significava ribeiro, embora isso implique com a lenda da fundação (V. Archeologo V. V XIV, pág. 373).
A Ruvina é povoação muito antiga e a sua fundação está ligada à lenda de Ruivós de que tratámos no artigo anterior. É certo que Ruivós foi noutros tempos povoação florescente, o que não sucedeu à Ruvina, que não passava de pequeno lugarejo; mas nos últimos tempos tem progredido consideràvelmente.
O limite da Ruvina fica compreendido entre os limites de Vale das Eguas, Ruivós, Nave, Vila Boa, Rendo e Rapoula, sendo a linha divisória deste lado naturalmente marcada pelo Côa.
Produz muito centeio, batatas, feijão, algum vinho, muito linho, algum trigo e grão de bico. Tem bons lameiros e pastagens e por isso cria muito gado lanígero, algum caprino e muitas juntas de vacas. Há na Ruvina muitos lavradores, porque todos os anos se semeia muito centeio e cereais e para a cultura do primeiro é mister lavrar três vezes o terreno, decruar, estravessar e semear, havendo três fôlhas, uma das quais fica de pousio dois anos depois da ceifa do centeio.
Colhe-se também muito feno nos bons lameiros ou pastagens limadas com as águas dos regatos. Tem alguns pinhais e também muitos carvalhos.
Perto da povoação, no Lameiro da Fonte, havia um carvalho notável pelo seu tamanho, que os herdeiros de Francisco António dos Santos cortaram e dividiram por morte dele.

Uma lenda e a história da igreja do Espírito Santo
Em tempos que ninguém sabe determinar veio a estas terras do Reino um dos antigos reis e houve ordem para de cada povoação ir pelo menos uma pessoa esperá-Io à sua passagem, prestando-lhe a devida homenagem. Como constasse que desta povoação não fosse pessoa alguma, foi-lhe imposto um grande tributo anual. Passaram anos sem os habitantes reclamarem contra o pesado encargo; mas averiguando-se que ainda tinha ido uma velhinha acompanhar o rei quando passou, foi encarregado Manuel Gonçalves, o vizinho mais importante, de pedir ao rei isenção do pesado imposto. Fêz o Gonçalves testamento, precaução usada por todos os que então iam a Lisboa, porque a jornada era demorada, e, ao partir, cravou um pau no sítio onde está a velha igreja do Espírito Santo, fazendo o voto de ali edificar uma igreja, se vencesse o pleito. Partiu o Gonçalves, bem acompanhado, levando um bom pé de meia. Conseguindo falar ao rei, expôs-lhe os motivos que o levavam à sua presença, alegando que o tributo que a povoação pagava era injusto, porque quando o rei passara lá ainda uma velha o acompanhou.
– E que provas há disso? Que garantias dais?
Manuel Gonçalves estendeu diante do rei e da rainha uma manta e sobre ela despejou o pé de meia, que continha uma avultada quantia e spondeu:
– O meu fiador é este.
– Donde houvestes tanto dinheiro? – preguntou novamente o rei.
– Só do mel das minhas colmeias e dos ovos das minhas galinhas apurei tudo isto que trago.
– Colmeia que tanto dá deve todos os anos ser crestada – disse a rainha.
– Não – emendou o rei – são êstes os que trazem o reino em pé.
E, virando-se para o rústico lavrador, prometeu acabar com o tributo.
Partiu Manuel Gonçalves satisfeito, depois de beijar a mão ao rei e à rainha e regressou à terra natal, onde os vizinhos ansiosamente o esperavam, dando-se pressa em cumprir o voto.
O caso pode ser verosímil e a tradição oral dá-o como certo, ouvindo-o nós contar muita vez, dando-se como prova a velha igreja do Espíto Santo, que foi a paroquial durante muitos anos e cuja antiguidade se revela nos sulcos abertos pelas cadeias com que tocavam o sino colocado singelo campanário que assenta sobre o lado esquerdo do frontispício.
A igreja é toda de cantaria, ainda em bom estado, excepto o tecto e tinha um bom altar de talha dourada, que há muitos anos foi mudado para actual igreja paroquial, onde se admiram as parras, as uvas e pássaros as colunas. A porta é em arco. Ao lado esquerdo desta igreja fica o cemitério paroquial, o mais modesto possível, muito mais do que devia ser m local destinado a tão piedoso fim, pois que os muros são construídos e pedra sôlta, simples alvenaria.

Instrução
Em 1880 foi criada a cadeira de instrução primária para o sexo masculino, que depois foi convertida em escola mista. O primeiro professor nomeado para reger a cadeira foi José Augusto.
A escola esteve instalada em casa de renda, mas em 1892 foi instalada em casa própria, edificada à custa da povoação em bom local, sendo uma das melhores do concelho pela sua exposição e condições higiénicas. Tem sempre tido bons professores, motivo porque é das mais frequentadas. Antes da criação desta escola os pais de familia pagavam a professores particulares, como sucedia em Vale das Éguas, à qual seguiram o exemplo. Um dos que ali ensinavam particularmente foi Bernardino Costa que depois se habilitou, sendo nomeado professor da Vila de Touro. Antes dele ensinavam a ler vários indivíduos, como da Rapoula.
Professores oficiais da Ruvina têm sido: José Augusto, Manuel Martins, D. Felicidade de Jesus Afonso (do Baraçal), D. Marta A. Gonçalves, D. Isabel Augusta Dias, ambas estas naturais de Vilar Maior.

Igreja paroquial
Foi edificada em meados do século XVIII quase ao fundo da povoação, tendo ao lado esquerdo do observador um campanário de boa cantaria, há poucos anos levantado mais dum metro, por iniciativa do falecido pároco P.e Francisco Cancela, para melhor poderem ser ouvidos ao longe os dois sinos, um deles, se não ambos, feito pelo distinto artista Oliveira do Baraçal.
A igreja tem boa aparência e regulares proporções e seria já insuficiente para a população actual se o benemérito e estimado cidadão já falecido, Luís José da Cunha, não tivesse mandado construir à sua custa um côro, também regular, embora simples.
Há nesta igreja três altares, sendo dois laterais, o de Santo António e Santa Bárbara, este último mudado para ali da antiga igreja do Espírito Santo. O orago é N.a S.ra do Rosário. Nem esta imagem nem as restantes são dignas de menção especial, porque são tôscamente feitas.
O altar mor foi há poucos anos feito pelo José Louro do Sabugal e tanto este como os outros estão dourados e muito decentes.
O pavimento da igreja é todo de cantaria.
O cura da Ruvina era da apresentação do Abade do Sabugal, disse Pinho Leal no «Portugal Antigo e Moderno», acrescentando que êsse abade era o da freguesia da S.ª da Conceição (?). Ora, se existiu tal freguesia foi há muitos anos, porque só da de S. João e de Santa Maria há memoria. Recebia o cura, segundo disse o meretíssimo escritor a quantia de 50000 réis, o que nos parece exagero.
O rendimento paroquial, segundo as declarações do falecido p.e Francisco Cancela é o seguinte:
Côngrua 60000 réis, casamentos e baptisados 240 réis, bens de alma de 6000 a 18000 réis, além dos acompanhamentos e responsos.
Todos os anos se celebram algumas festas, sendo a mais luzida a do Santíssimo, em que costuma haver ainda o passeio dos moços, todos armados e nos últimos tempos quase todos vestidos à militar, por haver muitos fardamentos dos reservistas. Antigamente só os mordomos se vestiam de alferes e capitão cujas fardas e espadas pediam emprestadas às famílias dos antigos capitães da Bicha e capitães Mores. Os moços vão todos armados de espingardas, que os particulares Ihes emprestam. Nunca ali houve desgraças nos dias de festa, mas tem-nas havido noutras povoações em virtude da inexperiência das armas e de as carregarem de mais. Este uso é imemorial.

Ermida da S.a das Preces ou da S.a dos Prazeres no Cabeço de Caria Atalaia
Três quilómetros pouco mais ou menos ao poente da Ruvina, sobre o Cabeço de Caria Atalaia, existe também uma capela de regulares dimensões, da invocação da S.ª dos Prazeres, que, num nicho sobre a porta principal, tem uma tôsca imagem, onde se lê o nome de N.ª S.ª dos Prazeres, mais conhecida, porém, por S.ª das Preces, onde se celebra uma festa muito concorrida no domingo de Pascoela.
Nesse dia reuniam. se outrora sete romarias, ou, como noutras partes diriam, sete círios: Nave, Ruivós, Vale das Eguas, Rapoula, Vila Boa, Rendo e Valongo; mas havia quase sempre desordens, porque alguns indivíduos dessas terras aproveitavam a ocasião para liquidarem questões antigas, não obstante haver no local quase sempre fôrça militar.
Para evitar tais desordens o bispo da Guarda D. Tomaz de Almeida extinguiu a romaria à povoação da Ruvina. Mas, apesar disso, o mal não desapareceu, porque continuou a ir ali gente de muitas povoações e continuou havendo desordens.
Nenhuma, porém, teve as consequências da que houve em 17 de Abril de 1898, mesmo no cimo do cabeço, entre homens da Ruvina e Rapoula, ficando feridos muitos desta freguesia e morto Manuel Francisco Galante, rapaz valente e corajoso, que estava à frente dos outros. Foram pronunciados cinco indivíduos, sendo dois condenados a dois anos de prisão correccional, custas e sêlos do processo, havendo dois, Manuel Ferreira, o Rocha e Manuel Afonso Pires, que tiveram comutação de pena, falecendo um, Jerónimo Monteiro dos Santos, muito antes do julgamento, em casa dos pais, porque não tinha ainda sido prêso.
No Cabeço de Caria Atalaia existiu uma povoação, havendo ainda restos de muralhas na parte sudeste da encosta e conhecendo-se bem o ponto onde estavam as desaparecidas, havendo um troço delas ao cimo do cabeço. A ermida foi construída provàvelmente com pedra tirada das muralhas, assim como algumas casas da Ruvina.
A respeito desta povoação lê-se na «Monarchia Lusitana»: «EI-Rey D. Fernando, o Sancto, filho deste Rey D. Affonso & da Rainha D. Berengela. .. deu foral (ao Sabugal) e por termo Villar Maior e Caria Talaya, outra povoação e Castello a duas leguas do Sabugal, para o Norte, de que hoje não ha mais que ruinas).

É provável que no tempo de Fernando, o Santo, fosse povoação ainda importante, visto que tinha o seu castelo, cujo sítio é conhecido pelos homens mais antigos, e que depois decaísse a pouco e pouco desde que passou para o domínio português no tempo de D. Deniz, desnecessário como era o seu castelo ali na margem esquerda do Côa, visto que a fronteira avançou algumas léguas para dentro de Espanha e Caria Atalaia não era já ponto estratégico.
Ê possível que ali tivesse havido um castro como outros muitos existentes no concelho. A lenda diz, ora que a povoação desapareceu por causa duma praga de formigas, ora que foi em virtude de ter sido arrazada depois dum demorado sitio.
Não conhecemos documento que esclareça o caso. Numa casa contígua à capela existem no rebôco umas inscrições cuja leitura parece impossível de averiguar. São as seguintes:
A Q BM E
H S I O V
DEXA DE INTENDER
NEMGEM
OC E MEE A I VE S
MENTEVNIDA
165 AAD P A – E D M R
José Pires, dono do terreno onde existia a povoação, achou ali um pedaço de machado de bronze (?) e uma moeda de Afonso IX de Leão, que oferecemos ao Museu Etnológico.
Em 1332 já existia a igreja de «Caria Talaya», pertencendo ao Sabugal, e que era taxada em 7 libras («Diocese e Districto da Guarda, pág. 511).
No limite da Ruvina, cujo solo é todo granítico, existem grandes rochedos, a que ali chamam barrocos, que dão à paisagem um aspecto áspero e rude, mas onde há muito que observar, porque nalguns existem vestígios incontestáveis de em tempos remotos o homem ter neles assinalado a sua passagem. Em poucas freguesias do concelho há tantos destes curiosos vestígios, especialmente nos sítios do Barreiro, da Cancela e Tapada do Barrôco do Paio.
Referimo-nos às fossas ou pias existentes nos barrocos, algumas denominadas cúpulas pelos especialistas neste assunto.
Jorge Riviere na sua obra «Âge de la Pierre» diz a respeito das cúpulas:
«Certaines pierres disseminés dans un grand nombre de contrées sont couvertes d’un signe fort simple, toujours groupés, et qui n’est vraisemblablement qu’un motif décoratif. C’est un petit godet qu’on a appelé cupule ou écuelle et dont on ne peut mettre en doute I’origine intentionelle».
«Les pierres à cupules sont tres nombreuses en Suisse ou elles furent d’abord observées. On en a découvert en Allemagne, en France, en Espagne, en Portugal, ou M. Em. Cartailhac en a trouvé plusieurs sur les allées couvertes».
Traduzamos o que este escritor diz ainda:
A cúpula parece indicar um sinal cujo sentido a mor parte das povoações neolíticas compreendia, assim como as que viveram na idade de bronze. É desconhecida a significação dela. Talvez seja um número, talvez um emblema. Os monumentos em que se encontram as cúpulas não são, por sua natureza, de utilidade nenhuma para esclarecer a questão. Estes godets, de grandeza variável, foram assinalados nas lages (dalles) dos dolmens, no interior das criptas e também nas faces exteriores dos túmulos. São frequentes nos menhirs, e até aqui estes monumentos não nos revelaram seus segrêdos; não se chegou ainda a um acôrdo sobre o destino deles». Trata-se, pois, de um problema, ainda não resolvido. Que houve intencionalidade na execução das cúpulas parece incontestável.
Para se fazer idéia destas cúpulas fizemos um desenho dum barroco da tapada do Barreiro onde se encontram muitas agrupadas, umas maiores que outras e algumas conjugadas, estas do lado exposto ao sul. Neste barroco existem seis fossas ou pias, menores umas que outras, sendo duas conjugadas.
Num colossal monolito denominado Barroco do Paio, que fica na tapada contígua à do Barreiro, existem também pequenas fossas e nos barrocos próximos, numa terra de pinhal, há outras mais, algumas semelhantes aos esconderijos que existem nos rochedos de Sortelha, mas já ventilados, se assim podemos exprimir-nos, deixando perceber que a cavidade era feita em espiral.
Quem quiser dedicar-se ao estudo destas pequenas cavidades, fossas, pias ou cúpulas, como quiserem chamar-lhes, tem neste sítio vasto campo de observação.
Certamente, perto do Barroco do Paio, houve alguma estação pré-histórica, porque ali e nas proximidades raros serão os penedos ou barrocos que não tenham alguma poça ou fossazinha, na parte superior ou dos lados.
É misterioso ainda o fim daquelas singelas manifestações artísticas, que não deviam obedecer a um fim ornamental. As pias do alto deviam ter um destino diferente das restantes, talvez para receber líquidos, espremer frutos ou para cortumes de peles; mas seria êsse o destino? E as dos lados que destino tinham? Seriam começos de esconderijos? Seria o número le pessoas da família, das tribus, ou dos chefes? Seriam feitas por mero passatempo? Não é fácil responder, mas a última hipótese é pouco provável.
O que temos observado é que geralmente aparecem em barrocos com concavidades ou reintrâncias que os tornavam próprios para abrigos, não só ali, no Barroco do Paio, mas também no sítio das Láginhas. Seriam feitas por um só indivíduo com fim determinado, ou umas substituíam as outras, despresadas pelos últimos? Talvez façamos sobre o assunto um estudo especial; mas presentemente nada mais diremos senão que perto do Barroco do Paio têm aparecido instrumentos pré-históricos, tendo nós achado ali um machado de chisto, maior que os outros aparecidos no concelho, o qual, infelizmente, desapareceu do sítio onde o guardei. Teria um palmo de comprimento e era de pedra escura.
No chão das Láginhas há um barroco, que era abrigo e tinha cavidade à altura da cabeça, destinada a abrigar esta, havendo uma semelhante na tapada do Francisco António, ao descer para a Fonte Urtiga. Ambas ficam ao norte do barroco, abrigadas da chuva (do sul) o que torna evidente o intuito dos homens.

A instrução
Desde longa data existe na Ruvina o gôsto pela instrução. Apesar de ser uma freguesia pequena, das menos populosas do concelho, raras vezes tem tido pároco extranho à povoação e quase sempre tem tido ao mesmo tempo dois e mais eclesiásticos.
No século passado, no primeiro e parte do segundo quartel, houve ali o padre Francisco Monteiro da Cunha (?) padre Manuel Correia, que foi pároco em Vilar Maior e Sabugal, estando prêso no Limoeiro em virtude das ideias Miguelistas, e o padre Manuel Moca, cura do Baraçal.
Depois destes paroquiou a .igreja o padre Jerónimo Moteiro dos Santos, durante muitos anos, sucedendo-lhe o padre Francisco Cancela porque a gota o impossibilitou, sendo um e outro da Ruvina.
Entretanto ordenaram-se mais dois filhos da Ruvina, o padre José Martins Pinto, filho de Bernardino Pinto e Ana Pires, lavradores e comerciantes em pequena escala, cantando a primeira missa em 15 de Agosto de 1900, sendo nomeado pároco de Vale das Éguas, vivendo em Valongo. O 2.° é o padre Victorino Monteiro Limão, filho do falecido Francisco Monteiro Limão e D. M.a Cândida da Cunha Limão, que cantou missa em 1906.
Tendo-se impossibilitado o padre Cancela, foi substituido em Junho de 1903 pelo padre Vital L. de Almeida, de Rendo, vivendo em Ruivós; mas foi passada carta de encomendação ao padre José M. Pinto em 1904, que não se demorou, continuando em Vale das Éguas e Valongo, onde tem sido estimado. Foi para a Nave em 1918.
Continuando ali, o padre Vital foi substituido pelo padre Victorino que ali foi muito estimado, falecendo em 1918, vítima da pneumónica.
Dois irmãos deste último frequentaram o colégio de S. Fiel, deixando de continuar por motivos de doença. Em seguida foi pároco o padre Antunes, de Santo Estevão.
Também por motivo de doença, interrompeu os estudos, já em Coimbra, João Correia Martins, falecido em 1 de Agosto de 1908.
Natural da Ruvina era também o Dr. Alvaro Augusto Diniz da Fonseca, que foi estudante distinto, filho de Domingos Diniz da Fonseca e de D. Isabel Maria Correia e neto de Domingos Cancela e de D. Ana Correia. Foi vitimado pela pneumónica, em 1918.
Foi também pároco na Ruvina e Ruivós o padre Murcela, que faleceu vigário de Vale de Espinho. Era natural de Almeida.

Alguns factos esquecidos
Em 1861 houve nesta freguesia grandes inundações, cujos prejuizos foram calculados em quantia elevada, recebendo os cidadãos prejudicados a quantia total de 742000 réis.
Foi nomeada uma comissão para avaliar os prejuizos, composta dos cidadãos Luís José da Cunha e Francisco António dos Santos, sendo regedor Joaquim Correia.
Sofreram prejuízos os seguintes individuos: Luís da Cunha, 90000 réis; Joaquim Antunes, 30000 réis; Francisco António, 35000; João Antunes, 60000 réis; Francisco Robalo, 24000 réis; José Afonso Pires, 10000 réis; José Mendes, 10000 réis; Maria Afonso Barnabé, 2400 réis; André Pires, 15000 réis; Reverendo Jerónimo Bernardes dos Santos, 15000 réis; Bernardino André, 10000 réis; Maria Pires, 2000 réis; José Pires, 2000 réis; Joaquim Robalo, 10000; Teotónio Sanches, 30000 réis; José Valente, 10000 réis; António Robalo, 30000 réis; Alexandre Correia, 1200 réis; Maria Mz. Rega, 18000 réis; Manuel Gonçalves, 18000 réis; Teresa Afonso Pires, 8000 réis; Joaquina Fernandes, 20000 réis; João Domingues, 3000 réis; António André, 3000 réis; Maria Correia, 2000 réis; José André, 5000 réis; Domingos Cancela, 5000 réis; Joaquim Pires, 1000 réis; Manuel Martins, 1000, réis; Quinta da Telhada, 80000 réis; Manuel Antunes, da Bismula, 2000 reis; Joaquim Vaz, de Vale das Éguas, 2400 réis.
Os prejuizos consistiram em açoreamentos ou aglomeração de areias, muros derrubados e terrenos levados pela corrente, em tapadas, hortas e lameiros e outras propriedades.
Esta relação foi tirada doutra aprovada pelo regedor e louvados em 31 de Março de 1861, que o autor destas linhas possue.
A Ruvina pagava em 1855, 12810 réis de contribuIção municipal e expostos, em 1860 pagava 25990 réis e 64520 em 1870.

Em 1864, pouco mais ou menos, uma grande quadrilha composta, ao que diziam, de quarenta indivíduos de várias povoações, tentaram assaltar a casa do abastado proprietário, já falecido, Luís José da Cunha. Amarraram os criados, entre eles o ganhão José António, de Vale das Éguas, e obrigaram este a gritar à porta da residência, e pedir ao amo que se levantasse, que estava um boi a morrer. Luís da Cunha, que desconfiou, muniu-se duma espingarda e respondeu ao criado que fosse chamar o seu compadre Francisco Robalo, que era muito entendido, mas não disparou com receio de matar o criado. Entretanto a professora da filha, D. Leopoldina Thadeu, gritava por socorro no mirante, a ponto de ser ouvida em Rendo, apesar de ser talvez meia-noite; e um criado e o José Pires, que estavam no páteo, fugiram, gatinhando, para a cêrca, indo este em direcção ao campanário e tocando a rebate. Em poucos minutos todo o povo corria e fazia fogo
sobre os assaltantes, que, surpreendidos pela rapidez dos socorros, fugiram vertiginosamente, parando na encruzilhada do sítio da do Rato entre a Ruvina e Nave. Houve votos para retrocederem, mas não tiveram coragem, para tanto. No dia seguinte José António Gonçalves, de Ruivós, indo para o Sabugal, achou ali um papel com muitos nomes de indivíduos conhecidos, que entregou a Luís José da Cunha. Este enviou-o ao Administrador do concelho e dentro em pouco eram prêsos muitos dos da quadrilha, dos quais grande parte condenados a degredo.
O capitão da quadrilha (o capador, de Parada) passara a noite em Alfaiates, jogando, e tão ràpidamente venceu a distância dali ao limite da Ruvina que provou não poder estar com os da quadrilha. Talvez ao facto de não ter ido logo com estes é que foi devido o insucesso; mas foi condenado. Outro acontecimento semelhante teve logar em casa de Manuel Gonçalves. Leonardo, o Ermitão, acompanhado de um quadrazenho, assaltou-lhe a casa. Os dois entraram no quarto onde Manuel Gonçalves e mulher, Paula Rega, dormiam e que acordaram sobressaltados. Ela ficou aflita e mal poude gritar, mas ele lançou-se a um dos ladrões e dominou-o, ao passo que o outro fugia. Com a precipitação da fuga, o quadrazenho, ao saltar uma parede na vinha das Oliveiras, caiu, partindo uma perna e esteve ali um dia, sendo depois prêso. O Ermitão era do Colmeal, mas residia havia muito tempo na Ruvina, sendo ermitão da Senhora das Preces, esmolando de terra em terra. Quando respondeu, depois de o defensor falar, apostrofou-o, dizendo: – «Pode ir defender porcos ao Alentejo».
Foram ambos degredados.
O roubo não se efectuou por haver socorros rápidos e o ermitão foi descoberto por deixar em casa do Manuel Gonçalves um chapéu que lhe dera João Antunes, de esmola.
Não deixaremos de referir a Cruz Nova, de cujo sítio se gosa belo horizonte, tendo sido levantada pelo P.e Domingos. em 1666.
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Joaquim Manuel Correia

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